Programa da conferência
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Vista diária |
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Simpósio 8 - Cortiça: produto e material do futuro Localização: Auditório Pequeno (H1.04) Moderação/coordenação de sessão: Carla Nogueira Moderação/coordenação de sessão: Clara Pinto | |
| Apresentação 3 | |
Descortiçamento em condições de seca severa: Efeitos fisiológicos e impactos nas reservas de carbono 1: Instituto Nacional de Investigação Agrária e Veterinária, I.P.; 2: Centro de Estudos Florestais, Laboratório Associado TERRA, Instituto Superior de Agronomia, Universidade de Lisboa; 3: Escola Superior Agrária, Instituto Politécnico de Santarém; 4: Centro de Estudos de Recursos Naturais, Ambiente e Sociedade, Instituto Politécnico de Santarém; 5: Instituto Superior de Agronomia, Universidade de Lisboa; 6: UCIBIO - Unidade de Ciências Biomoleculares Aplicadas, Departamento de Ciências da Vida, Faculdade de Ciências e Tecnologia, Universidade NOVA de Lisboa; 7: Laboratorio Associado Instituto para a Saúde e Bioeconomia - i4HB, Faculdade de Ciências e Tecnologia, Universidade NOVA de Lisboa O descortiçamento é uma prática ancestral e economicamente vital para a sustentabilidade dos montados de sobro. No entanto, os impactos fisiológicos na árvore e as suas interações com as condições climáticas no ano de descortiçamento, não são ainda suficientemente conhecidos. Este estudo investigou os efeitos a curto e médio prazo do descortiçamento nas relações hídricas e no metabolismo do carbono do sobreiro (Quercus suber L.) durante um ano seco em que a precipitação anual acumulada correspondeu a aproximadamente 51% da média local. O estudo foi realizado num montado de sobro localizado no centro de Portugal, e incluiu doze sobreiros adultos, distribuídos por dois grupos: árvores descortiçadas e não descortiçadas (controlo). A monitorização decorreu entre abril e setembro de 2015, incluindo medições de fluxo de seiva, potencial hídrico foliar (mínimo e de madrugada), e evaporação e respiração do tronco. Adicionalmente, ao longo dos 65 dias após o descortiçamento (30 de junho), foram recolhidas amostras de folhas e de floema secundário, de madrugada e ao meio-dia, para quantificação da dinâmica de hidratos dos carbono não estruturais (non-structural carbohydrates, NSC), nomeadamente, amido, sacarose, glucose, frutose, rafinose e galactose, e dos compostos fenólicos totais. Complementarmente, para duas datas de amostragem, procedeu-se à caracterização do perfil metabolómico através de uma metodologia não direcionada (GC-MS). Os resultados mostram que, imediatamente após o descortiçamento, o fluxo de seiva nas árvores descortiçadas diminuiu ca. de 55% comparativamente às árvores controlo, sem se observarem sinais de recuperação ao longo dos 65 dias subsequentes. Esta redução foi acompanhada por um decréscimo acentuado de amido e sacarose no floema secundário, sem alterações correspondentes no conteúdo de NSC foliar nem nos potenciais hídricos. Este padrão sugere uma rápida remobilização de reservas de carbono para suportar as elevadas exigências respiratórias associadas à formação do felogénio traumático e à reconstituição da camada geradora de cortiça. Esta interpretação é ainda reforçada pelo aumento transitório no teor de hexoses (glucose e frutose) do floema secundário e pelo pico na respiração do tronco, observados em simultâneo nos dias imediatamente após o descortiçamento. O estado hídrico das árvores manteve-se semelhante entre tratamentos, indicando que a depleção de NSC no floema secundário não resultou de disfunção hidráulica nem de limitação da assimilação foliar. A análise metabolómica não direcionada revelou alterações a curto prazo no metabolismo do floema secundário, contrastando com uma resposta limitada ao nível das folhas, o que sugere que a ocorrência de ajustamentos metabólicos está predominantemente localizada no tronco. Em conjunto, os resultados suportam, pela primeira vez com evidência bioquímica, a hipótese de "crise de carbono" proposta por J.V. Natividade em 1950, demonstrando que o descortiçamento em anos de seca severa pode comprometer significativamente a resiliência fisiológica das árvores. Estes resultados sublinham a necessidade de integrar o contexto climático nas decisões de gestão do descortiçamento. O desenvolvimento de índices baseados em défices de precipitação e demanda evaporativa poderá constituir uma ferramenta útil para orientar o calendário das operações de extração, minimizando o stress fisiológico das árvores. | |