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A problemática das plantas invasoras na gestão florestal: reflexão sobre as alternativas
Hélia Marchante1, Elizabete Marchante2
1: Centro de Investigação em Recursos Naturais, Ambiente e Sociedade (CERNAS), Escola Superior Agrária do Instituto Politécnico de Coimbra (ESAC IPC), Coimbra.; 2: Centro de estudos em Recursos Naturais Ambiente e Sociedade (CERNAS), Universidade Politécnica de Coimbra, Escola Superior Agrária de Coimbra PT, Portugal
A expansão de plantas invasoras em áreas florestais representa um dos principais desafios à conservação da biodiversidade, à resiliência dos ecossistemas e à sustentabilidade da gestão florestal. Em Portugal, espécies invasoras lenhosas pirófitas, como várias acácias australianas (Acacia spp) e háqueas (Hakea decurrens e Hakea salificfolia) alteram profundamente a estrutura e funcionamento dos ecossistemas, promovendo mudanças nas comunidades vegetais, nas características do solo, nos regimes de fogo e nos serviços dos ecossistemas. A crescente frequência de perturbações, associada às alterações climáticas, aos incêndios, aos cortes indiscriminados e ao abandono do território, favorece ainda mais a sua dispersão e persistência. Apesar do crescente reconhecimento do problema, a gestão de invasoras continua frequentemente centrada em intervenções localizadas, reativas e de curto prazo, muitas vezes sem continuidade temporal ou integração com objetivos ecológicos e socioeconómicos mais amplos. A experiência acumulada nas últimas décadas demonstra que não existem soluções simples nem universais. A maior eficácia da gestão destas espécies depende da adaptação das estratégias ao contexto ecológico (não ignorando a identificação das espécies a proteger/ a controlar), social e económico de cada território, bem como da combinação de diferentes abordagens de controlo, adequadas às espécies, e sua correta execução técnica. Falta estratégia e priorização. A prevenção, assim como a vigilância para deteção precoce e resposta atempada precisam ser priorizadas. O controlo integrado deveria também assumir particular relevância, articulando métodos mecânicos, químicos, ecológicos e biológicos, complementados por ações de restauro ecológico e monitorização continuada. O controlo biológico, em particular, é uma ferramenta promissora para espécies amplamente distribuídas que devia ser mais utilizada; pode reduzir a capacidade reprodutiva e a taxa de expansão das invasoras, como está a acontecer com acácia-de-espigas (Acacia longifolia, controlada biologicamente por Trichilogaster acaciaelongifoliae) sobretudo quando integrado com outras medidas de gestão. Paralelamente, o restauro dos habitats e a recuperação dos processos ecológicos são essenciais para aumentar a resistência dos ecossistemas à reinvasão. A problemática das plantas invasoras ultrapassa a dimensão estritamente ecológica. A perceção pública, os conflitos de interesses associados aos usos económicos de determinadas espécies, a fragmentação da propriedade e a limitada literacia ecológica condicionam fortemente as opções de gestão. Neste sentido, o envolvimento de cidadãos, proprietários, gestores florestais e entidades locais é fundamental para promover respostas mais eficazes, duradouras e socialmente legitimadas. A ciência cidadã, a comunicação de ciência e os processos participativos podem desempenhar um papel decisivo na deteção precoce, monitorização e sensibilização para o problema. Refletir sobre as alternativas de gestão florestal implica, assim, reconhecer a complexidade socioecológica das invasões biológicas e abandonar a procura de soluções simplistas. Mais do que erradicar espécies invasoras, importa desenvolver estratégias adaptativas, sustentadas em conhecimento científico, cooperação entre setores e compromisso de longo prazo com a recuperação ecológica do território.