Programa da conferência
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T4.1 - A transformação
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50 anos de investigação em florestas e produtos florestais: o papel do Centro de Estudos Florestais no Instituto Superior de Agronomia Centro de Estudos Florestais, Instituto Superior de Agronomia, e Laboratório Associado TERRA, Universidade de Lisboa,Portugal A expansão e recuperação florestais e a dinamização de uma indústria de base florestal que se iniciaram em Portugal no final do séc. XIX e concretizadas principalmente no séc. XX, reconheceram a necessidade de conhecimento e da sua aplicação e, por isso, foram acompanhadas pela criação de unidades e programas de investigação, e de formação avançada. Marcos importantes ocorreram há 50 anos com a criação do Centro de Estudos Florestais (CEF), no Instituto Superior de Agronomia, em 1976, e da Estação Florestal Nacional no Instituto Nacional de Investigação Agrária, em 1977. O Centro de Estudos Florestais, fundado como uma unidade de investigação multidisciplinar orientada por objetivos estratégicos, com uma abordagem à investigação pioneira no quadro nacional universitário, evoluiu em termos de organização temática e estrutural acompanhando o desenvolvimento do conhecimento, o contexto da ciência e da economia nacionais, assim como o enquadramento internacional nas suas áreas temáticas. Inicialmente inserido no Instituto Nacional de Investigação Científica (INIC), depois integrado na Junta Nacional de Investigação Científica e Tecnológica (JNICT) e na Fundação para a Ciência e a Tecnologia (FCT), o CEF acompanhou a evolução da política científica nacional, constituindo hoje uma das Unidades de I&D do Sistema Nacional de Ciência e Tecnologia. A atividade científica do CEF pode ser sistematizada em três fases na evolução: i) Visão estratégica, 1976- 1992 : Projeto integrado multidisciplinar ii) Expansão temática, 1993-2012 : Projeto global e orientação por áreas científicas iii) Maturidade e integração, 2013-2026 : Grupos focados em temas integrados Com uma perspectiva sistémica da investigação, multidisciplinar e orientada para um objeto de estudo com relevância nacional, o CEF adotou o “Estudo do Ecossistema Eucaliptal” considerando a expansão programada de plantações de eucalipto numa perspectiva de produção de matéria prima para a indústria de pasta para papel, também em crescimento. O CEF alargou depois a sua área de investigação, aplicada aos grandes temas científicos globais, integrados no programa global “Gestão sustentada de ecossistemas florestais”, mais tarde designado “Uso sustentado e biodiversidade de ecossistemas florestais portugueses: uma perspectiva multidisciplinar”, estudando diferentes espécies e ecossistemas, nomeadamente sobreiro e cortiça assim como fogos rurais. Seguidamente o CEF adotou uma estratégia de concentração de massa crítica em grupos integrados focados em temas científicos globais e da sua interação com problemas complexos da sociedade e economia: resposta dos ecossistemas a mudanças globais, interações ambiente-sociedade, gestão sustentável multirecursos e de serviços, e inovação de produto, economia verde e biorefinarias. Nesta apresentação faz-se uma síntese do impacto que os 50 anos de atividade de investigação científica e tecnológica do CEF tiveram no conhecimento, na produção científica e na formação avançada, assim como na sua aplicação na economia e sociedade. Procura-se mostrar com este exemplo como a I&D foi resposta aos desafios enfrentados pela floresta e indústria florestal, e como desempenha um papel central na ambição de uma floresta sustentável ecológica, económica, e socialmente. A evolução da Fileira do Pinho em Portugal (2015–2024) Centro PINUS, Portugal Desde 2015, o Centro PINUS publica anualmente a edição digital “Indicadores da Fileira do Pinho”, compilando informação florestal, industrial e socioeconómica relativa ao pinhal-bravo e à sua fileira de transformação. O presente trabalho analisa longitudinalmente as dez edições publicadas entre 2015 e 2024, com o objetivo de identificar tendências estruturais da fileira em Portugal. Os resultados evidenciam uma forte divergência entre a evolução da base florestal e a dinâmica industrial. Entre 1995 e 2015, a área de pinheiro-bravo diminuiu de cerca de 978 mil ha para 714 mil ha (-27%), tendência posteriormente agravada pelos incêndios de 2017, que afetaram aproximadamente 125 mil ha de pinhal-bravo. Paralelamente, persistiu um défice estrutural de madeira, estimado em cerca de 48% do consumo industrial em 2024. Apesar deste contexto, a fileira revelou elevada resiliência económica e industrial. As exportações atingiram máximos históricos em vários anos da série, o número de empresas industriais manteve-se relativamente estável e o emprego associado à fileira ultrapassou 60 mil postos de trabalho em 2022. Em 2024 verificou-se ainda um crescimento de 10% na produção de madeira serrada e um aumento de 75% no número de plantas certificadas de pinheiro-bravo, atingindo 10,8 milhões de plantas. Os resultados mostram igualmente uma crescente relevância da gestão agrupada e uma forte persistência de assimetrias territoriais na distribuição do investimento público florestal. A década analisada revela simultaneamente a capacidade de adaptação da Fileira do Pinho e a crescente vulnerabilidade da sua base florestal. Os resultados reforçam a necessidade de políticas integradas capazes de promover simultaneamente a renovação do recurso florestal, a gestão ativa da paisagem e a competitividade da fileira. A certificação florestal está a contribuir para a conservação do montado de sobreiro? Centro de Ecologia Aplicada "Prof. Baeta Neves" (CEABN-InBIO), Instituto Superior de Agronomia, Universidade de Lisboa, Portugal A certificação florestal, uma ferramenta de conservação que visa promover a gestão florestal sustentável, tem vindo a expandir-se globalmente e a ser aplicada em diferentes sistemas incluindo os montados de sobro. Em Portugal, o país com a maior área de sobreiro e líder mundial na produção de cortiça, aproximadamente 150 mil hectares (cerca de 20%) da área de montado de sobro encontra-se sob certificação florestal. Para aderir à certificação, os produtores florestais necessitam de cumprir práticas de gestão que cumpram normas ambientais e socio-económicas. No âmbito das normas ambientais, os proprietários necessitam de implementar zonas de conservação, para conservação da biodiversidade e dos serviços do ecossistema, em aproximadamente 10% da área da unidade de gestão florestal. Neste trabalho sintetizo os resultados do nosso grupo de investigação sobre os efeitos da certificação florestal na sustentabilidade ecológica e biometria dos povoamentos de sobreiro. Embora exista um declínio do montado de sobreiro, com redução da densidade dos povoamentos de sobreiro certificados e não certificados, os resultados sugerem que o declínio é mais acentuado nas áreas não certificadas, podendo a certificação florestal estar a desempenhar um papel na mitigação do declínio dos montados de sobreiro. No que respeita às zonas de conservação, os resultados indicam que a heterogeneidade de habitat, a cobertura e a diversidade do sub-coberto arbustivo, assim como a regeneração natural, tendem a aumentar nas zonas de conservação, embora com resultados variáveis consoante o tempo decorrido desde a implementação das zonas de conservação. Relativamente aos valores de biodiversidade, a monitorização da avifauna em propriedades certificadas evidencia que as comunidades de aves diferem entre zonas de conservação e zonas controlo com as espécies dependentes de matos e insectívoras com maior abundância nas zonas de conservação e as espécies dependentes de áreas mais abertas, de pastagem, mais abundantes fora das zonas de conservação. Em termos globais, o estabelecimento de zonas de conservação como parte do processo da certificação florestal aumenta a diversidade de aves e de plantas à escala da propriedade. Relativamente às tendências da certificação na área de distribuição do sobreiro em Portugal, verificámos que a certificação florestal se iniciou nas áreas de maior capacitação técnica dos proprietários e mais elevada produção de cortiça. Estes resultados sugerem que os primeiros proprietários a aderir à certificação são também os melhor organizados e apoiados por associações de produtores florestais. Resinagem e serviços de ecossistemas florestais: valorização económica, incentivos públicos e bioeconomia rural 1: Resipinus - Associação de Destiladores e Exploradores de Resina, Portugal; 2: Cerna - Regia-Douro Park, Vila Real, Portugal A resinagem constitui uma atividade estratégica para valorizar o pinhal e revitalizar territórios rurais de baixa densidade. Além da produção de resina natural, gera rendimento, emprego e presença humana na floresta, contribuindo para serviços de ecossistema como gestão ativa dos povoamentos, redução da carga combustível, vigilância informal, deteção precoce de incêndios, sequestro de carbono, conservação da paisagem e dinamização da bioeconomia. Contudo, muitos destes benefícios ficam fora dos mercados e não são refletidos no rendimento dos proprietários, resineiros ou empresas, traduzindo uma falha de mercado que condiciona a continuidade da atividade, apesar do seu valor económico, ambiental e social. Neste contexto, foi realizada uma análise sobre políticas públicas orientadas para valorizar a resinagem como atividade prestadora de serviços de ecossistema. A abordagem assenta em literatura sobre pagamentos por serviços de ecossistema, valorização económica florestal, bioeconomia e políticas de apoio a produtos florestais não lenhosos, complementada por benchmarking internacional, com destaque para Espanha. Castilla y León surge como referência por possuir uma política setorial consolidada, que articula apoio aos povoamentos resináveis, apoio direto ao resineiro, emprego, licitações municipais e integração da resinagem na gestão florestal, prevenção de incêndios e coesão territorial. Os resultados evidenciam que a resinagem deve ser entendida não só como atividade extrativa, mas como prática multifuncional de gestão territorial. Assim, a política pública deve evoluir de apoios pontuais para mecanismos estáveis de remuneração dos benefícios públicos gerados. Entre os instrumentos relevantes incluem-se pagamentos por serviços de ecossistema em pinhais resinados, contratos plurianuais de gestão, apoios à mão de obra, incentivos à mecanização e inovação, valorização da resina natural certificada, instrumentos fiscais para substituir matérias-primas fósseis e mecanismos de mercado ligados ao carbono, biodiversidade e redução do risco de incêndio. A adoção de pagamentos por “pacotes” poderá remunerar benefícios ambientais, sociais e económicos de forma integrada. A experiência espanhola demonstra que apoiar apenas o povoamento não garante a continuidade da resinagem. O diferencial dos modelos mais avançados está no reconhecimento do resineiro como agente económico e territorial, cuja presença regular na floresta gera valor público. Para Portugal, esta leitura aponta para um modelo híbrido de política, combinando financiamento público, participação privada e valorização industrial da resina natural como matéria-prima renovável, reduzindo a dependência fóssil. Este modelo deverá articular-se com ordenamento, gestão agrupada, prevenção de incêndios, certificação e bioeconomia florestal. Conclui-se que a resinagem deve ser reconhecida como atividade prestadora de serviços de ecossistema e como instrumento de política florestal, climática, industrial e territorial. A sua valorização exige melhor informação biofísica e económica, simplificação administrativa, monitorização dos serviços prestados e mecanismos de remuneração estáveis. Ao pagar não apenas pela resina produzida, mas também pela natureza gerida e pelo trabalho humano que mantém o território ativo, será possível reforçar a resiliência do pinhal, criar rendimento rural e consolidar uma fileira da resina natural competitiva, sustentável e alinhada com a bioeconomia. Certificação florestal em Arouca: restauro ecológico e resistência ao fogo nos Passadiços do Paiva 2BForest, Portugal Na envolvente dos Passadiços do Paiva, em Arouca, uma propriedade de 24,5 ha constitui um exemplo de como a certificação florestal pode apoiar o restauro ecológico e reforçar a resistência da paisagem ao fogo. Esta propriedade integra o grupo de certificação 2B_Forest_Group (FSC‑C135716) e constitui a área piloto do Pereiro (M152), no âmbito do projeto P4.2 – Valoração de Serviços de Ecossistemas, integrado na Agenda transForm. Quase totalmente inserida no sítio Natura 2000 Rio Paiva (PTCON0059), a propriedade tem vindo, desde 2021, a ser gerida com o objetivo de converter progressivamente uma área dominada por plantações de eucalipto numa paisagem mais naturalizada. Neste contexto, o programa ES_SPONSOR, desenvolvido pela 2BForest, tem funcionado como enquadramento para financiar e comunicar intervenções de restauro orientadas para a recuperação da biodiversidade, o aumento do sequestro de carbono e a valorização dos serviços recreativos associados aos Passadiços do Paiva. No presente trabalho, apresentam-se os resultados alcançados com este programa e a estratégia de verificação de impactos seguida pela 2BForest no âmbito do procedimento FSC. As operações florestais realizadas entre 2022 e 2025 evidenciam uma estratégia continuada de restauro ecológico. Em 2022, foram intervencionados 10,11 ha com plantação de espécies arbóreas autóctones, promoção da regeneração natural de Quercus robur, abertura de clareiras e seleção de varas. Em 2023, as ações prolongaram-se por 4 ha, acrescentando o controlo da vegetação espontânea e de espécies exóticas invasoras (Acacia sp.). Após o incêndio de setembro de 2024, realizaram-se novas operações em 2025, incidindo no controlo da vegetação espontânea e das espécies exóticas invasoras nas áreas afetadas. Em conjunto, estas intervenções contribuíram para reduzir a continuidade do combustível, criar condições para o estabelecimento de vegetação nativa e reforçar a capacidade de recuperação ecológica da propriedade. A monitorização realizada em 2025 mostra que, apesar do impacto do fogo, a área manteve sinais relevantes de recuperação ecológica. Através de amostragem por eDNA, foram identificados 272 táxones animais no período pós-incêndio, face a 228 em 2024, incluindo espécies com interesse de conservação, como Oryctolagus cuniculus (EN), Rana iberica (VU) e Lutra lutra (NT). A caracterização florística confirmou ainda a presença de 75 espécies da flora vascular e a persistência da espécie endémica Anarrhinum longipedicellatum. Em paralelo, a evolução dos stocks de carbono e a análise de imagens Sentinel-2 sugerem que as áreas intervencionadas apresentaram maior capacidade de resistência ao fogo e de recuperação pós-incêndio, evidenciando o contributo do restauro ecológico para a resiliência da paisagem. Este caso de estudo, materializado na área piloto do Pereiro, demonstra como a certificação florestal pode funcionar como um instrumento de suporte ao restauro ecológico, ao viabilizar financeiramente operações orientadas para a recuperação de habitats, a mitigação do impacto do fogo e a valorização ambiental. No âmbito do 10.º Congresso Florestal Nacional, esta área evidencia a importância de articular a gestão ativa da floresta com a comunicação eficaz de resultados, contribuindo para transformar Arouca num território mais resiliente e capaz de gerar benefícios ecológicos e sociais a longo prazo. Do conservation zones in Mediterranean oak woodlands contribute to water infiltration? 1: Centre for Applied Ecology “Prof. Baeta Neves” (CEABN-InBIO), School of Agriculture, University of Lisbon, Portugal; 2: Department of Environmental and Geospatial Science, Stephen F. Austin State University, Nacogdoches, TX 75962, USA; 3: Department of Ecology and Conservation Biology, Texas A&M University, College Station, TX 77843, USA; 4: World Wide Fund for Nature, WWF Portugal. Lisbon, Portugal; 5: Forest Research Centre (CEF), Associate Laboratory TERRA, School of Agriculture, University of Lisbon, Tapada da Ajuda, Lisbon 1349-017, Portugal Mediterranean oak woodlands (“montados” or “dehesas”) are highly diverse socio-ecosystems that require sustainable practices to maintain their structure, biodiversity, and provision of ecosystem services. Sustainable forest practices can be ensured through forest certification. Forest certification is a voluntary conservation framework promoting sustainable management standards through ecological and socio-economic criteria. One of the mandatory requirements is the establishment of conservation zones (CZ), defined as low-intervention areas aimed at conserving biodiversity and ecosystem services. CZs in oak woodlands have been shown to promote greater habitat complexity, shrub cover and diversity, and oak regeneration compared to non-CZs. However, their effects on water partitioning remain poorly understood. In this study, we evaluated the effects of CZs on water infiltration and related soil properties across conservation zones with different ages of implementation. Our results show that water infiltrability in certified conservation areas was, on average, an order of magnitude higher than in non-CZs (256 -207 mm h-1 in CZ vs 29-25 mm h-1 in NP and PP), with ten years of grazing exclusion being enough to recover soil infiltration capacity. In grazed areas, soil compaction and available water (water holding capacity) were the main factors limiting infiltration. Overall, our findings suggest that conservation areas established under forest certification may contribute to reducing runoff and improving water infiltration in oak woodlands. | ||