Programa da conferência
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Simpósio 15 - O papel da certificação florestal no restauro ecológico
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Restauro Florestal em Portugal: uma nova política baseada em indicadores e numa implementação adaptativa 1: Instituto da Conservação da Natureza e das Florestas (ICNF), Portugal; 2: CE3C - Centro para a Ecologia, Evolução e Alterações Ambientais & CHANGE - Instituto para as Alterações Globais e Sustentabilidade, Faculdade de Ciências da Universidade de Lisboa, Portugal; 3: Instituto da Conservação da Natureza e das Florestas (ICNF), Região autónoma da Madeira, Portugal; 4: Direção Regional dos Recursos Florestais e Ordenamento Territorial (DRRFOT), Região Autónoma dos Açores, Portugal O Plano Nacional de Restauro da Natureza estabelece um novo quadro de política florestal orientado por metas ecológicas mensuráveis e por uma abordagem adaptativa. Com um horizonte temporal de 2030 a 2050, visa promover a biodiversidade e a saúde dos ecossistemas florestais, medida através de indicadores definidos no Regulamento (UE) 2024/1991. A estratégia assenta em dois eixos estruturantes: (i) resposta a perturbações e (ii) implementação de silvicultura próxima da natureza, articulados com a gestão integrada da paisagem e o risco de incêndio. O eixo (i) estrutura uma resposta imediata a eventos extremos (incêndios, tempestades e agentes bióticos). Privilegia a avaliação pós‑evento, a estabilização do solo e mitigação da erosão, e a prevenção de espécies exóticas. Estas intervenções definem uma janela crítica de atuação para salvaguardar as funções ecológicas, sendo determinantes para evitar a degradação irreversível. O eixo (ii) promove a transformação estrutural dos povoamentos, de modelos uniformes para sistemas mais diversos e resilientes, baseados na regeneração natural, heterogeneidade etária e adequação ecológica das espécies. Esta abordagem suporta diretamente a biodiversidade e a funcionalidade dos ecossistemas. A operacionalização desta política inicia‑se em áreas piloto, concebidas como unidades de demonstração e aprendizagem para testar modelos silvícolas, soluções pós‑perturbação e metodologias de monitorização. Estas áreas permitem validar opções técnicas, aferir custos e benefícios e ajustar práticas antes da sua generalização, funcionando como plataforma para capacitação de agentes e transferência de conhecimento. O Plano assenta em indicadores integrados — aves comuns de áreas florestais, manutenção de madeira morta, estrutura etária heterogénea, conectividade, carbono do solo, espécies autóctones e diversidade — cuja evolução deverá ser positiva. Para os avaliar, propõe-se uma nova ferramenta nacional de monitorização, integrando dados de inventários, cartografia e observação de campo, permitindo acompanhar a execução, avaliar a eficácia e suportar ciclos de gestão adaptativa. A política de restauro é implementada numa trajetória faseada: uma fase inicial até 2030, focada na capacitação, áreas piloto e validação; uma fase de expansão (2031–2040), orientada para a massificação das intervenções; e uma fase de consolidação até 2050, que garante a estabilização dos resultados. Este percurso articula-se com instrumentos de gestão territorial e modelos de intervenção agregada, vitais perante a forte fragmentação fundiária. A estratégia reconhece a necessidade de compatibilizar objetivos ecológicos com a realidade mediterrânica, assegurando uma gestão florestal que não agrave a perigosidade de incêndio, integrando a lógica de mosaico e gestão de combustíveis. Nas Regiões Autónomas, a abordagem é diferenciada: na Madeira, centrada na conservação da Laurissilva, mitigação do risco de incêndio e controlo de invasoras; nos Açores, na gestão de formações dominadas por espécies introduzidas e recuperação de núcleos de vegetação nativa. Em ambos os casos, a adaptação das medidas e dos sistemas de monitorização garante a coerência com os objetivos nacionais. Em síntese, a política de restauro florestal em Portugal assenta numa lógica incremental e adaptativa, suportada por áreas piloto e por uma monitorização robusta, visando reforçar a biodiversidade, a resiliência e a multifuncionalidade dos ecossistemas florestais. Da ciência à política: contributos da Rede de Conhecimento para o Plano Nacional de Restauro da Natureza (PNRN) CE3C - Centro de Ecologia, Evolução e Alterações Ambientais, Faculdade de Ciências da Universidade de Lisboa, Portugal No âmbito do Regulamento do Restauro da Natureza da UE, foi criado em Portugal um grupo de trabalho sob coordenação interministerial para desenvolver o Plano Nacional de Restauro da Natureza. O Plano deve basear-se no conhecimento científico gerado a nível nacional e internacional nas últimas décadas e na experiência adquirida nos projetos de restauro implementados em Portugal, garantindo a coerência ecológica, o rigor metodológico e a eficácia na definição de metas, indicadores e medidas de restauro. Nesta comunicação, é apresentada uma atualização sobre o progresso dos trabalhos e sobre o envolvimento científico e contributos da rede nacional de especialistas “Rede de Conhecimento para o Restauro da Natureza”. Esta rede é constituída por mais de 200 especialistas de todo o país, com conhecimento científico e técnico, e valências de investigação, em restauro de ecossistemas e temas complementares, e é constituída maioritariamente por investigadores (mais de 80%). Estes especialistas contribuíram para os diferentes temas abordados nos artigos do Regulamento, nomeadamente através da participação em reuniões gerais da Rede e em reuniões temáticas na sua área de especialidade; disponibilização de dados de biodiversidade, mapeamento de habitats e avaliação do seu estado de conservação; disponibilização e síntese de informação sobre indicadores e comentários sobre os relatórios de diagnóstico produzidos; disponibilização de informação sobre projetos de restauro implementados em Portugal; proposta de medidas de restauro a implementar; proposta de metodologias para a definição de áreas de referência; sugestão de ferramentas de modelação para a priorização de áreas a restaurar e integração de cenários. Para além dos contributos já dados, o apoio da Rede de Conhecimento, a médio e a longo prazo, aos trabalhos do Plano Nacional de Restauro é crucial para o sucesso da sua implementação. O papel da Certificação Florestal FSC® no restauro ecológico FSC Portugal, Portugal Num contexto de crescente urgência ambiental, o restauro ecológico assume hoje um papel central nas agendas internacionais e europeias, impulsionado pela Década das Nações Unidas para a Recuperação dos Ecossistemas (2021–2030) e pelas ambiciosas metas do Plano da União Europeia de Restauro da Natureza. Neste enquadramento, torna-se fundamental identificar instrumentos que permitam traduzir compromissos políticos em ações concretas no terreno. A certificação florestal FSC destaca-se como uma ferramenta prática, estruturada e verificável para apoiar o restauro de ecossistemas florestais. Embora seja um sistema voluntário, integra requisitos exigentes que já pressupõem a incorporação de práticas de conservação e restauro. A Norma de Gestão Florestal do FSC, baseada em Princípios e Critérios internacionais, promove uma abordagem de gestão ativa e responsável, assente na identificação, proteção e, sempre que necessário, na recuperação de valores ambientais. Estes incluem áreas de alto valor de conservação, habitats prioritários, linhas de água, solos e outras componentes estruturantes para o funcionamento dos ecossistemas. A implementação destas medidas, verificadas por uma entidade externa, contribui diretamente para o aumento da resiliência dos sistemas florestais e para a mitigação de impactos ambientais. Paralelamente, o Procedimento de Serviços de Ecossistemas do FSC reforça esta abordagem ao permitir avaliar e demonstrar, de forma robusta e também auditada por terceira parte, os impactos positivos das práticas de gestão e restauro. Através desta ferramenta, é possível evidenciar ganhos concretos ao nível da biodiversidade, carbono, água, solo e outras funções ecológicas, tornando visíveis os benefícios gerados e criando condições para atrair investimento, estabelecer parcerias e comunicar resultados com credibilidade. A certificação FSC permite assim apoiar o cumprimento das metas e a implementação dos Planos Nacionais de Restauro, uma vez que esta está alinhada com a Lei do Restauro da Natureza, respondendo a requisitos de monitorização e aos indicadores florestais definidos, nomeadamente ao nível da estrutura florestal, biodiversidade, conectividade e reservas de carbono. Restauro ecológico em Portugal: da Rede Natura 2000 à gestão florestal responsável – contributos da WWF Portugal WWF Portugal, Portugal O restauro ecológico assume um papel central na resposta simultânea às crises da perda de biodiversidade e das alterações climáticas, particularmente em países mediterrânicos como Portugal, onde a degradação dos ecossistemas é acentuada por pressões como incêndios florestais, espécies invasoras, desertificação e fragmentação do território. Em Portugal, estima-se que mais de 800 espécies estejam ameaçadas e uma proporção significativa dos habitats apresente estado de conservação inadequado ou mau, evidenciando a necessidade urgente de ações de recuperação. O restauro ecológico, entendido como o processo de apoiar a recuperação de ecossistemas degradados, permite reforçar a sua estrutura, funções e resiliência, assegurando simultaneamente a provisão de serviços de ecossistema essenciais para o bem-estar humano. A Rede Natura 2000 constitui um enquadramento particularmente relevante para a implementação de ações de restauro em Portugal, uma vez que dispõe de cartografia atualizada de habitats, avaliação do seu estado de conservação, e planos de gestão com medidas de conservação definidas ao nível das Zonas Especiais de Conservação (ZEC). Este conhecimento do estado atual permite identificar prioridades de restauro ao nível de habitats e espécies-alvo, facilitando a operacionalização de ações no terreno e a monitorização dos seus resultados. Paralelamente, a integração do restauro ecológico com instrumentos de gestão florestal responsável, como a certificação FSC, assume um papel crescente na promoção de práticas compatíveis com a conservação da biodiversidade, contribuindo para a manutenção de áreas de alto valor de conservação, e recuperação de ecossistemas degradados, especialmente em paisagens multifuncionais como o montado. A WWF Portugal tem vindo a desenvolver um conjunto de projetos que operacionalizam estas abordagens integradas de restauro ecológico. Destaca-se a iniciativa “D-EVOLUÇÃO”, que visa restaurar ecossistemas degradados em áreas prioritárias do país, mobilizando atores públicos e privados e alinhando-se com metas europeias como a Lei do Restauro da Natureza. Esta iniciativa integra vários projetos, abrangendo ecossistemas terrestres, de água doce e marinhos, em que promove intervenções em várias ZEC da Rede Natura 2000, como a Serra do Caldeirão, combinando ações de controlo de espécies invasoras, promoção de regeneração natural, plantação de espécies autóctones e gestão da carga combustível para aumentar a resiliência aos incêndios. Estas ações refletem uma abordagem baseada na gestão adaptativa, que combina restauro, integração de conhecimento científico e envolvimento de stakeholders locais. Para além dos benefícios ecológicos, estas iniciativas contribuem para a adaptação às alterações climáticas, bem como para o uso sustentável do território, reforçando a relação entre comunidades e natureza. Em síntese, o restauro ecológico em Portugal, particularmente no contexto da Rede Natura 2000 articulado com instrumentos de gestão florestal responsável como o FSC, representa uma oportunidade estratégica para recuperar a funcionalidade dos ecossistemas, travar a perda de biodiversidade e reforçar a resiliência do território. Os projetos de restauro da WWF Portugal demonstram o potencial de abordagens integradas e colaborativas para alcançar estes objetivos, contribuindo para o cumprimento das metas nacionais e europeias de restauro da natureza. Indicadores de serviços de ecossistema: cruzando os requisitos dos sistemas de certificação com o Plano Nacional de Restauro da Natureza num caso prático de monitorização Antarr Sustainable Productive Forest, S.A, Portugal O restauro ecológico emerge como uma prioridade incontornável no quadro das políticas ambientais contemporâneas. A multiplicação de orientações a nível europeu e nacional, a par de exigências crescentes da academia e do mercado, cria uma necessidade real de ferramentas que articulem a gestão florestal responsável com objetivos mensuráveis de recuperação ecológica - e que sejam viáveis a nível operacional. Deparada com este desafio, a Antarr, empresa com mais de 10 000 ha sob gestão, encontrou na certificação dos serviços de ecossistemas um quadro de referência com potencial para operacionalizar e monitorizar o restauro ao nível das suas unidades de gestão florestal, integrando as suas métricas no Plano de Gestão de Valores Naturais Antarr. Em 2026, surgiu a necessidade de adaptar esse referencial, à medida que novas dimensões emergiam do trabalho de campo e das métricas que o Plano Nacional de Restauro da Natureza começa agora a formalizar. Esta comunicação oral explora o alinhamento entre três perspetivas:
Discutimos a coerência, complementaridade e lacunas destas três abordagens, apresentamos os nossos resultados para uma área piloto e refletimos sobre o potencial de replicabilidade e adaptação desta metodologia a outros contextos de gestão certificada. Esperamos abrir o debate de como a certificação florestal pode evoluir de instrumento de demonstração de conformidade para ferramenta estratégica de apoio ao restauro articulando, numa linguagem comum e auditável, os compromissos dos gestores florestais com os objetivos nacionais e europeus de recuperação da natureza. | ||