Programa da conferência
Visão geral e detalhes das sessões desta conferência. Por favor, selecione uma data ou uma sala, para que sejam exibidas apenas as sessões de acordo com esse critério. Por favor, selecione uma sessão para aceder a informação detalhada sobre a mesma.
|
Vista diária |
| Sessão | ||
T1.1 - A floresta portuguesa
| ||
| Apresentações | ||
A engenharia florestal e as consequências da padronização espécie-densidade no ordenamento florestal Conselho Nacional Especialidade de Engenharia Florestal - Ordem dos Engenheiros A gestão do espaço florestal em Portugal enfrenta uma crise silenciosa que ameaça a sustentabilidade do território: a crescente vulgarização das opções silvícolas através do apoio normativo e financeiro ao binómio rígido de "uma espécie, uma densidade". Este trabalho propõe uma discussão crítica sobre a relevância deste tema, focando-se nas consequências diretas da diminuição da importância da engenharia florestal no ordenamento do território, e nos prejuízos que daí decorrem para os proprietários, para o património florestal e para o cumprimento das metas da conta nacional de carbono. O declínio da relevância da engenharia florestal manifesta-se quando as diretrizes de planeamento se transformam em matrizes burocráticas de aplicação quase automática. Ao condicionar os incentivos e as aprovações de projetos a pacotes tecnológicos predefinidos, o sistema abdica do diagnóstico minucioso da estação e da prescrição personalizada. O engenheiro florestal deixa de atuar como um gestor adaptativo e decisor técnico para ser remetido a um papel de mero executor de formulários administrativos. Este esvaziamento da autonomia intelectual e técnica da profissão impede a aplicação de soluções complexas que a ciência florestal preconiza, como a silvicultura próxima da natureza, a gestão de estruturas irregulares ou a introdução de modelos multiespécies. As consequências desta menorização técnica refletem-se imediatamente nos proprietários florestais. Privados de um aconselhamento de engenharia verdadeiramente adaptado à realidade biofísica e socioeconómica da sua propriedade, os produtores são empurrados para soluções homogéneas de alto risco. A rigidez do binómio espécie-densidade traduz-se frequentemente em perdas financeiras por via de custos de instalação desadequados ou pela quebra de rendimento face à vulnerabilidade dos povoamentos a pragas, doenças e incêndios rurais. Por fim, o recuo do critério da engenharia florestal gera um impacto severo no património florestal nacional e compromete as obrigações internacionais do Estado. A simplificação estrutural da floresta reduz de forma drástica a resiliência da paisagem. Num contexto de emergência climática, em que o país é obrigado a apresentar "prova" e rigor na contabilidade do balanço nacional de carbono, a ausência de uma engenharia florestal forte e interventiva torna-se um passivo ambiental. Povoamentos desenhados por matrizes administrativas e desprovidos de condução técnica contínua estão mais expostos à degradação e a incêndios severos, transformando potenciais sumidouros em fontes massivas de emissões de gases de efeito de estufa. Conclui-se que o 10º Congresso Florestal Nacional é o espaço crucial para debater a inversão desta rota. Urge restaurar a centralidade e a autoridade científica da engenharia florestal nas políticas públicas, substituindo o facilitismo da receita standard por modelos flexíveis e dinâmicos de decisão, essenciais para garantir o futuro económico e ambiental da floresta portuguesa. Contribuição para uma história florestal portuguesa 1: MED - Mediterranean Institute for Agriculture, Environment and Development, CHANGE - Global Change and Sustainability Institute, Universidade de Évora, Pólo da Mitra, Ap. 94, 7006-554 Évora; 2: CEF - Centro de Estudos Florestais, Laboratório Associado Terra, Instituto Superior de Agronomia, Tapada da Ajuda, Universidade de Lisboa, Lisboa; 3: RAIZ - Instituto de Investigação da Floresta e Papel - Direcção de Investigação e Consultoria Florestal; 4: CEIS20 - Centro de Estudos Interdisciplinares, Universidade de Coimbra, Coimbra, Portugal; 5: Faculdade de Letras, Universidade de Coimbra, Coimbra, Portugal; 6: APHES - Associação Portuguesa de História Económica e Social, Rua Miguel Lupi 20, 1249-078 Lisboa A presente comunicação procura contribuir para o aprofundamento da história florestal portuguesa, evidenciando a evolução dos padrões de uso e gestão do território florestal desde a fundação do país até à atualidade. Após o reconhecimento de Portugal como reino independente em 1143 (Tratado de Zamora), o território tem sido marcado por alternâncias entre ciclos de arborização e desflorestação, fortemente condicionados por factores políticos, económicos e sociais. Uma das primeiras grandes iniciativas de arborização ocorreu na área hoje ocupada pela Mata Nacional de Leiria, impulsionada ao longo de vários reinados medievais, com destaque para o papel da Ordem de Cister. Também designados por “Abbades Geraes de Alcobaça”, eram, nas palavras de Joaquim Vieira Natividade, uma referência europeia no primor que davam à arboricultura. A este período seguiu-se uma fase prolongada de desflorestação, que se estendeu até meados do século XVIII, associada, entre outros factores, à pressão sobre os recursos lenhosos, contribuindo para que Portugal fosse o segundo país europeu com menor cobertura florestal. A partir da segunda metade do século XVIII, observa-se a emergência de políticas sistemáticas de arborização, ainda que intermitentes devido a eventos como as invasões francesas e a Guerra Civil. No século XIX e início do século XX, a acção dos Serviços Florestais e iniciativas privadas promoveram a expansão do pinheiro-bravo, nomeadamente na fixação de dunas e em áreas degradadas. Este período marca também o início da consolidação de uma política florestal estruturada. Em 1924, com a criação das estações de experimentação do pinheiro-bravo e do sobreiro, inicia-se formalmente a investigação aplicada às principais espécies florestais. Aquelas espécies e, mais tarde, o eucalipto assumem um papel central na economia florestal nacional, sustentando importantes fileiras industriais. Durante o Estado Novo, intensifica-se a intervenção pública e privada na arborização, incluindo a criação de organismos corporativos destinados a articular produção, indústria e investigação, bem como a expansão das políticas florestais aos territórios ultramarinos. Este modelo reforçou a integração do sector florestal na economia nacional. Formam criados, entre outros a Junta Nacional da Cortiça e a Junta Nacional dos Resinosos. Nas últimas décadas, a floresta portuguesa tem enfrentado desafios significativos, nomeadamente o aumento da área ardida e o abandono da gestão ativa, associados a transformações socioeconómicas como o êxodo rural. Simultaneamente, verificou-se um crescimento da investigação em áreas como a deteção remota, modelação e inventariação florestal, embora com menor incidência nos solos florestais. Mais recentemente, assiste-se a uma renovada atenção a esta temática, bem como ao reforço de estratégias de prevenção de incêndios. Atualmente, a floresta ocupa uma parte substancial do território nacional e mantém uma forte ligação aos sistemas naturais e às actividades humanas, desempenhando um papel central na sustentabilidade ecológica e económica. Conclui-se que, embora se observe uma evolução globalmente positiva da silvicultura portuguesa nos últimos dois séculos, os desafios persistentes—em particular os incêndios florestais—exigem a reavaliação dos modelos de gestão. Nesse contexto, práticas tradicionais como a pastorícia e o fogo controlado têm vindo a ser reconsideradas como instrumentos relevantes para uma gestão mais sustentável do território. A Floresta portuguesa: um recurso com potencial para a construção 1: SerQ - Centro de Inovação e Competências da Floresta, Sertã, Portugal; 2: Universidade de Coimbra, ISISE, ARISE, Departmento de Engenharia Civil, Coimbra, Portugal; 3: Laboratório Nacional de Engenharia Civil, Lisboa, Portugal A construção, em particular a de habitação, encontra-se, nos dias de hoje, num momento em que o défice de oferta é significativo face à procura existente no mercado. Para enfrentar este paradigma, o qual também se encontra associado à escassez de mão-de-obra, verifica-se uma aposta crescente no desenvolvimento e utilização de soluções à base da pré-fabricação. É neste ponto que o material madeira sempre demonstrou um enorme potencial, ao qual se acrescenta a cada vez maior consciência da sociedade e dos decisores políticos quanto à utilização de produtos renováveis e sustentáveis. No caso particular de Portugal, a área de floresta representa cerca de 36% do território continental, de acordo com o 6º Inventário Florestal Nacional. Apesar da extensa área disponível, somente cerca de 22% da mesma são Pinheiro bravo, a espécie resinosa tida como referência pelo passado para o setor da construção. Contudo, de acordo com os indicadores do Centro PINUS relativos a 2024, apenas 41% da madeira de Pinheiro bravo consumida se destinou à serração, setor que agrega múltiplas aplicações como paletes, caixas de madeira, entre outros. O presente artigo pretende apresentar o trabalho de uma década de investigação em prol da valorização dos recursos lenhosos existentes na floresta nacional, focando-se no Pinheiro bravo, bem como noutras espécies com menor utilização na construção. A caracterização mecânica de madeira serrada, bem como o desenvolvimento de settings para procedimentos de classificação mecânica por via não destrutiva sustentam o potencial existente na madeira serrada de Pinheiro bravo para aplicações como a madeira lamelada colada. Foram conduzidos diversos estudos de desempenho de colagem, caracterização mecânica de ligações de entalhe múltiplo (finger joint), e vigas de madeira lamelada colada não só envolvendo a utilização do Pinheiro bravo mas também o Choupo, o Eucalipto, entre outras, e inclusive a combinação de múltiplas espécies no mesmo elemento estrutural. O presente artigo agrega um vasto conjunto de resultados de interesse para a fileira industrial que permitirão despoletar um interesse crescente na valorização destes recursos florestais no território nacional, trazendo mais valias em prol do produtor e para a gestão do território. Incêndios rurais em Portugal: concentração espacial e temporal e vulnerabilidade das paisagens rurais em 2024 1: GOVCOPP, Departamento de Economia, Gestão, Engenharia Industrial e Turismo, Universidade de Aveiro; 2: URZE, Associação Florestal da Encosta da Serra da Estrela; 3: CESAM, Departamento de Ambiente e Ordenamento, Universidade de Aveiro Os incêndios rurais continuam a constituir uma das principais ameaças às paisagens e aos territórios rurais portugueses. Embora as condições meteorológicas extremas desempenhem um papel determinante na ocorrência dos grandes incêndios, a sua distribuição espacial evidencia vulnerabilidades estruturais associadas às profundas transformações ocorridas nas paisagens rurais nas últimas décadas. Neste contexto, o presente trabalho analisa a distribuição espacial e temporal dos incêndios rurais ocorridos em Portugal Continental durante o ano de 2024, procurando compreender em que medida o abandono agrícola e a redução da atividade agroflorestal contribuem para aumentar a vulnerabilidade territorial ao fogo. A investigação baseia-se numa análise espacial exploratória, recorrendo à informação oficial sobre área ardida, ocorrências e causas dos incêndios, articulada com indicadores de ocupação do solo, estrutura agrária e evolução recente da atividade agrícola. O objetivo não é analisar a eficácia do combate aos incêndios, mas identificar padrões territoriais suscetíveis de explicar a maior propensão de determinados territórios para a propagação de grandes incêndios. Os resultados mostram que a quase totalidade da área ardida em 2024 se concentrou num curto período de setembro, associado a condições meteorológicas particularmente adversas. Contudo, a distribuição espacial da área ardida revela uma forte concentração em territórios do Centro e Norte caracterizados por elevada continuidade florestal, reduzida fragmentação agrícola e perda progressiva do mosaico agroflorestal tradicional. A análise evidencia igualmente que estes territórios registaram, nas últimas décadas, uma redução significativa do número de explorações agrícolas, da superfície agrícola utilizada e da mão de obra familiar, refletindo processos persistentes de despovoamento e abandono rural. Estas transformações favoreceram a homogeneização da paisagem, a acumulação de combustível vegetal e a diminuição da gestão ativa do território, criando condições mais favoráveis à propagação dos incêndios. Os resultados sugerem, assim, que a dimensão dos grandes incêndios não pode ser explicada apenas pelo número de ignições ou pelos episódios meteorológicos extremos. Pelo contrário, a vulnerabilidade das paisagens rurais parece estar intimamente relacionada com alterações estruturais da ocupação e gestão do território, resultantes do declínio da atividade agrícola e agroflorestal. Esta perspetiva reforça a necessidade de integrar as políticas agrícolas, florestais e de desenvolvimento rural numa abordagem territorial orientada para a manutenção do mosaico agroflorestal, da atividade agrícola e da presença humana nas áreas mais vulneráveis ao fogo. Efeitos dos ungulados silvestres no funcionamento dos ecossistemas: carbono, água e fogo Centro de Ecologia Aplicada "Prof. Baeta Neves" (CEABN-InBIO), Instituto Superior de Agronomia, Universidade de Lisboa, Portugal Os ungulados silvestres, cujas populações se estão a expandir nas suas áreas de distribuição geográfica, podem afectar a composição específica, a produtividade e a estrutura das comunidades vegetais e, deste modo, afectar as propriedades e o funcionamento dos ecossistemas. Neste trabalho, sintetizo trabalhos do meu grupo de investigação sobre os efeitos de uma população de cervídeos (veado Cervus elaphus e gamo Dama dama) no armazenamento de carbono, perigosidade de incêndio e ciclo da água em um montado misto de sobreiro (Quercus suber) e azinheira (Q. rotundifolia) localizado no Sul de Portugal. No trabalho são utilizados dados de longo-termo de uma experiência de exclusão de pastoreio para comparar parcelas vedadas, onde se fez exclusão de cervídeos durante 7, 12 e 20 anos, com parcelas controlo onde estes animais mantiveram as suas actividades de pastoreio e ramoneio. A exclusão dos cervídeos provocou alterações significativas nas propriedades do ecossistema, com efeitos na composição específica e estrutura das comunidades vegetais. Através da redução do coberto arbustivo, os cervídeos diminuíram significativamente o armazenamento de carbono acima do solo e, simultaneamente, contribuíram para mitigar a perigosidade de incêndio. Estes efeitos foram, no entanto, contrariados por efeitos negativos na regeneração arbórea. Através do pisoteio e da redução do coberto arbustivo, os cervídeos alteraram significativamente as taxas de infiltração da água no solo, com efeitos que variaram em função do tempo de exclusão de pastoreio. Os resultados evidenciam que os ungulados silvestres podem modificar o funcionamento dos ecossistemas, pelo que a gestão das populações destes animais deve considerar os efeitos múltiplos sobre os ecossistemas, os quais podem envolver conflitos entre objectivos de gestão e serviços dos ecossistemas. Assessing the contribution of European Forests and Harvested Wood Products to Carbon Storage: a comparative analysis for the EU-27 1: Centro de Ecologia Aplicada "Prof. Baeta Neves", School of Agriculture, University of Lisbon, Tapada da Ajuda 1349-017 Lisboa, Portugal; 2: Mohren Consult, Mendellaan 14, 6721BD Bennekom, The Netherlands Climate mitigation strategies in the forest sector have traditionally focused on carbon storage within standing biomass (For-C). However, Harvested Wood Products (HWP) represent a significant and transferable carbon reservoir that expands the climate benefits of forest management. Current HWP accounting often relies on absolute carbon stocks, which tend to favor larger countries and hide the relative efficiency and "intensity of use" of national forest industries. In this study we propose a different approach, based on IPCC methodology, that allows size-independent comparisons of how effectively EU Member States convert forest growth into carbon storage in HWP. We use a methodological framework that integrates FAOSTAT product flow data with FAO Forest Resources Assessment (FRA) data. Following the 2019 IPCC Refinement guidelines, we normalize carbon stocks by forest area (t C/ha) and calculate the HWP/For-C ratio, as the proportion of carbon retained in products relative to the amount of carbon in aboveground forest biomass, to assess the contribution of the HWP sector to carbon sequestration over the period 1990-2024. Preliminary results suggest distinct regional patterns in the intensity of forest resource use across European countries. Most countries (n = 15) exhibit HWP/For-C ratios below 15%, while 8 countries maintain a ratio above 25% with Portugal exhibiting the highest ratio (~44%). We also analyzed the evolution of specific HWP categories (sawnwood, panels, and paper) for each country and we suggest the use of the sum of forest and HWP stocks as an indicator of the proposed concept of "Total National Reservoir". Our findings demonstrate that maximizing carbon storage benefits requires a strategic balance between forest conservation, product use, and industrial efficiency. The proposed area-normalized framework provides a standardized benchmark for national and EU forest policies, enabling the identification of underutilized mitigation potential and informing long-term carbon neutrality targets. This research was financed by PRR/IAPMEI/Aviso 02/C05-i01/2022, CIRCULARTECH (Contribute to solving a problem that humanity has faced since the industrial revolution: waste) – Carbon WISE | ||