Programa da conferência

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Data: Quinta-feira, 08.10.2026
9:00a10:00Sessão Plenária 4: Giovanni Sanesi
Localização: Auditório ESAC (Bloco E)
Moderação/coordenação de sessão: João C. Azevedo
 
Apresentações

What greenery is needed to have sustainable, resilient cities that can improve the quality of human life?

Giovanni Sanesi

Università degli Studi di Bari Aldo Moro

Progressive urbanization and population migration to cities have made these settlements less resilient, unsustainable, and unable to guarantee an adequate quality of life. Today, cities are not only the largest consumers of natural resources and emitters of pollution, but also the places where climate change and the urban heat island phenomenon are having the greatest impact, as evidenced by recent environmental statistics. Beyond being places of development, cities have progressively become places where humans encounter a series of pathologies with specific connotations. Can urban greenery help reverse this trend? This report summarizes the state of the art of research in this field and how it is possible to create more human-scale cities, improving people's health and well-being. Specifically, the report explores how new disciplines or applications have emerged in recent years and how the use of appropriate urban tree vegetation can mitigate the effects of pollution and climate change. This urban greening is only possible through an interdisciplinary approach. Forest sciences can contribute their expertise to more sustainable urban planning. This process of planning and monitoring cities, in particular, requires new indicators that take into account not only the simple extent of green spaces, but also the volume of tree canopies, which are one of the most important providers of ecosystem services.

 
10:00a11:30Simpósio 13a - Baldios em transformação: dinâmicas institucionais e modelos de gestão
Localização: Auditório ESAC (Bloco E)
Moderação/coordenação de sessão: Maria Conceição Colaço
Moderação/coordenação de sessão: Catarina Sequeira
Moderação/coordenação de sessão: Iryna Skulska Kolos
 
Apresentações

Agrupamentos de baldios, com ou sem o Estado: considerações sobre a primeira geração do projecto piloto

Ana Luisa Luz

Universidade Nova de Lisboa, Portugal

Mais de cinco décadas passadas sobre o fim da florestação dos baldios pelo Estado, verifica-se um período de transição nos usos e utilizadores destes territórios. Hoje os baldios são crescentemente valorizados pelos bens públicos que produzem - beleza cénica, qualidade do ar e da água, património natural e cultural, etc.– que resultam da interacção de gerações com o meio; e pelo seu estado de conservação, facilitado pelo isolamento. Por outro lado, a sua extensão atrai empresas de diferentes sectores colocando alguma tensão entre a natureza comunitária do baldio e uma estratégia rentista sem participação das comunidades na gestão.

Apesar dos claros benefícios dos baldios para a generalidade da população, a participação do Estado nestas áreas tem sido inconsistente, sobretudo desde o retorno dos baldios aos compartes em 1974, após mais de 30 anos na posse do Estado. Esta situação é ilustrada pela forma como foi abandonando o seu papel de cogestor, assumido na grande maioria dos baldios desde 1974.

Em 2019, após os grandes incêndios de 2017, o Estado (ICNF), em conjunto com as duas maiores federações de baldios - a Baladi e a Forestis -, iniciou um projecto piloto que promoveu o agrupamento de baldios, prenunciando uma mudança de paradigma ao colocar os compartes à frente da gestão da floresta.

Paralelamente, após o fim do contrato de cogestão com os baldios em janeiro de 2026, o ICNF propôs um acordo de delegação de poderes de administração que, de acordo com a Baladi, não pretende dar continuidade à política de apoio à gestão comunitária indiciada pelo anterior projecto, propondo sim a delegação de poderes de gestão dos baldios no ICNF.

No contexto de um estudo sobre os agrupamentos, realizámos entrevistas semiestruturadas a elementos da direcção de cinco agrupamentos de baldios, e também à direcção da Baladi. O desempenho do Estado foi consensualmente identificado como o maior entrave ao bom desenvolvimento do projecto. Atrasos nos pagamentos, comprometendo salários, e exigências burocráticas, cegas ao contexto local, foram algumas das situações descritas. A desarticulação entre as partes levou inclusive a que um destes agrupamentos deixasse o projecto e assumisse autonomia.

Com base nestas experiências trazemos para discussão no Simpósio o papel do Estado no projecto e na gestão dos baldios.

Partimos da premissa de que os baldios, enquanto territórios fornecedores de bens públicos e com efectivo florestal resultante da acção (coerciva) do Estado, têm, por defeito, legitimado o acesso a financiamento/apoio público. O projecto-piloto fez prever isso mesmo, contudo, a recente proposta de acordo pelo ICNF, adicionada à forma como decorre a facilitação dos agrupamentos, denunciam vontade do Estado de manter um nível de controlo sobre aqueles territórios. Enquanto a literatura aponta para os benefícios sociais e ecológicos da gestão comunitária de recursos comuns, e em particular dos agrupamentos de baldios, o ICNF propõe reverter uma tendência generalizada de autonomização da gestão dos baldios ao nível da comunidade, encorajada pelo próprio projecto-piloto.

Não obstante as inconsistências observadas, os benefícios de iniciativas (teoricamente) facilitadoras, como esta que facilitou os agrupamentos, existem e materializam-se também na desistência do projecto e no assumir de autonomia pelos compartes. Neste ponto torna-se relevante a partilha dos casos bem-sucedidos, beneficiando as actuais e preparando as próximas gerações de agrupamentos.



Agrupamentos de Baldios dinamizados pela CAP – desafios e oportunidades para as Comunidades Locais

Carla Leite, Luís Mira

Confederação dos Agricultores de Portugal, Portugal

A CAP, em parceria com três suas associadas - CoopBarroso, Aflodounorte e Valminho Florestal – está a dinamizar 5 Agrupamentos de Baldios Novos e 3 Agrupamentos de Baldios de Continuidade, abrangendo cerca de 28.000 hectares e envolvendo 80 comunidades locais distribuídas por seis concelhos a Norte do País. O trabalho que tem vindo a ser desenvolvido com as comunidades locais neste âmbito é de extrema importância, nomeadamente face à necessidade de dotar estas comunidades de competências para gerirem autonomamente os territórios comunitários pelos quais são responsáveis.

No primeiro ano a CAP prestou apoio técnico e dinamizou ações de formação em procedimentos de contratação pública; a lei dos baldios e o enquadramento fiscal destes territórios. Temos igualmente promovido a constituição e dinamização das Assembleias de Compartes, reforçando a participação e o envolvimento das comunidades locais nos processos de decisão. Estabelecemos também contactos com outras entidades que desenvolvem ações e projetos que envolvem comunidades locais de baldio, com o objetivo de trazer outras mais-valias para estas comunidades.

Os principais constrangimentos com que nos temos deparado estão relacionados com a reduzida organização administrativa e disponibilidade das comunidades locais, tornando a sua capacitação um dos factores chave de sucesso deste programa. Com efeito, diagnosticámos uma escassez de meios técnicos, administrativos e financeiros para responder à crescente complexidade das exigências legais e de gestão destes territórios com múltiplas aptidões. A isto acresce o elevado número de litígios entre comunidades no que respeita aos limites geográficos das unidades de baldio, que demoram a resolver.

Para o segundo ano prevemos, entre outras ações, dinamizar a realização do cadastro e do inventário florestal nas unidades de baldio dos novos agrupamentos e a elaboração do plano de negócios e a avaliação das áreas com potencial para integrarem o mercado voluntário de carbono nos agrupamentos de continuidade. No âmbito deste programa pretendemos ainda promover o turismo e a remuneração dos Serviços dos Ecossistemas.

Os Agrupamentos de Baldios têm permitido agregar várias comunidades e vários territórios, muitas vezes contíguos, criando uma escala de intervenção que dificilmente seria alcançada por cada baldio individualmente. Esta escala de intervenção não diz respeito apenas à gestão florestal, mas, sobretudo, à gestão do território. Queremos contribuir para melhorar a capacidade de planear, ordenar, valorizar e tornar mais resilientes territórios que desempenham funções ambientais, económicas e sociais essenciais para o país.

A experiência que temos vindo a desenvolver permite-nos afirmar, com convicção, que os Agrupamentos de Baldios são hoje um dos mecanismos mais eficazes para enfrentar problemas históricos relacionados com dificuldades de organização administrativa, gestão e cumprimento de diversas obrigações legais associadas à administração dos Baldios. Só assim conseguiremos trazer mais valor a estes territórios e às suas comunidades.



Constituição e dinamização de Agrupamentos de Baldios: experiência da FORESTIS na gestão agrupada dos territórios comunitários

Andre Chaves1, Iryna Skulska Kolos2

1: Departamento de gestao de prijetos.FORESTIS; 2: CEABN | Instituto Superior de Agronomia

A FORESTIS, Associação Florestal de Portugal tem desenvolvido, desde 2019, um trabalho estruturante na constituição e dinamização de Agrupamentos de Baldios (AdB), no âmbito do Contrato-Programa N.º CP/02/FFP/2019. Esta iniciativa surgiu como resposta à necessidade de reforçar a capacidade técnica, organizativa e operacional das comunidades locais responsáveis pela gestão dos baldios, promovendo modelos de gestão agrupada assentes no associativismo, na cooperação territorial e na economia de escala.
No âmbito deste processo, a FORESTIS constituiu 9 AdB, envolvendo 111 baldios e uma área total de cerca de 52 950 hectares, distribuídos pelas regiões Norte e Centro. Na região Norte foram constituídos 6 AdB, abrangendo 77 baldios e cerca de 36 878 hectares; na região Centro foram constituídos 3 AdB, envolvendo 34 baldios e cerca de 16 072 hectares. Estes agrupamentos permitiram criar uma base territorial relevante para a gestão integrada de áreas comunitárias, muitas vezes fragmentadas, com diferentes realidades administrativas, fundiárias e silvícolas.
O trabalho desenvolvido incluiu a dinamização institucional dos AdB, apoio técnico às entidades gestoras, levantamento cadastral, apoio ao registo predial e matricial, elaboração e submissão de Planos de Gestão Florestal, inventário florestal, contratação de técnicos, estabelecimento de parcerias e execução de ações de gestão de combustíveis. Os resultados evidenciam uma evolução significativa: foram alcançados 113,8% da meta prevista para gestão de combustíveis, correspondendo a 3 071,42 hectares, 70,6% de execução no cadastro e registos, 72% na submissão de PGF, 100% no inventário florestal, 133% nas parcerias estabelecidas e 144% na contratação de técnicos.
Apesar dos resultados alcançados, o processo revelou também constrangimentos importantes. Entre as principais dificuldades identificadas destacam-se a complexidade das normas técnicas e financeiras, a morosidade na análise dos pedidos de pagamento, dificuldades de comunicação entre entidades, necessidade de apoio jurídico, recrutamento de técnicos especializados e clarificação de conceitos operacionais essenciais para a viabilidade dos agrupamentos.
A experiência da FORESTIS demonstra que os AdB podem constituir uma ferramenta estratégica para valorizar os territórios comunitários, captar financiamento, melhorar a organização das comunidades locais e reforçar a gestão florestal sustentável. Ao mesmo tempo, evidencia a necessidade de simplificar procedimentos, melhorar a articulação institucional e assegurar continuidade técnica e financeira, sobretudo numa futura segunda geração de Agrupamentos de Baldios.



Agrupamentos de Baldios como instrumento de governança florestal: desafios e oportunidades na gestão sustentável de territórios comunitários

António Luís Marques, Andreia Ribeiro, Catarina Oliveira, Sandra Dinis

Associação Florestal do Vale Douro Norte, Portugal

Os baldios representam cerca de 14% da área florestal continental portuguesa (aproximadamente 300 mil hectares), desempenhando um papel relevante na conservação dos ecossistemas, mitigação das alterações climáticas e prevenção de incêndios rurais. Enquanto territórios de gestão comunitária, contribuem para a preservação da floresta autóctone e para a provisão de serviços de ecossistema, nomeadamente o sequestro de carbono, a retenção hídrica e a gestão da biomassa.

Neste contexto, os Agrupamentos de Baldios (AdB) assumem-se como instrumentos de gestão integrada e colaborativa, promovendo ganhos de escala territorial, reforço do apoio técnico especializado e maior capacidade de acesso a instrumentos de financiamento e políticas públicas florestais. Este modelo visa o fortalecimento da capacidade organizativa das comunidades locais para a gestão sustentável, eficiente e multifuncional dos seus territórios, incluindo a implementação de intervenções de valorização silvícola e produtiva, como a beneficiação de áreas de pinheiro-bravo para resinagem.

O Agrupamento de Baldios de Murça, criado em 2019, integra 12 baldios do concelho de Murça, abrangendo uma área de cerca 3 260 hectares. Ao longo de três anos de implementação, foram desenvolvidas estratégias de gestão florestal ajustadas às especificidades de cada território, promovendo o fortalecimento institucional das comunidades locais e criando condições para a certificação florestal. Contudo, o processo revelou desafios relevantes, nomeadamente a articulação entre comunidades com diferentes níveis de organização, a regularização administrativa dos baldios, a adaptação às alterações regulamentares dos programas de apoio e a incerteza quanto à continuidade do projeto. Após um período de indefinição em 2024, o projeto retomou atividade em 2025, embora com um financiamento disponível aquém das necessidades identificadas.

Paralelamente, os Agrupamentos de Baldios do Tua e do Douro, criados em 2025 no âmbito dos Contratos-Programa de 2.ª Geração, abrangem baldios dos concelhos de Murça, Mirandela, Alijó e Sabrosa, integrando seis comunidades locais cada e uma área aproximada de 1 600 hectares por agrupamento. O primeiro ano de implementação permitiu identificar constrangimentos estruturais comuns à gestão dos territórios comunitários, designadamente a reduzida disponibilidade dos órgãos gestores, assente em trabalho voluntário, a necessidade de clarificação de limites prediais, insuficiências ao nível técnico e jurídico e a regularização de processos administrativos e fiscais essenciais ao acesso a apoios. A experiência acumulada evidência que a sustentabilidade destes modelos de gestão depende do acompanhamento técnico continuado, particularmente por Organizações de Produtores Florestais, cuja intervenção se revela determinante no apoio aos órgãos gestores, na capacitação das comunidades e na operacionalização de políticas florestais. Neste sentido, a continuidade dos Contratos-Programa assume relevância estratégica para a valorização dos baldios, a resiliência dos territórios rurais e a consolidação de uma governança florestal sustentável.



Governança dos baldios no noroeste de Portugal: fatores explicativos do desempenho e implicações para a gestão comunitária

Pedro Miguel Casinhas1, Joana Nogueira2

1: CICS NOVA, FCSH-UNL; 2: proMetheus/CISAS/ESA-IPVC

Os baldios representam uma das principais formas de gestão comunitária de recursos em Portugal, exercendo funções económicas, sociais e ambientais de destaque nos territórios rurais. No entanto, observam-se diferenças substanciais entre comunidades quanto à capacidade de organização, mobilização social e geração de benefícios coletivos, e os fatores explicativos dessas variações ainda são pouco explorados. Este estudo tem como objetivo identificar os fatores associados ao desempenho da governança dos baldios e analisar de que modo os modelos de gestão influenciam os resultados alcançados.

A investigação foi realizada no contexto do projeto Bem Comum, utilizando uma abordagem metodológica mista. O estudo incluiu a aplicação de um questionário a gestores de baldios (n=227), entrevistas semiestruturadas, oficinas participativas, observação direta e um inquérito complementar dirigido a compartes e à população residente (n=534). A partir desses dados, foi desenvolvido o Barómetro Bem Comum, um instrumento de avaliação multidimensional estruturado em seis dimensões: organização formal, autonomia e capacitação, participação, desempenho social, desempenho económico e desempenho ambiental.

Os resultados indicam que 41% dos baldios apresentam desempenho alto, 27% desempenho médio, 23% desempenho baixo e apenas 9% desempenho muito alto. A análise pelo teste exato de Fisher revela que os níveis mais elevados de desempenho estão fortemente associados à presença de conselhos diretivos ativos, à cooperação com múltiplas entidades, à integração em agrupamentos de baldios e à maior qualificação dos gestores. Em contrapartida, a gestão por juntas de freguesia, especialmente sem delegação formal dos compartes, está fortemente associada a desempenhos inferiores. Os dados também evidenciam correlações positivas entre a organização formal, a capacitação institucional e os desempenhos económico, social e ambiental, sugerindo efeitos cumulativos entre essas dimensões.

Conclui-se que a qualidade da governança dos baldios depende mais da capacidade das comunidades para desenvolver estratégias de participativas de envolvimento dos compartes, redes de cooperação e mecanismos de capacitação do que das características territoriais. Os resultados reforçam a importância das instituições comunitárias na gestão sustentável dos recursos comuns e oferecem subsídios para políticas públicas e estratégias de fortalecimento da governança local.



Baldios em Transformação: Novos Desafios na sua Governança e Gestão. Alterações mais recentes na governança dos baldios. Processos de negociação em curso com o ICNF no âmbito dos acordos de delegação de poderes. Breve Resumo

João Carlos Marques da Costa Gralheiro

Advgado, Portugal

Baldios em Transformação: Novos Desafios na sua Governança e Gestão

A posse e a gestão dos Baldios têm vindo a ser objeto de profundas alterações, desde a submissão de extensas áreas dos mesmos ao Regime Florestal, durante o Estado Novo, até à sua consagração na Constituição da República, de 1976.

Após a Revolução de Abril de 1974 vários diplomas foram publicados, visando a regulamentação dos Baldios, culminando na Lei n.º 75/2017, de 17 de agosto. Neste percurso salientam-se os diversos institutos de gestão dos Baldios legalmente estabelecidos, desde o novo regime dos Agrupamentos de Baldios, aos já anteriormente previstos planos de utilização, delegação de poderes, com especial relevo à extinção, ope legis, da administração dos Baldios em regime de associação com o Estado.

Neste trabalho, em particular, pretende-se revisitar a transformação legislativa e a evolução da posição do Estado desde a implementação do Regime Florestal até aos dias de hoje, relevando a recente minuta de “Acordo de Delegação de Poderes” enviada pelo ICNF às Comunidades Locais cujos terrenos baldios tivessem sido submetidos ao Regime Florestal e cuja administração houvesse sido exercida em regime de associação com o Estado. Procurar-se-á refletir sobre o teor dessa minuta à luz dos superiores interesses das Comunidades Locais, evidenciando-se a pretensão do Estado de passar a controlar os Baldios com finalidades lucrativas, tudo com manifesto prejuízo da autonomia das Comunidades Locais, porque da posse e gestão comunitárias e democrática dos Baldios pelos Compartes que, integrando os seus Universos de Compartes, as constituem.

Palavras-chave: Baldios; Governança Comunitária; Compartes; Regime Florestal; ICNF; Delegação de Poderes; Gestão Comunitária; Propriedade Comunitária.

 
10:00a11:30Simpósio 2a - Floresta Urbana: conhecimento multifacetado para promover a resiliência
Localização: Auditório Pequeno (H1.04)
Moderação/coordenação de sessão: Leónia Nunes
Moderação/coordenação de sessão: Ana Luisa Soares
Moderação/coordenação de sessão: Inês Marques Duarte
 
Apresentações

Inventário arbóreo urbano: composição e diversidade em diferentes contextos geográficos em Portugal

Ana Luisa Soares, Inês Duarte, Susana Dias, Davide Gaião, Ana Raquel Cunha, Michele Petrillo, Francisco Castro Rego, Leónia Nunes

Centro de Ecologia Aplicada “Professor Baeta Neves” (CEABN), InBIO, Instituto Superior de Agronomia | Universidade de Lisboa, Tapada da Ajuda, 1349-017 Lisboa, Portugal

O registo e o inventário arbóreo constituem instrumentos fundamentais de apoio ao planeamento e à gestão urbana, sendo, por isso, essencial investir no conhecimento das árvores nas cidades. Estes inventários permitem quantificar os benefícios ambientais proporcionados pelo arvoredo urbano e constituem uma ferramenta crucial para o planeamento e o desenvolvimento sustentável das cidades. A legislação publicada em 2021 (Lei n.º 59/2021, de 18 de agosto), que veio reforçar a importância destes levantamentos, determina que todos os municípios elaborem um inventário completo do património arbóreo urbano existente, tanto em domínio público como privado. Ainda neste domínio, a legislação voltou a ser renovada com o Programa de Ação para a Resiliência e Restauração da Natureza em Áreas Urbanas (Pro Nat.Urbe), publicado em abril de 2026, elaborado no quadro da lei europeia do restauro da natureza (Regulamento EU 2024/1991), que estabelece metas concretas até 2035 para o aumento das áreas verdes em contexto urbano. O Pro Nat.Urbe, ao promover a integração de soluções baseadas na natureza nas políticas públicas, reconhece o papel da arborização urbana na mitigação e adaptação às alterações climáticas, nomeadamente através da redução das ilhas de calor urbano e da melhoria do conforto térmico.

De forma a contribuir para a concretização dos objetivos acima referidos, iremos enumerar e sistematizar as iniciativas que a equipa do Centro de Ecologia Aplicada “Professor Baeta Neves” (CEABN/ISA/ULisboa), desde 2019, tem vindo a implementar. Têm sido desenvolvidos trabalhos de caracterização da floresta urbana e avaliação dos seus benefícios ambientais, recorrendo a metodologias reconhecidas internacionalmente, como a plataforma i-Tree® (em quatro municípios Lisboa, Almada, Cascais e Coimbra). Acresce que, em colaboração com vários municípios e entidades, foram já elaborados inventários arbóreos urbanos em 38 municípios. A identificação e georreferenciação de cerca de 267 mil árvores urbanas, correspondentes a aproximadamente 900 taxa, permitiu realizar uma meta-análise com a caracterização da composição de espécies e diversidade arbórea nacional e identificar as espécies dominantes pelas diferentes regiões. Estas quantificações permitem identificar métricas de caracterização do arvoredo em classes de desenvolvimento, jovem/adulto ou em fase de substituição assim como identificar indivíduos com potencial de árvores a serem classificadas. Estes levantamentos pretendem contribuir, por um lado, para o estabelecimento de estratégias de mitigação dos efeitos das alterações climáticas e, por outro, propor medidas de resiliência urbana através da floresta urbana. Com o referido trabalho o CEABN pretende contribuir com uma base para a manutenção e gestão sustentável do arvoredo urbano, bem como para delinear directrizes em futuras plantações.



Abandono, biodiversidade e manutenção dos espaços verdes urbanos

Francisca Lima, Xinlei Hu

CEABN, Portugal

A crescente valorização do papel desempenhado pelo desenho urbano e pela manutenção dos espaços verdes na sustentabilidade das cidades tem vindo a transformar a forma como se pensa a relação entre ecossistemas urbanos, biodiversidade e qualidade de vida. À medida que os desafios ambientais se intensificam, torna‑se cada vez mais evidente que as práticas de gestão da vegetação influenciam não apenas o desempenho ecológico dos espaços verdes, mas também a perceção pública e a aceitação social de abordagens mais naturais ou eco‑centradas. Persistem, contudo, incertezas significativas sobre até que ponto os residentes urbanos estão dispostos a apoiar modelos de gestão que alteram profundamente a estética, o uso e a identidade destes espaços.

Este trabalho sintetiza os resultados de três estudos desenvolvidos entre 2022 e 2024 - dois já publicados nas revistas Landscape and Urban Planning e Urban Forestry & Urban Greening, e um atualmente em revisão - que analisam o papel da manutenção na conservação da biodiversidade e a receptividade a abordagens eco‑centradas no contexto dos espaços verdes urbanos. A investigação recorreu a conjoint analysis, entrevistas semiestruturadas e revisão bibliográfica comparativa, tendo como caso de estudo a cidade de Hangzhou, na China, um território marcado por forte expansão urbana e por políticas ambientais inovadoras.

Os resultados mostram que a relação entre intensidade de manutenção e biodiversidade é mais complexa do que frequentemente assumido. Embora algumas práticas de elevada intervenção apresentem impactos negativos claros, outras revelam efeitos mais subtis ou mesmo neutros, sugerindo que a gestão pode ser calibrada de forma mais estratégica para maximizar benefícios ecológicos sem comprometer a funcionalidade dos espaços. Paralelamente, identificámos diferenças marcantes entre grupos de utilizadores: profissionais das áreas da ecologia e gestão da vegetação demonstram maior abertura a estéticas menos controladas e a modelos de gestão menos interventivos, enquanto residentes leigos tendem a preferir cenários híbridos, onde elementos “selvagens” são combinados com níveis moderados de manutenção visível. Estes cenários intermédios foram consistentemente avaliados de forma mais favorável do que versões totalmente “selvagens”, revelando uma procura por equilíbrio entre naturalidade e ordem.

Concluímos que estas diferenças de perceção devem ser integradas no planeamento das florestas urbanas e no desenho dos parques urbanos, de modo a garantir que as estratégias de gestão conciliam expectativas sociais diversas com a necessidade de preservar e reforçar os serviços de ecossistema. A adoção de abordagens híbridas, flexíveis e sensíveis ao contexto poderá constituir um caminho promissor para promover cidades mais resilientes, biodiversas e socialmente inclusivas.



Diversidade de proveniências como fator de resiliência da floresta urbana: o caso de Lisboa

Inês Marques Duarte1,3, Paula Gomes da Silva2,3, Leónia Nunes1, Susana Dias1, Ana Luísa Soares1

1: Centro de Ecologia Aplicada "Prof. Baeta Neves", Instituto Superior de Agronomia (CEABN-ISA), Universidade de Lisboa, Portugal; 2: Centro de Estudos em Arqueologia, Artes e Ciências do Património (CEAACP). Colégio de S. Jerónimo, 1º Piso Largo D. Dinis - 3000-395 Coimbra, Portugal; 3: Faculdade de Ciências e Tecnologia, Universidade do Algarve, Campus de Gambelas, 8005-189 Faro, Portugal

A adaptação às alterações climáticas constitui um dos principais desafios para a gestão da floresta urbana. A resiliência dos organismos vivos resulta, em grande medida, da sua capacidade de manter o seu funcionamento perante perturbações externas e da sua plasticidade ecológica, entendida como a capacidade de ajustar características fisiológicas, morfológicas ou fenológicas em resposta às condições ambientais. Espécies com maior plasticidade tendem a apresentar uma maior capacidade de adaptação a ambientes variáveis, contribuindo para a manutenção das suas funções ecológicas em cenários de stress.

As árvores de arruamento nas cidades constituem uma infraestrutura verde que assegura múltiplos serviços de ecossistema, nomeadamente o ensombramento e arrefecimento do espaço público, o sequestro de carbono, a retenção de poluentes atmosféricos, a redução do escoamento superficial, o suporte à biodiversidade e a valorização estética e social dos espaços urbanos.

As espécies utilizadas em arborização urbana apresentam origens biogeográficas muito diversificadas, refletindo histórias evolutivas associadas a diferentes regimes climáticos. Estas diferenças traduzem-se em distintos níveis de plasticidade ecológica, influenciando a capacidade de resposta a fenómenos extremos como secas prolongadas, ondas de calor, geadas ou precipitações intensas.

Entre os indicadores utilizados para caracterizar essas condições encontra-se a hardiness zone, definida pela USDA Agricultural Research Service com base na média das temperaturas mínimas extremas anuais observadas ao longo de um período de referência de 30 anos. Embora concebida para avaliar a resistência ao frio, esta classificação constitui também um indicador indireto das condições climáticas às quais as espécies estiveram historicamente sujeitas.

Este trabalho analisa a composição específica do arvoredo de arruamento da cidade de Lisboa, relacionando a origem biogeográfica das espécies mais representativas com as respetivas hardiness zones de proveniência. Foram identificadas espécies oriundas de diferentes regiões climáticas do mundo, abrangendo predominantemente zonas de rusticidade entre 7 e 11, enquanto Lisboa se situa aproximadamente numa zona equivalente a 10a. A partir desta caracterização é explorada a heterogeneidade das proveniências das espécies e discutida a sua potencial relevância para a adaptação da floresta urbana a cenários de crescente incerteza climática.

Em suma, para além da diversidade de espécies, a diversidade de proveniências representa também uma diversidade de histórias evolutivas e adaptações climáticas. A sua relação com a resiliência da floresta urbana constitui uma perspetiva que merece ser explorada e aprofundada, contribuindo para fundamentar futuras estratégias de gestão do arvoredo urbano.



Resilientes ou vulneráveis? Respostas das árvores dos jardins históricos de Lisboa às alterações climáticas

Ana Raquel Cunha1,2, Ana Luísa Soares1, Sílvia Catarino3, Cristina Duarte4, Maria Manuel Romeiras2,4

1: Centro de Ecologia Aplicada Professor Baeta Neves (CEABN-InBIO), Instituto Superior de Agronomia (ISA/ULisboa); 2: Centro de Investigação em Agronomia, Alimentos, Ambiente e Paisagem (LEAF - Linking Landscape, Environment, Agriculture and Food), Instituto Superior de Agronomia (ISA/ULisboa); 3: Agência para o Clima, I.P.; 4: Centro de Ecologia, Evolução e Alterações Ambientais (cE3c), Faculdade de Ciências (FC/ULisboa)

As árvores urbanas desempenham um papel fundamental na regulação climática, na promoção da biodiversidade e no bem-estar da população, sobretudo nas cidades do sul da Europa como Lisboa, cada vez mais expostas a eventos climáticos extremos.

Este estudo avalia a vulnerabilidade de 318 espécies arbóreas (19.579 espécimes) em 63 jardins históricos de Lisboa, tendo como referência as condições climáticas atuais (2020) e projeções para 2050 e 2090.

A análise baseou-se em dados disponibilizados pela Climate Assessment Tool (CAT), desenvolvida pela Climate Change Alliance of Botanic Gardens em colaboração com o Botanic Gardens Conservation International (BGCI), e adaptada ao contexto do arvoredo urbano de Lisboa. A ferramenta compara as condições climáticas das áreas de ocorrência das espécies com cenários climáticos futuros, permitindo avaliar a sua adequação climática, bem como os níveis de vulnerabilidade e resiliência.

Os resultados deste estudo evidenciam uma predominância de espécies da região Paleártica, muitas delas nativas. Mais de 50% destas espécies apresentam elevada vulnerabilidade, podendo esse valor atingir 77% nos cenários mais pessimistas. Em contraste, várias espécies de origem neotropical revelam uma maior capacidade de adaptação.

Estes resultados evidenciam a necessidade de integrar critérios climáticos no planeamento e gestão urbana, contribuindo para apoiar decisores, projetistas e técnicos municipais na transição de uma conservação passiva para uma abordagem proativa centrada na resiliência.



Evaluating urban tree monumentality: a socio-political, spatial and ecological analysis of a contested jacaranda tree in Lisbon

Michele Petrillo1,2,3, Leonia Nunes1, Susana Dias1, Maria Conceição Colaço1, Pablo Quiroga Devia4, Laila Algaves Nuñez5, Alessio Lacché6, Ana Luisa Soares1, Ana Paula Ramos2,3

1: Centro de Ecologia Aplicada "Prof. Baeta Neves" (CEABN), Instituto Superior de Agronomia, University of Lisbon, Lisbon, Portugal; 2: LEAF-Linking Landscape, Environment, Agriculture and Food Research Centre, Associated Laboratory TERRA, Instituto Superior de Agronomia, University of Lisbon, Lisbon, Portugal; 3: Laboratory of Plant Pathology "Veríssimo de Almeida", Instituto Superior de Agronomia, University of Lisbon, Lisbon, Portugal; 4: Independent Researcher; 5: Institute of Philosophy of the NOVA University of Lisbon (IFILNOVA); 6: University of Padua

This study is framed within a broader strategic effort to develop a citywide network of monumental trees in Lisbon. Within urban ecosystems, monumental trees—including those formally classified in Portugal as Trees of Public Interest (AIP) under Law n. 53/2012—function as key elements of sustainable planning. However, current management approaches remain largely reactive, focusing on the protection of existing specimens rather than on the identification of future candidates. In this context, the project proposes a shift towards a more proactive framework by assessing monumentality beyond purely biological criteria.

Jacaranda mimosifolia represents a fascinating paradox within Lisbon’s urban forest. Despite being an allochthonous species native to South America, it has become one of the city's most iconic visual symbols. According to the municipal street tree inventory, Lisbon hosts 3,981 specimens, making it the second most frequent species and accounting for approximately 5% of the total street tree population. Its abundance produces a profound sensory transformation of the urban landscape during the flowering season. At the same time, the presence of jacarandas increasingly intersects with socio-political dimensions. Recent conflicts, such as the 2025 controversy involving the redevelopment of 5 de Outubro Avenue, demonstrate how these trees can act as catalysts for civic mobilization, reflecting their integration into Lisbon's collective visual identity.

This study adopts a mixed-methods approach around a specific case study: an exceptionally large, enigmatic, and controversial jacaranda specimen in Lisbon’s historic center, currently under pressure from urban development. To evaluate its potential eligibility for AIP classification, the analysis expands across three complementary axes. The socio-political and historiographical dimension explores the tree’s cultural significance through interviews, surveys and archival research, highlighting how local narratives and collective perceptions shape its value. The spatial dimension analyses the distribution of jacarandas across the city using GIS, linking their presence to socio-economic patterns and broader processes of urban landscape formation. The ecological dimension considers the species’ long-term performance under Mediterranean climate conditions, including its resilience to drought stress and potential risks associated with future shifts in invasiveness.

The results indicate that the value attributed to urban trees cannot be understood solely through their biological characteristics. Rather, monumentality emerges from the intersection of ecological function, spatial context and socio-cultural meaning. The case study further illustrates how certain species, although non-native, may become embedded in the visual identity and collective memory of a city, while simultaneously raising ecological and management challenges.

In Lisbon, Jacaranda mimosifolia transcends its biological status, positioning itself as a complex biocultural entity. Transitioning to a proactive management of "future monumental trees" requires balancing aesthetic value against ecological risks. Ultimately, protecting specimens like the case-study jacaranda is a vital negotiation regarding the visual identity, socio-ecological resilience, and democratic space of the future city.



Os dragoeiros em contexto urbano no Arquipélago da Madeira: hipóteses das causas de perda de vitalidade

Natália Nunes1, Carlos Lobo2, Leónia Nunes3, Miguel Costa4, Francisco Castro Rego5

1: Instituto das Florestas e Conservação da Natureza, IP-RAM, Quinta Vila Passos, 9054-505 Funchal, Portugal; 2: Instituto das Florestas e Conservação da Natureza, IP-RAM, Quinta Vila Passos, 9054-505 Funchal, Portugal; 3: Centro de Ecologia Aplicada "Prof. Baeta Neves", Instituto Superior de Agronomia, Universidade de Lisboa, Tapada da Ajuda 1349-017 Lisboa, Portugal; 4: Natureza Verde, Rua das Flores, 14, 4770-573, S. Cosme do Vale, Vila Nova de Famalição, Portugal; 5: Centro de Ecologia Aplicada "Prof. Baeta Neves", Instituto Superior de Agronomia, Universidade de Lisboa, Tapada da Ajuda 1349-017 Lisboa, Portugal

No universo da globalização acelerada e crescente, a atividade fitossanitária florestal manifesta-se pela importância que a floresta encerra e a necessidade de a tornar mais resiliente às crescentes ameaças externas, tamponando a entrada de agentes bióticos nocivos através da prevenção e deteção precoce dos mesmos. No entanto, as ameaças podem também advir de fatores internos, impercetíveis e muitas vezes pouco questionados.

Nos dragoeiros, a presença de raízes adventícias nas ramificações da copa, a clorose das folhas, a instabilidade dos caules, a resposta lenta à aplicação de fitofármacos, a morte de exemplares sem causa aparente, a inexistência de agentes bióticos nocivos nos tecidos analisados laboratorialmente, abre um amplo leque de múltiplas hipóteses que importa considerar e testar.

A partir de um inventário de dragoeiros em vários locais, inlcuindo o recurso a imagens de drone, são consideradas várias hipóteses sobre as quais se desenvolveu o presente trabalho, nomeadamente: alelopatia, ensombramento da copa, alterações climáticas, condições edafoclimáticas, presença de agentes bióticos nocivos, e uso de fitofármacos. Este trabalho pretende conhecer as possíveis limitações que, atualmente, conduzem à perda de vitalidade dos dragoeiros em contexto urbano na Madeira.

 
10:00a11:30T4.2 - A transformação
Localização: Sala A1.13
Moderação/coordenação de sessão: José Gaspar
 
Apresentações

Evolução geracional no planeamento territorial. Do plano de arborização de Bornes (1965/1970) à OIGP da Serra do Picotino (2020/2025)

João Gama Amaral1, Armando Pacheco2, Carvalho Sérgio1, Fernandes Helena1, Vilares Vera1

1: Bosque Projetos de Engenharia, Unipessoal, Lda, Portugal; 2: APATA - Associação de Produtores Agrícolas Tradicionais e Ambientais

Resumo: O planeamento e a procura de soluções de intervenção territorial têm sofrido uma profunda evolução conceptual e operacional nas últimas décadas, moldados pelas dinâmicas socioeconómicas, climáticas e políticas de cada geração. Este trabalho analisa a transição paradigmática na gestão do território através de um estudo comparativo regional em Trás-os-Montes, correlacionando dois instrumentos de planeamento de cariz estrutural separados por quase sessenta anos: o Plano de Arborização da Serra de Bornes (1965/1970), elaborado pelo Fundo de Fomento Florestal, e a Operação Integrada de Gestão de Paisagem (OIGP) da Serra do Picotino (2020/2024), desenvolvida no âmbito do Plano de Transformação da Paisagem.

A metodologia assenta na análise documental e cartográfica agregada de ambos os planos, avaliando de forma comparativa indicadores como a governança, as metas de ocupação do solo, a integração do risco e a escala de intervenção. Os resultados evidenciam uma clara evolução geracional: transitou-se de uma matriz de intervenção top-down, setorial e marcadamente produtivista na Serra de Bornes (focada na expansão rápida de resinosas pelo Estado), para uma abordagem holística, descentralizada e multifuncional na Serra do Picotino. A OIGP de 2024 foca-se no redesenho do território orientado para a resiliência ao fogo, biodiversidade e valorização dos serviços de ecossistema através de uma Zona de Intervenção Florestal (ZIF).

Conclui-se que a correlação conceptual entre estas duas realidades territoriais é de elevado valor técnico, demonstrando que a exigida evolução geracional reinterpreta o legado histórico e que a sustentabilidade dos territórios vulneráveis exige novos modelos de governança colaborativa.



Cartografia nacional de regeneração natural de pinheiro-bravo: apoio à gestão ativa e sustentável da floresta portuguesa

Juliana Salvação1, Ana C.L Sá1, Rogério Rodrigues1, Margarida Mendes-Silva2, Pedro Teixeira2, Nuno Calado2, José Gaspar1

1: Centro PINUS, Portugal; 2: ForestWISE, Portugal

O pinheiro‑bravo (Pinus pinaster Ait.) tem um papel estratégico na economia florestal portuguesa e na coesão territorial, apesar de ter perdido entre 25 e 30% da área desde meados de 1990. A regeneração natural de pinheiro-bravo constitui uma oportunidade estratégica para recuperação, valorização e gestão florestal sustentável, sobretudo em territórios afetados por incêndios, e com ausência de gestão ativa. Apesar da sua relevância ecológica, económica e social, a ausência de informação georreferenciada, atualizada e sistematizada sobre a localização, extensão e estado destas áreas, tem limitado a sua integração em estratégias de planeamento, apoio público, gestão e valorização territorial.

Este trabalho teve como objetivo mapear em Portugal continental, áreas expectáveis de regeneração natural com idades até 25 anos, caracterizando a sua proveniência, idade e regime de incêndios. A metodologia integrou diferentes fontes cartográficas, harmonizadas para uma resolução de 30 m, incluindo cartografias de uso e ocupação do solo, cartografia de áreas ardidas, perdas estimadas de coberto arbóreo, topografia e informação complementar sobre instrumentos de gestão territorial. A classificação desenvolveu-se em três fases principais: i) definição da cartografia de base de pinheiro-bravo; ii) caracterização do regime de fogo; iii) produção da classificação temática que combina a proveniência da regeneração (áreas ardidas versus áreas com perda de coberto arbóreo), a classe etária da regeneração (0–7, 7–14 e 14–25 anos), e a recorrência de incêndios (≤9 anos e >9 anos).

Foram cartografados 446.348ha onde é expectável existir regeneração natural. A aplicação de um limiar operacional de 20ha, selecionou 250.512ha, correspondentes a cerca de 31% da área total nacional ocupada com pinheiro-bravo. A maioria desta área (86%) é proveniente de áreas ardidas. Verifica-se ainda que 42% da área total cartografada tem entre 7 e 14 anos, refletindo a maior incidência de incêndios na última década e reforçando a importância de intervenções prioritárias de condução, beneficiação, gestão da densidade e redução da carga combustível. Estas áreas localizam-se sobretudo nas regiões Centro e Norte e em altitudes entre 400 e 800m, onde a aptidão ecológica da espécie é boa. A distribuição revela uma vasta área com capital florestal em idade jovem/intermédia, onde a condução silvícola será crucial para aumentar a resiliência destes ecossistemas florestais.

A cartografia produzida constitui uma base técnica de apoio à priorização de áreas a intervencionar, orientar medidas de apoio público, enquadrar estratégias de gestão territorial, promover modelos de gestão agrupada e de valorização económica da fileira do pinho. Este trabalho contribui para aproximar ciência, tecnologia e decisão, reforçando as conexões sustentáveis entre a floresta e pessoas que dela fazem parte.



Ferramentas para apoio ao mercado voluntário de carbono em Portugal

Margarida Tomé, Susana Barreiro, Nuno Leitão

Centro de Estudos Floresais, Instituto Superior de Agronomia, Portugal - Laboratório Associado TERRA

Portugal lançou em outubro de 2025 o Mercado Voluntário de Carbono, (MVC) estando já disponível a “Metodologia para Novas Florestações em Portugal”. Encontram-se em consulta pública duas novas metodologias, “Metodologia de Carbono sobre Gestão Florestal Melhorada” e “Metodologia de Carbono sobre Reflorestações”. Estas metodologias são bastante detalhadas, mas falham na proposta de métodos de quantificação, principalmente Ex Ante, da redução de emissões de GEE ou do sequestro de carbono associados ao projeto de carbono. É referido no texto da metodologia aprovada que podem ser utilizados: i) Modelos de produção, devidamente calibrados para a(s) espécie(s), local/locais do projeto: ii) Tabelas de produção, quando aplicáveis à(s) espécie(s), local/locais do projeto e modelo(s) de gestão a implementar pelo projeto; iii) quando estes não existam, valores-padrão constantes da Especificação Técnica disponível no Anexo “Cálculo Ex Ante” (valores estes provenientes de MITECO (2023) Calculadora de Proyectos de Absorción de Dioxido de Carbono. Versão 6). A leitura da metodologia leva com certeza os futuros utilizadores para a utilização dos valores disponibilizados no Anexo “Cálculo Ex Ante”, valores esses que, para além de não terem sido validados para Portugal, se baseiam num princípio errado, o de que é possível determinar valores-padrão para o stock por árvore numa determinada idade. Estes valores dependem, e muito, da qualidade da estação e da densidade do povoamento. Neste trabalho, para além de ser feita uma análise crítica, para algumas espécies, dos valores padrão propostos, selecionam-se modelos de crescimento e/ou tabelas de produção adequados para realizar o cálculo Ex Ante do sequestro de carbono num determinado projeto de carbono. Para facilitar a utilização das tabelas de produção propostas, foi desenvolvida uma aplicação de fácil utilização para os futuros promotores de projetos direcionados para o MVC. Para os promotores com maior preparação florestal, a utilização dos modelos de produção propostos pode ser realizada com o simulador StandsSIM.online, disponível na plataforma sIMfLOR (https://www.isa.ulisboa.pt/cef/forchange/fctools/pt/inicio), a qual será objeto de outra apresentação neste congresso.



Modelo conceptual de sequestro e armazenamento de carbono

Francisco Manuel Castro Rego1, Horácio Reis2, Catarina Sequeira1, Leónia Nunes1

1: Centro de Ecologia Aplicada "Prof. Baeta Neves", Instituto Superior de Agronomia, Universidade de Lisboa, Tapada da Ajuda 1349-017 Lisboa, Portugal; 2: Omnitalentum, Lda, Porto

O presente trabalho, desenvolvido no âmbito do projeto CarbonWise da Agenda Mobilizadora CircularTech, estabelece as bases metodológicas para a identificação, quantificação e otimização do sequestro e armazenamento de carbono. O objetivo central é fornecer o suporte técnico necessário para a transação de créditos no Mercado Voluntário do Carbono (MVC), contribuindo para a neutralidade carbónica e para a valorização do território europeu.

O modelo conceptual assenta em cinco pressupostos fundamentais para garantir uma arquitetura coerente. Discute-se o primeiro que estabelece a relação de causa-efeito entre a concentração de CO2 na atmosfera e as alterações climáticas, seguindo o consenso do IPCC sobre a necessidade de limitar o aquecimento global. No entanto, assumindo o primeiro pressuposto, o segundo e o terceiro pressupostos destacam a importância crucial dos ecossistemas terrestres como reservatórios de carbono superiores em dimensão ao reservatório atmosférico, definindo que a meta deve ser o equilíbrio entre estes compartimentos através do aumento da biomassa terrestre. Um elemento central da discussão é a integração do fator tempo. O quarto pressuposto defende o uso de taxas de desconto nulas ou próximas de zero (máximo 1%). Esta escolha baseia-se numa perspetiva ética e intergeracional, argumentando que a sobrevivência do planeta se sobrepõe às taxas de mercado convencionais. O quinto pressuposto foca-se na duração dos efeitos, privilegiando armazenamentos prolongados, mas reconhecendo o valor dos armazenamentos temporários através da métrica tCO2Ano. Esta unidade permite quantificar o benefício de projetos com horizontes definidos, onde uma tonelada de CO2 armazenada por um ano equivale a um crédito temporário.

A metodologia propõe o armazenamento acumulado como a medida mais adequada para aferir o impacto climático. Finalmente, sublinha-se a importância de integrar a valoração do carbono com co-benefícios ecológicos, como o ciclo da água e a biodiversidade, sugerindo uma diferenciação positiva para espécies nativas em detrimento de espécies invasoras.

Serão apresentados modelos de cálculo para três projetos, nas tipologias de Nova Florestação; Melhoria de Gestão e Conservação ou Proteção.

Este trabalho foi financiado pelo PRR/IAPMEI/Aviso 02/C05-i01/2022, CIRCULARTECH (Contribute to solving a problem that humanity has faced since the industrial revolution: waste) – Carbon WISE



sIMfLOR.online: Simular a Floresta Portuguesa

Nuno Leitão, Susana Barreiro, Margarida Tomé

Centro de Estudos Florestais, Laboratório Associado TERRA, Instituto Superior de Agronomia, Universidade de Lisboa; Portugal

O sIMfLOR.online é uma plataforma, disponível na Internet (www.simflor.online), desenvolvida com algumas das tecnologias Web mais modernas, para permitir a indexação, a implementação e o desenvolvimento de programas software, Ferramentas e Simuladores Florestais digitais em particular, potencialmente escaláveis, integrados com recursos necessários e operacionalizados com elevada performance, robustez, versatilidade, acessibilidade e usabilidade, de modo a representar e disponibilizar ao nível da sociedade, para apoio à tomada de decisão, ao planeamento e à gestão florestal, a informação e o conhecimento reunidos e resultantes dos trabalhos de investigação do CEF (Centro de Estudos Florestais).

A pertinência incontornável, não só para o setor Florestal como, e em particular, para os objetivos e trabalhos desenvolvidos no grupo ForChange do CEF, do desenvolvimento de um Sistema de Informação moderno, com design adaptável para todos os tipos de dispositivos (do mobile ao desktop), funcional em diferentes sistemas operativos e diferentes navegadores Web foi realçada: pela necessidade constante e crescente para a disponibilização preferencial de utilitários e de informação através de dispositivos Web; pelo maior potencial e a maior capacidade que as tecnologias de informação podem oferecer, em termos da operacionalização, da partilha de recursos e do uso do conhecimento e da informação científica; e pelas capacidades das novas tecnologias de desenvolvimento informático para implementar, escalar e atualizar aplicações de forma expedita, perante os contínuos resultados dos trabalhos de investigação em produção.

O sIMfLOR.online foi desenvolvido com uma arquitetura em MVC (componentes: Modelo-Vista-Controlador) com base na framework Laravel, integrando no backend os Modelos de Base de Dados, Modelos de APIs e Modelos Florestais (por exemplo: modelos de crescimento e produção florestal) com os Controladores, que incorporam toda a lógica das funcionalidades, interações entre componentes e interligação com as Vistas do frontend. As Vistas, acedidas pelos utilizadores nos navegadores Web, foram desenvolvidas com a framework VueJS, de modo a permitir uma flexibilidade de desenvolvimento semelhante à do backend e incorporar, também nesta componente, funcionalidades com lógica de mais elevada complexidade. Foram desenvolvidos diferentes Módulos base: “Autenticação” de utilizadores; de gestão de “Utilizadores” e dos seus perfis (utilizador, aluno, professor); “Entidades”; “Turmas”; ou de gestão de “Simuladores e Ferramentas”, permitindo: a disponibilização de diferentes aplicações com distintos formatos; a utilização das aplicações relacionadas com áreas pessoais dos utilizadores, o arquivo e reciclagem de utilizações (trabalhos realizados com recursos às ferramentas/simuladores florestais); a partilha de recursos entre aplicações e entre utilizadores (e.g. aluno-professor); a digitalização de aulas e avaliações na academia e de formação profissional; e também a sua utilização como plataforma de desenvolvimento, caso do StandsSIM Web App com os simuladores de crescimento da floresta portuguesa.

 
10:00a11:30T2.4 - Os desafios
Localização: Sala A1.14
Moderação/coordenação de sessão: Susana Saraiva Dias
 
Apresentações

Planeamento da reflorestação de produtos lenhosos e não lenhosos com base na informação climática em Portugal

Natália Roque1,2, Alice Maria Almeida1, Paulo Frernandez1,3, Maria Margarida Ribeiro1,2,4, Cristina Alegria1,2

1: Instituto Politécnico de Castelo Branco. Escola Superior Agrária, Portugal; 2: Centro de Estudos em Recursos Naturais, Ambiente e Sociedade-Instituto Politécnico de Castelo Branco (CERNAS –IPCB). Quinta da Senhora de Mércules, 6001-909 Castelo Branco, Portugal; 3: MED – Mediterranean Institute for Agriculture, Environment and Development & CHANGE – Global Change and Sustainability Institute, Universidade de Évora, Pólo da Mitra, Ap. 94, 7006-554 Évora, Portugal; 4: Centro de Estudos Florestais (CEF), Laboratório Associado TERRA, Instituto Superior de Agronomia (ISA). Universidade de Lisboa, Tapada da Ajuda, 1349-017 Lisboa, Portugal

Este estudo explora o potencial de reflorestação em Portugal que poderá equilibrar a produção lenhosa e não lenhosa em futuros cenários de alterações climáticas. Foram usados Modelos de Envelope Ecológicos (MEE) com três objetivos principais: (1) modelar a distribuição atual de espécies florestais portuguesas chave — eucalipto, pinheiro-bravo, pinheiros-manso, castanheiro e sobreiro — com base na sua adequação à produção lenhosa e não lenhosa, (2) projetar a sua distribuição potencial para os anos de 2070 e 2090 em dois cenários de aquecimento global (Shared Socioeconomic Pathway – SSP): SSP2–4.5 (moderado) e SSP5–8.5 (elevadas emissões) e (3) gerar mapas integrados de distribuição de espécies, identificando zonas de elevada adequabilidade, tanto atuais como futuras, para apoiar o planeamento da reflorestação, incluindo florestas mistas e em mosaico, refletindo a compatibilidade climática sob limiares fixos. Os MEE atuais das espécies foram produzidos utilizando um modelo Booleano aditivo com um conjunto de variáveis ​​ambientais (relacionadas com a temperatura, a precipitação, a altitude e o solo) específicas para cada espécie. Os atuais Modelos de Envelope Ecológicos das espécies foram validados com recurso a dados de Inventário Florestal Nacional (IFN6) e da Carta de Uso e Ocupação do Solo (COS) para 2018, tendo-se obtido uma boa concordância (>99%). Prevê-se que, até ao final do século XXI, ocorram reduções acentuadas na aptidão das espécies, especialmente para o castanheiro (36–44%) e o pinheiro-bravo (25–35%). A incorporação de medidas de silvicultura preventiva no planeamento da reflorestação é essencial para garantir a produção de plantações mais resilientes e mais próximas dos ecossistemas naturais, apostando em florestas mistas e em mosaico, de acordo com a adequabilidade das espécies em futuros cenários de aquecimento global.

Trabalho financiado FCT: CERNAS, UID/681/2025 (https://doi.org/10.54499/UID/00681/2025), CEF, UID/00239/2025 (10.54499/UID/00239/2025) e UID/PRR/00239/2025 (10.54499/UID/PRR/00239/2025), Laboratório Associado TERRA, LA/P/0092/2020 (10.54499/LA/P/0092/2020), MED (https://doi.org/10.54499/UID/05183/2025) e Laboratório Associado CHANGE (https://doi.org/10.54499/LA/P/0121/2020).



Percentis baixos da altura da base da copa expressam melhor a base da copa do povoamento do que a correspondente média

Jean Magalhães, Margarida Tomé

Centro de Estudos Florestais (CEF), Instituto Superior de Agronomia (ISA), Universidade de Lisboa, Portugal

A altura da base da copa (CBH) é uma variável fundamental na avaliação do potencial de transição do fogo de superfície para fogo de copas. Apesar da sua relevância operacional, a CBH é frequentemente estimada como a média da altura da base da copa das árvores do povoamento, assumindo que este valor representa adequadamente a estrutura vertical do combustível. No entanto, a continuidade vertical do combustível relevante para a transição inicial do fogo de superfície para a copa depende sobretudo dos estratos inferiores da copa e não da posição média da distribuição. Neste estudo, avaliou-se a relação entre a CBH derivada da densidade aparente da copa (CBD) e a distribuição empírica da altura da base da copa (hbc) em povoamentos regulares de Pinheiro-bravo (Pinus pinaster) em Portugal. Foram analisadas 838 medições provenientes de 169 parcelas permanentes da base de dados PINASTER. Para cada povoamento foi identificada a altura em que a CBD ultrapassa o limiar crítico de 0,012 kg m⁻³ e determinada a sua posição na distribuição de hbc. Os resultados demonstraram que a CBH associada à continuidade vertical do combustível não corresponde à média da distribuição de hbc, ocorrendo tipicamente em percentis baixos, frequentemente próximos do percentil 10. Observou-se ainda que o percentil correspondente varia com a estrutura do povoamento, sendo geralmente mais baixo em povoamentos mais densos e com maior área basal. Conclui-se que a utilização exclusiva da média tende a sobrestimar a altura efetiva à qual existe continuidade vertical suficiente para suportar a propagação do fogo. Embora a CBH associada à continuidade do combustível corresponda frequentemente a percentis próximos do percentil 10, a sua posição varia em função da estrutura do povoamento, não existindo um percentil universalmente aplicável. Os percentis baixos da distribuição de hbc constituem, por isso, uma representação mais consistente da base da copa quando o objetivo é caracterizar a continuidade vertical do combustível, oferecendo uma alternativa complementar às métricas tradicionalmente utilizadas na modelação do comportamento do fogo. Estes resultados estabelecem uma ligação direta entre definições físicas de continuidade vertical do combustível e a estrutura empírica dos povoamentos, contribuindo para uma representação mais realista da base da copa em aplicações de comportamento do fogo.



Assessing long-term spatial patterns of oak mortality using the national database of cutting requests

Marco Marques, Filipe X. Catry, Miguel N. Bugalho, Vanda Acácio

Centro de Ecologia Aplicada "Prof. Baeta Neves", Portugal

Cork oak (Quercus suber L.) and holm oak (Quercus rotundifolia Lam.) are key species in Mediterranean oak woodlands and silvopastoral systems in the Iberian Peninsula named montados in Portugal and dehesas in Spain. Montados and dehesas have high ecological and socio-economic value, but these systems, among other challenges, are threatened by high adult oak mortality. Previous research focused on identifying mortality drivers such as pathogens, effects of climatic change, or inadequate management practices, but oak mortality spatial and temporal variability received less attention.

Here we use the national database of cutting requests from the Portuguese Forest Authority (ICNF) as a proxy for cork and holm oak mortality to characterize spatial patterns and identify main regional areas of mortality in Portugal for the between 1997 and 2019. We use a structured data selection protocol for retaining mortality-related records for both oak species. We use Average Nearest Neighbor (ANN), Incremental Spatial Autocorrelation (ISA), and Getis–Ord Gi* hotspot analysis at two complementary scales: local (1 km) and regional (10 km) for oak mortality spatial analysis.

Results show that oak mortality is strongly spatially aggregated and deviates significantly from a random spatial distribution. There are areas consistently concentrating high oak mortality, although spatial patterns vary with scale. Cork oak shows areas concentrating high mortality namely in Ribatejo region with additional mortality concentration in southern and coastal regions in Alentejo. In contrast, holm oak shows more fragmented mortality spatial patterns, with recurrent areas of high mortality in the regions of Alentejo (Évora and Beja districts) and Beira Baixa, (Castelo Branco).

Our results suggest that public administration records on tree mortality may be used to get ecological insights and support spatial monitoring of oak mortality. Additionally, identification of areas concentrating high oak mortality will contribute to prioritize ground truth measurements, and potential conservation and forest management strategies. Finally, identifying areas that consistently concentrate high oak mortality may also contribute to identify and integrate main environmental and management variables driving oak mortality in such regions.



Conta de cultura do pinhal-bravo com resinagem: rentabilidade, emprego rural e bioeconomia em territórios de baixa densidade

Ana Marta-Costa1, Adelaide Cerveira2, André Sandim3, Marco Ribeiro4, Pedro Teixeira5, Margarida Mendes-Silva5

1: Centro de Estudos Transdisciplinares para o Desenvolvimento (CETRAD), Universidade de Trás-os-Montes e Alto Douro (UTAD), Portugal; 2: Departamento de Matemática, Universidade de Trás-os-Montes e Alto Douro (UTAD), e Instituto de Engenharia de Sistemas e Computadores, Tecnologia e Ciência (INESC-TEC), Portugal; 3: Departamento de Ciências Florestais e Arquitetura Paisagista (CIFAP), Universidade de Trás-os-Montes e Alto Douro (UTAD), Portugal; 4: RESIPINUS, Portugal; 5: Centro PINUS, Portugal

O pinheiro-bravo (Pinus pinaster Ait.) ocupa cerca de 713 000 ha em Portugal continental e sustenta fileiras chave como a madeira e a resina, com forte relevância económica e social em territórios rurais de baixa densidade. A resinagem, quando integrada na gestão dos povoamentos, pode acrescentar valor económico, gerar emprego local e contribuir para a redução do risco de incêndio, ao promover maior presença de trabalhadores na floresta e a manutenção de áreas com controlo de vegetação espontânea. Contudo, a decisão de investir nesta atividade exige ferramentas que articulem a dimensão técnico silvícola com a análise económico financeira, permitindo ao proprietário e aos decisores públicos avaliar a viabilidade e comparar modelos de gestão alternativos.

Neste contexto, foi desenvolvido um modelo de conta de cultura em formato Excel para a exploração conjunta de madeira e resina em pinhal bravo, com base em dados técnico económicos da literatura, tabelas de custos de referência da CAOF, consulta de mercado e simulações de crescimento com o modelo ModisPinaster. O modelo permite configurar cenários combinando origem do povoamento (plantação ou condução da regeneração natural), qualidade de estação (baixa, média, alta), número e idade dos desbastes, opções de resinagem (vida ou morte) e horizonte de 40 anos. A conta de cultura integra fluxos anuais de custos de instalação e de exploração e de rendimentos provenientes da venda de madeira e da concessão da resinagem, permitindo calcular indicadores como o Valor Atual Líquido, a Anuidade, a Taxa Interna de Rentabilidade e o rácio Benefício Custo, através do método dos preços constantes.

Os resultados evidenciam que a inclusão da resinagem aumenta de forma consistente a rentabilidade dos projetos florestais, ao introduzir entradas de capital regulares que encurtam os intervalos entre receitas de madeira. Os cenários baseados na condução da regeneração natural revelam-se, em geral, mais vantajosos do que os de plantação, por evitarem custos iniciais elevados e explorarem a regeneração existente, especialmente quando associados a desbastes programados e resinagem intensiva nos anos finais (resinagem morte). Observa-se ainda que o impacto relativo da resinagem sobre o Valor Atual Líquido é particularmente relevante em povoamentos com menores diâmetros médios, onde a perda de crescimento em madeira é compensada pelo acréscimo de receita da resina.

Este modelo constitui uma ferramenta de apoio à decisão para proprietários, gestores, técnicos e entidades públicas, ao tornar explícitos os compromissos entre produção de madeira, extração de resina, emprego rural e mitigação do risco de incêndio. Ao permitir testar cenários adaptados a diferentes qualidades de estação e estratégias de gestão, contribui para uma bioeconomia florestal mais resiliente e para reforçar as conexões sustentáveis entre floresta, pessoas e território nas regiões dependentes do pinhal bravo.

Agradecimentos: Este trabalho é financiado pelo projeto I&D integrado Resina Natural 21 suportado pelo PRR – Plano de Recuperação e Resiliência e pelos Fundos Europeus NextGeneration EU, e por fundos nacionais através da FCT – Fundação para a Ciência e a Tecnologia, I.P., no âmbito dos projetos UID/04011/2025 (http://doi.org/10.54499/UID/04011/2025); e UID/50014/2025 (https://doi.org/10.54499/UID/50014/2025)



Chestnut microbiome as a resource for biological sisease control and climate resilience

Toufiq Soale Yussif1, Nadine Evora da Cruz1, Andreia Afonso2, Ana Catarina Ribeiro2, Anabela Martins1, Paula Rodrigues1

1: Centro de Investigação de Montanha (CIMO), Instituto Politécnico de Bragança, Campus de Santa Apolónia, 5300-253 Bragança, Portugal; 2: Deifil Technology Lda., Rua do Talho 80 – Serzedelo, 4830-704 Póvoa de Lanhoso

Chestnut trees (Castanea sativa) are important forest and agricultural plants in northern and central Portugal, holding significant ecological, economic, and cultural value. However, chestnut ecosystems are increasingly threatened by a combination of devastating diseases and the growing impacts of climate change. Pathogens such as Phytophthora cinnamomi, responsible for ink disease, Cryphonectria parasitica, the causal agent of chestnut blight, and the more recently emerged Sirococcus (=Gnomoniopsis) smithogilvyi, associated with brown rot of nuts, pose severe and compounding threats to tree health and productivity. These biotic stresses are further intensified by abiotic pressures, particularly drought and extreme temperature events, which weaken tree defenses and create conditions more favorable to pathogen spread. Conventional disease management strategies, largely reliant on chemical inputs, are increasingly recognized as insufficient and environmentally unsustainable, underscoring the urgent need for innovative, nature-based approaches that can simultaneously address disease pressure, promote plant vigor, and enhance resilience to environmental stress. In this context, we sought to develop microbial formulations with biostimulant properties that promote chestnut phytosanitary health and climate resilience, reduce dependence on chemical inputs, and advance a regenerative agricultural model. Microorganisms were isolated from healthy and declining chestnut ecosystems, sampled across reproductive and vegetative chestnut tissues and rhizospheric soil to capture the microbial diversity naturally associated with these environments. A preliminary screening evaluated the biotechnological potential of the recovered isolates. Antagonistic activity against the three pathogens was assessed in vitro using dual-culture assays, with several isolates showing inhibitory effects against one or more pathogens, indicating promising biocontrol potential. Isolates were also screened for plant growth-promoting traits: phosphate solubilization was assessed on Pikovskaya medium, and siderophore production using Chrome Azurol S agar. Multiple isolates tested positive for both traits, suggesting roles in nutrient mobilization, iron acquisition, and enhanced stress tolerance. To further characterise associated microbial communities, bacterial and fungal diversity in the rhizospheric soil is being assessed through 16S rRNA and ITS amplicon sequencing, complemented by qPCR quantification of key pathogens, providing both culture-based and community-level perspectives on the chestnut microbiome. These results revealed a diverse and potentially valuable microbial community naturally associated with chestnut, with promising applications in sustainable disease management and climate adaptation. The most encouraging isolates will be characterised at the molecular and functional level and integrated into microbial consortia, with a view to developing bio-based formulations improving chestnut phytosanitary status and resilience to climate stress, contributing to a more sustainable model of chestnut forest management.

 
11:30a12:00Pausa para café
Localização: Átrio ESAC
11:30a12:00Apresentação do livro "José Moreira da Silva – Um Pioneiro da Ação Florestal"
Localização: Auditório Pequeno (H1.04)
Apresentação do livro «José Moreira da Silva – Um Pioneiro da Ação Florestal» por Isabel Moreira da Silva. 
12:00a13:30Simpósio 13b - Baldios em transformação: dinâmicas institucionais e modelos de gestão
Localização: Auditório ESAC (Bloco E)
Moderação/coordenação de sessão: Pedro Gomes
Moderação/coordenação de sessão: André Chaves
Moderação/coordenação de sessão: Iryna Skulska Kolos
 
Apresentações

Serviços de Ecossistema, Altos Valores de Conservação e Pagamento por Serviços Ambientais em territórios comunitários de montanha: Baldios

Luis Lopes1, Bruno Francisco Francisco2, Armanda Gonçalves1, Fátima Piña-Rodrigues22

1: utad; 2: Universidade Federal de São Carlos, campus Sorocaba, SP

Os territórios de montanha em Portugal enfrentam processos de abandono, perda de práticas tradicionais, acumulação de biomassa, degradação funcional dos ecossistemas e aumento da vulnerabilidade aos incêndios rurais. Apesar destas pressões, continuam a assegurar serviços essenciais, como regulação hídrica, proteção do solo, conservação da biodiversidade, produção de recursos, suporte à silvopastorícia, valores culturais e identidade territorial. Nos baldios, esta relevância é reforçada pelo seu caráter comunitário e pela relação histórica entre populações locais, uso dos recursos naturais e gestão do território.

Este trabalho integra duas abordagens complementares desenvolvidas em contexto de montanha no Norte de Portugal. A primeira consistiu no desenvolvimento e aplicação de um protocolo de avaliação de Serviços de Ecossistema, baseado em 23 indicadores distribuídos pelas categorias de aprovisionamento, regulação, suporte e culturais. A metodologia permitiu comparar ecossistemas como florestas de folhosas, matos, lameiros, áreas agrícolas, floresta periurbana e aldeias, evidenciando o potencial destes índices como ferramenta de apoio à gestão, conservação e eventual implementação de mecanismos de Pagamento por Serviços de Ecossistema.

A segunda abordagem aplicou este referencial ao Baldio de Fortunho, no concelho de Vila Real, articulando avaliação ecológica de campo com perceção social da população local e externa. Foram avaliados quatro ecossistemas representativos — floresta, matos, galeria ripícola e rede primária — em 142 pontos de amostragem. Foi ainda aplicado um questionário estruturado para avaliar o conhecimento, a valorização e a perceção dos serviços prestados pelo baldio.

Os resultados revelaram baixos valores globais do Índice de Serviços de Ecossistema em todos os ecossistemas avaliados, inferiores a 30%, indicando uma situação crítica de adequação ecológica e funcional. A galeria ripícola e a floresta apresentaram os melhores desempenhos relativos, sobretudo nos serviços de regulação e suporte. Os matos e a rede primária demonstraram maior fragilidade funcional, associada à recorrência de incêndios, à simplificação estrutural da vegetação e à reduzida provisão de serviços múltiplos.

A leitura integrada dos dois trabalhos permite propor uma evolução metodológica assente na articulação entre Serviços de Ecossistema, Altos Valores de Conservação — High Conservation Values, HCV — e Pagamento por Serviços Ambientais. Esta abordagem permite identificar os serviços existentes e, sobretudo, os que são críticos, ameaçados ou essenciais para a gestão sustentável dos territórios comunitários de montanha. Destacam-se os valores associados a habitats florestais autóctones, galerias ripícolas, regulação hídrica, conservação do solo, prevenção estrutural dos incêndios, usos comunitários, silvopastorícia e identidade cultural dos baldios.

Conclui-se que a combinação entre indicadores ecológicos, avaliação participativa e enquadramento HCV constitui uma ferramenta promissora para apoiar a gestão sustentável dos baldios e de outros territórios comunitários de montanha, permitindo definir prioridades de conservação, restauro e monitorização e fundamentar políticas públicas territorializadas, incluindo mecanismos de compensação e Pagamento por Serviços de Ecossistema dirigidos às comunidades locais.



Gestão florestal para a conservação do habitat do lobo ibérico em baldios

Cindy Loureiro, José Miguel Oliveira, Gonçalo Brotas

ACHLI, Portugal

A conservação de habitat de uma espécie como o lobo ibérico, num território com as características da sua atual área de distribuição em Portugal, suscita diversas questões que em parte podem ser respondidas, de forma pragmática e efetiva através de ações de gestão florestal. A natureza e dimensão da propriedade, a ocupação do solo, o ordenamento do território e a diversidade dos agentes locais presentes no território, tornam o planeamento e a execução de ações de gestão florestal para conservação, por vezes, bastante complexas. Na atual área de distribuição do lobo, os baldios apresentam grande relevância na conservação do seu habitat, pelas suas características ecológicas, localização e dimensão.

No âmbito da avaliação de impacte ambiental de projetos de energias renováveis, foi criado o Fundo do Lobo (gerido pela ACHLI) que financia a concretização de medidas compensatórias para o habitat do lobo. No âmbito deste fundo são desenvolvidas diversas ações de gestão florestal para conservação nas regiões do Alto Minho e sul do rio Douro. Estas ações têm como objetivo potenciar uma melhoria das condições de habitat e aumento da área disponível para o lobo e suas presas silvestres. Os projetos de gestão florestal incluem ações de florestação, gestão de combustíveis, aproveitamento da regeneração natural, adensamentos, controlo de plantas invasoras lenhosas, gestão integrada de áreas e consolidação de arborizações.

Tendo em consideração a área de desenvolvimento destes projetos, a melhor forma de obter escala e potenciar algum impacto a nível da paisagem, é a seleção de área baldias para a implementação dos projetos florestais. Esta seleção é efetuada em função da recetividade das comunidades locais e após a análise da relevância das áreas para a conservação do habitat do lobo. As áreas são posteriormente submetidas ao ICNF para aprovação, de acordo com o estabelecido no Fundo do Lobo. Em termos formais, são celebrados Protocolos de Colaboração com as entidades gestoras dos baldios por um prazo alargado, no mínimo 10 anos. As intervenções a realizar no âmbito dos projetos são sempre definidas em articulação com entidades gestoras e validadas por estas.

O financiamento das ações de gestão florestal é assegurado pelo Fundo do Lobo numa perspetiva de longo prazo, permitindo uma presença regular e contínua nos territórios. Deste modo, é possível determinar e ajustar as intervenções mais adequadas às necessidades de cada projeto e em articulação com as entidades gestoras do baldio. Atualmente, as áreas incluídas nos projetos de gestão florestal totalizam 712 ha. Os resultados obtidos até ao momento demonstram o potencial de replicação destas ações noutros baldios na área de distribuição do lobo ibérico.



Da dominância dos matos à diversificação da paisagem: dez anos de gestão adaptativa no Baldio de Carvalhais

Luis Filipe Lopes1,2, Teresa M Gamito1, Inês Leão1, Margarida Silva1

1: MONTIS - Associação para a Gestão e Conservação da Natureza; 2: Centro de Estudos Florestais, Laboratório Associado TERRA, Instituto Superior de Agronomia, Universidade de Lisboa

O abandono rural e o declínio dos usos tradicionais do território têm contribuído para a acumulação de combustíveis, homogeneização da paisagem e aumento do risco de incêndio em muitas áreas de montanha de Portugal. Estes processos são particularmente evidentes nos baldios, onde a redução do pastoreio e a diminuição do interesse económico conduzem frequentemente à expansão de matos densos e à recorrência de incêndios de elevada severidade.

Este trabalho apresenta os resultados de dez anos de gestão adaptativa (2015–2025) no Baldio de Carvalhais, um baldio com 100 ha localizado na Serra da Arada e integrado na Rede Natura 2000. Na sequência de um grande incêndio ocorrido em 2010, a área encontrava-se dominada por comunidades arbustivas densas, com uma presença reduzida e fragmentada de árvores autóctones. Desde 2015, a gestão é assegurada pela MONTIS – Associação para a Gestão e Conservação da Natureza, através de um protocolo estabelecido com a União de Freguesias de Carvalhais e Candal e o ICNF.

A gestão foi orientada por objetivos de conservação da biodiversidade e implementada através de uma abordagem de gestão adaptativa, combinando fogo controlado, condução da regeneração natural, plantações, intervenções de engenharia natural, monitorização da biodiversidade e envolvimento de voluntários e entidades locais. O fogo controlado foi aplicado em aproximadamente 44 ha (quase metade da área gerida), distribuídos por três parcelas, cada uma intervencionada duas vezes. Foram igualmente plantadas aproximadamente 35 000 árvores e arbustos autóctones para complementar a regeneração natural, bem como realizadas diversas intervenções destinadas a melhorar as condições edáficas e hidrológicas.

A avaliação baseou-se nos Relatórios de Gestão e Plano de Ação (RGPA), produzidos anualmente, que compilam informação sobre as ações realizadas, os recursos mobilizados, os resultados obtidos e os registos de biodiversidade. A monitorização combinou observações de campo, fotoarmadilhagem, Bioblitzes e registos em plataformas de ciência cidadã, acumulando observações correspondentes a mais de 400 espécies.

Ao longo da década observou-se uma transição gradual de uma paisagem dominada por matos homogéneos para um mosaico mais diversificado e estruturalmente complexo. A repetição do fogo controlado reduziu a continuidade dos combustíveis e facilitou intervenções subsequentes, enquanto a regeneração natural e as plantações aumentaram a representação de espécies lenhosas autóctones. Verificaram-se também melhorias na diversidade de habitats, na conectividade ecológica e nas condições para espécies de interesse para a conservação, incluindo o lobo-ibérico (Canis lupus signatus), sobretudo através da valorização dos habitats utilizados pelas suas presas. O projeto envolveu centenas de voluntários e contou com a participação de comunidades locais, organizações da sociedade civil e entidades públicas.

O caso do Baldio de Carvalhais demonstra o potencial da gestão adaptativa de longo prazo para promover a biodiversidade, aumentar a resiliência da paisagem ao fogo e criar valor ecológico em territórios marginais. Os resultados sugerem que o sucesso destas abordagens depende não apenas das intervenções ecológicas implementadas, mas também da capacidade de mobilizar conhecimento, financiamento e participação social de forma continuada.



Governança, ciência e gestão adaptativa na restauração da paisagem da Serra do Açor: um projeto distinguido com o Prémio Nacional da Paisagem 2025

Nuno Santos1, Beatriz Fidalgo2, João Gama Amaral3,7, Luís Paulo Costa4, Raúl Salas2,5, Ivon Brandão2, José Gaspar2, Érica Castanheira6

1: Floresta Serra do Açor; 2: Escola Superior Agrária/Instituto Politécnico de Coimbra, Portugal; 3: Grupo Jerónimo Martins; 4: Câmara Municipal de Arganil; 5: RCM2+ Centro de Investigação em Gestão de Activos e Engenharia de Sistemas; 6: Dep. Eng. Mecânica, Faculdade de Ciências e Tecnologia da Universidade de Coimbra; 7: Bosque

Os incêndios rurais de 2017 evidenciaram a elevada vulnerabilidade das paisagens florestais do centro de Portugal, marcada por décadas de abandono rural, fragmentação fundiária, simplificação dos usos do solo, expansão de monoculturas florestais e acumulação de combustíveis. Na Serra do Açor, estes processos culminaram numa profunda degradação ecológica, económica e social da paisagem, reforçando a necessidade de desenvolver novas abordagens de gestão à escala territorial.

O Projeto Floresta da Serra do Açor (FSA), distinguido com o Prémio Nacional da Paisagem 2025, constitui uma resposta integrada a este desafio, assumindo a restauração da paisagem florestal como um processo ecológico, técnico, social e institucional. Desenvolvido numa área de 2.500 ha, quase integralmente afetada pelos incêndios de 2017, o projeto resulta de uma plataforma colaborativa que integra nove comunidades de compartes reunidas na Associação Floresta Serra do Açor, a Câmara Municipal de Arganil, o Grupo Jerónimo Martins e a Escola Superior Agrária de Coimbra. Este modelo de governança articula liderança institucional, participação comunitária, financiamento privado de longo prazo e acompanhamento técnico-científico, criando condições para ultrapassar limitações frequentemente associadas às intervenções florestais convencionais.

Do ponto de vista técnico, o FSA assenta num Plano de Gestão Florestal orientado para a adaptação das florestas às alterações climáticas, a redução da vulnerabilidade ao fogo, a recuperação da diversidade e a valorização económica e cultural da paisagem. A estratégia integra povoamentos mistos dominados por espécies autóctones, aproveitamento da regeneração natural, controlo de invasoras lenhosas, proteção de linhas de água e solos vulneráveis e instalação de corredores ecológicos. O projeto prevê a aplicação de 18 itinerários silvícolas distintos, adaptados às condições ecológicas locais e aos diferentes objetivos de gestão, promovendo uma floresta multifuncional, mais resiliente e diversificada.

Um dos aspetos mais inovadores do FSA reside na adoção de uma abordagem de gestão adaptativa, operacionalizada através de um sistema de monitorização que integra a avaliação da execução física das intervenções, a avaliação anual de desempenho e a monitorização técnico-científica de longo prazo em parcelas permanentes. Esta infraestrutura permite avaliar a eficácia das intervenções, ajustar modelos de gestão e gerar conhecimento aplicado sobre restauração da paisagem. A integração do projeto na Agenda Mobilizadora transForm – Melhor Floresta reforçou esta dimensão, através da incorporação de tecnologias de deteção remota e inteligência artificial na monitorização dos povoamentos.

Os resultados alcançados evidenciam o potencial do FSA como um laboratório vivo de restauração da paisagem florestal em territórios vulneráveis. Para além da recuperação ecológica em larga escala, o projeto contribuiu para consolidar uma entidade de gestão florestal de base comunitária, reforçar a ligação entre ciência e prática e reposicionar a paisagem como ativo estratégico para a resiliência climática, a conservação da biodiversidade, a economia rural e o desenvolvimento territorial sustentável. O reconhecimento atribuído pelo Prémio Nacional da Paisagem 2025 valorizou precisamente a escala territorial da intervenção, a robustez técnica da solução proposta, a qualidade da articulação institucional e o envolvimento das comunidades.



Baldios em Transformação: Novos Desafios na sua Governança e Gestão

António Nora, Ana Sales

Sylvestris Atlantica, S.A., Portugal

A governança dos baldios em Portugal enfrenta o desafio urgente de transitar de um modelo tradicional focado na exploração lenhosa para uma economia de base ecológica e multifuncional. Historicamente, a cogestão com o ICNF centrou-se na fileira da madeira, com uma partilha de rendimentos (60/40) que excluía produtos não lenhosos e onde o carbono era um ativo inexistente, até ao final de 2025. Embora as recentes propostas públicas passem a incluir estes novos produtos, as limitações operacionais da administração pública comprometem a dinamização célere e integrada destes novos mercados.

Este trabalho analisa o impacto da introdução de investimento e gestão privada profissional como motor de transformação na governança dos baldios. Demonstra-se que as receitas geradas pelos créditos de carbono funcionam como o motor financeiro inicial do modelo, gerando a liquidez necessária para financiar diretamente obras estruturais de florestação e reflorestação. Esta abordagem permite às comunidades locais acederem a uma arborização e gestão profissional do seu território sem a necessidade de capitais próprios, promovendo ativamente a recuperação de áreas degradadas ou abandonadas. Adicionalmente, este ecossistema de investimento privado viabiliza uma governança aberta que atrai parceiros especializados para potenciar e explorar outras cadeias de valor tradicionalmente secundarizadas, como a resina, o mel, a caça e a biomassa, multiplicando as fontes de receita do baldio.

Para ilustrar a aplicabilidade prática deste modelo, apresenta-se o caso da Sylvestris Atlantica, cujos resultados preliminares evidenciam as vantagens competitivas da gestão privada face à tutela pública estritamente institucional, nomeadamente ao nível da agilidade processual, rapidez na tomada de decisão, eficácia na comunicação com as comunidades locais e otimização de recursos. Esta abordagem assume-se como uma resposta eficaz aos objetivos nacionais de neutralidade carbónica e resiliência territorial. Conclui-se que o investimento privado profissional liberta o potencial económico latente dos baldios, posicionando as empresas de gestão florestal como parceiros estratégicos indispensáveis para o desenvolvimento rural e resiliência territorial na era do carbono.



Os baldios como elementos centrais da gestão florestal sustentável: um modelo empresarial

Tiago Mucha

Antarr Sustainable Productive Forest, S.A, Portugal

A floresta portuguesa enfrenta, há várias décadas, desafios estruturais no domínio da sua gestão e valorização, os quais variam consoante o regime de propriedade, dimensão das explorações e dinâmicas socioeconómicas regionais. Neste cenário, os baldios ocupam uma posição estratégica fulcral. Pela sua escala e relevância comunitária, estes territórios detêm um potencial único para alavancar uma gestão integrada e resiliente.

Contudo, a aplicação de modelos de investimento privado a estes espaços tem sido historicamente incipiente, muito devido à incapacidade estrutural dos territórios comunitários em absorver e gerir o risco financeiro e operacional de longo prazo. O projeto Antarr surge como uma abordagem disruptiva neste panorama, ao introduzir um modelo empresarial concebido especificamente para operar à escala da paisagem — uma tipologia de intervenção privada até agora pouco aplicada ao contexto dos baldios em Portugal. Este modelo aporta uma gestão profissionalizada e multidisciplinar que ultrapassa o âmbito de atuação e as competências técnicas expectáveis de uma comissão de compartes tradicional. Ao introduzir quadros especializados nos campos florestal e da conservação da natureza, a Antarr otimiza o valor ecológico e económico do território de forma integrada.

Com uma visão estratégica de longo prazo, capacidade financeira e autonomia operacional, este modelo empresarial não visa substituir, mas sim complementar as estruturas tradicionais, transformando áreas degradadas ou incultas em ativos viáveis. Crucialmente, a Antarr assume a totalidade do risco financeiro e assegura a injeção contínua de capital nos momentos críticos do ciclo florestal — uma capacidade de investimento imediato que os baldios raramente conseguem garantir. Além disso, esta gestão profissional do risco traduz-se num benefício social direto para as populações locais: a implementação de planos de gestão florestal que reduzem drasticamente o perigo de incêndio, devolvendo segurança e proteção territorial face à ameaça estrutural dos incêndios rurais.

O modelo Antarr assenta em contratos de arrendamento de longa duração (80 anos), de unidades mínimas de 400 hectares, e aplica-se à propriedade comunitária e privada. A seleção de espécies inclui uma componente de produção forte, com apostas em várias espécies e produtos diferentes, como seja o pinheiro-bravo e o sobreiro, a madeira nobre, cortiça e castanha. A componente da promoção da biodiversidade é também forte, incluindo o combate às invasoras e restauro da Natureza. O modelo de silvicultura adaptativa responde aos desafios das alterações climáticas e à oportunidade de converter povoamentos de espécies pioneiras em povoamentos de folhosas ao longo dos 80 anos.

Atualmente a Antarr gere 10.500 hectares, já plantou mais de um milhão de árvores e tem os serviços de ecossistema validados. Em 2025 implementou o seu Plano de Gestão de Valores Naturais, e em 2026 o seu Plano de Envolvimento de Partes Interessadas. Em 2026 fez ainda um investimento de impacto social no estabelecimento de nove Unidades de Trabalhadores Florestais.

Durante a apresentação, serão partilhados dados de suporte e exemplos práticos de aplicação do modelo. Demonstrar-se-á como a convergência entre o setor empresarial e os territórios comunitários pode ter um papel importante no próximo capítulo da governança dos baldios, reforçando o seu papel enquanto pilares de resiliência climática e estabilização demográfica para o interior do país.



Os Baldios: Entre a Resistência Comunitária e as Pressões do Mercado e do Estado

Pedro Hespanha1, Eber Quiñonez2

1: Centro de Estudos Sociais da Universidade de Coimbra, Portugal; 2: Escola Superior Agrária do Instituto Politécnico de Coimbra

Há 50 anos, um decreto-lei do VI Governo Provisório devolvia os baldios aos "povos" e, ainda no mesmo ano, a Constituição Portuguesa reconhecia como propriedade pública “os bens comunitários com posse útil e gestão das comunidades locais”, ou seja, uma forma de apropriação que desafia a lógica do individualismo moderno.

Hoje, estas terras comunitárias enfrentam novos e poderosos desafios: desde a exploração industrial e energética até às políticas de conservação que ignoram a gestão local. A comunicação discute as dinâmicas dos terrenos comunais em Portugal, revelando como as comunidades resistem à mercadorização dos seus recursos. Através de uma análise da literatura e de estudos de caso realizados recentemente na Lousã e em Vila Pouca de Aguiar, questiona-se se os baldios ainda podem ser espaços de inovação democrática e de uma economia solidária capaz de oferecer alternativas sustentáveis ao capitalismo contemporâneo.

Sintetizando muito, as conclusões do estudo revelam que, ao ganharem novos usos para a terra comunitária, os compartes podem reorientá-los para a satisfação de necessidades imateriais da comunidade. Do mesmo modo, ao trazerem experiências recolhidas em outros contextos ou ao ganharem competências profissionais, os membros da comunidade podem usá-las no melhor aproveitamento dos baldios. Com isso, a propriedade comunitária também ganha novos significados que a tornam mais atrativa para todos.

 
12:00a13:30Simpósio 2b - Floresta Urbana: conhecimento multifacetado para promover a resiliência
Localização: Auditório Pequeno (H1.04)
Moderação/coordenação de sessão: Ana Luisa Soares
Moderação/coordenação de sessão: Leónia Nunes
Moderação/coordenação de sessão: Inês Marques Duarte
 
Apresentações

Arvoredo de Interesse Municipal em Portugal Continental: análise da regulamentação e da sua aplicação

Miguel Portugal1, Gabriela Dias2,3

1: Instituto da Conservação da Natureza e das Florestas, I.P.; 2: Instituto Politécnico de Viana do Castelo/Escola Superior Agrária (IPVC/ESA); 3: PROMETHEUS - Unidade de Investigação em Materiais, Energia e Ambiente para a Sustentabilidade/IPVC

O regulamento (UE) 2024/191 do Parlamento Europeu e do Conselho de 24 de junho de 2024, relativo ao restauro da natureza determina a proteção do arvoredo de elevado valor ecológico, histórico e paisagístico. Em Portugal, esta matéria encontra-se sustentada no regime jurídico de classificação de arvoredo de interesse público (Lei n.º 53/2012 de 5 de setembro), o qual permite aos municípios estabelecer regimes próprios de classificação de Arvoredo de Interesse Municipal (AIM). O Regime Jurídico de Gestão do Arvoredo Urbano (RJGAU) (Lei n.º 59/2021 de 18 de agosto) determina a obrigatoriedade da inventariação do arvoredo, incluindo o classificado.

Foi analisada a regulamentação municipal relativa à classificação do AIM em Portugal Continental, identificando padrões na estrutura normativa, incidência temporal, definição procedimental e extensão das medidas de proteção. Efetuou-se a análise dos dados com recurso à estatística descritiva e à aplicação de testes do qui-quadrado de independência (χ²), para avaliar associações entre variáveis categorizadas (2010-2021; após 2021). Procedeu-se ainda ao levantamento nacional do AIM atualmente classificado, através de questionário junto dos 278 municípios de Portugal Continental.

À data do estudo (abril de 2026), encontravam-se publicados 62 regulamentos no DR, correspondendo a 22% dos municípios em causa. Os resultados evidenciam aumento gradual da produção normativa, nos anos mais recentes (após 2023), atingindo um número máximo anual em 2025 (n=22). Verifica-se que 74% dos municípios integram o regime de classificação do AIM nos Regulamentos Municipais de Gestão do Arvoredo Urbano (RMGAU), sugerindo a preferência por modelos regulamentares articulados com outras medidas de proteção do arvoredo urbano em geral. 92% dos regimes definem as categorias de “exemplar isolado” e “conjuntos arbóreos”, evidenciando relativa uniformização conceptual. Em cerca de 1/4 dos regimes, os critérios e parâmetros de classificação são pouco claros, inconsistentes, ou não estabelecidos. Observou-se que 86% dos regimes definem procedimentos de tramitação da classificação. 76% dos regulamentos preveem medidas específicas de proteção para o AIM em vias de classificação. No caso do arvoredo já classificado, as medidas de proteção são maioritariamente remetidas para a Declaração de Interesse Municipal que vier a consumar a classificação. 71% determina que o alcance regulatório inclui também arvoredo em terrenos privados. Verifica-se que a monitorização do AIM não é prevista em 29% dos regulamentos e em 36% não foi indicada qualquer periodicidade. Quanto ao regime sancionatório, 77% dos regulamentos não estabelecem agravantes específicas para as contraordenações associadas ao AIM. A análise permitiu identificar associações estatisticamente significativas em algumas das variáveis estudadas, sugerindo que a publicação dos RMGAU poderá ter contribuído para uma maior densificação normativa dos regimes de classificação municipais. No que se refere ao levantamento do AIM atualmente classificado, foram obtidas, até à data, 108 respostas (39% do total), concluindo-se que apenas três municípios classificaram AIM (Lousada, Sabugal e Sintra).

Este estudo evidencia reduzida implementação territorial dos regimes de classificação de AIM em Portugal Continental. Propõem-se diretrizes para orientar a elaboração do regime municipal de classificação ou revisões, visando reforçar a eficácia na inventariação, classificação e proteção do AIM.



Do decreto ao jardim: análise comparativa dos Regulamentos Municipais sobre floresta urbana em Portugal

Joana Castro, Luís Martins

UTAD/UFRRJ - Pós-graduação Internacional em Floresta Urbana II, Portugal

A floresta urbana, entendida como o conjunto de árvores, bosques e corredores arborizados em meio urbano, assume um papel central na mitigação das alterações climáticas, na promoção da saúde pública e na melhoria da qualidade ambiental das cidades. Em Portugal, a gestão deste recurso tem vindo a ganhar relevância; contudo, persistem disparidades entre os regulamentos municipais, tanto ao nível das exigências técnicas como da articulação com instrumentos de gestão territorial, designadamente os Planos Diretores Municipais e os Planos de Ação Climática.

Neste contexto, o presente trabalho propõe uma análise crítica e comparativa dos regulamentos municipais portugueses relacionados com a floresta urbana, com o objetivo de identificar heterogeneidades na regulação da plantação, manutenção, proteção e gestão do arvoredo, bem como avaliar a coerência destes regulamentos com a legislação nacional e refletir sobre o papel do planeamento técnico na arborização urbana.

O estudo adota uma abordagem documental e comparativa, baseada na análise de aproximadamente 250 municípios portugueses, incidindo sobre as diferentes fases da regulamentação sobre arvoredo urbano e o seu nível de detalhe técnico, identificando também a ausência de qualquer instrumento regulamentar. Para garantir uma avaliação sistemática, foi desenvolvido um modelo de análise estruturado em três categorias principais: existência e tipologia de regulamento, grau de detalhe técnico e integração com instrumentos de gestão territorial.

A metodologia combinou análise documental, através da leitura e sistematização de regulamentos e legislação, com abordagens quantitativas e qualitativas, incluindo a classificação dos municípios por categoria e a avaliação do nível de detalhe dos regulamentos.

A análise revelou que apenas cerca de 32% (80 municípios) dispõem de regulamentos específicos de gestão do arvoredo urbano, enquanto os restantes recorrem a instrumentos mais abrangentes como Regulamentos de Urbanização e Edificação ou Regulamentos de Espaços Verdes. Entre os casos mais completos, destacam-se Porto (com inventário arbóreo online), Sintra (pioneiro e detalhado), Guimarães e Vila Nova de Gaia., que integram normas técnicas sobre seleção de espécies, plantação, manutenção e proteção de árvores.

A distribuição geográfica evidencia uma maior concentração de regulamentos completos no litoral norte e centro e na Área Metropolitana de Lisboa, enquanto regiões do interior, como o Alentejo e Trás-os-Montes, apresentam menor maturidade normativa, refletindo uma correlação entre urbanização, recursos técnicos e desenvolvimento de políticas de arvoredo urbano.

Este estudo oferece uma visão abrangente e crítica do estado atual da regulação da floresta urbana em Portugal, evidenciando progressos associados à publicação da Lei n.º 59/2021 e ao aumento do número de regulamentos municipais, mas também desafios persistentes, como a heterogeneidade normativa e a reduzida integração territorial. Os resultados poderão contribuir para a discussão sobre a harmonização de normas sem comprometer a flexibilidade local, a integração da floresta urbana nas políticas de adaptação climática e resiliência urbana e o envolvimento da população na gestão do arvoredo.



MELT: Método Expedito de Valoração Patrimonial de Árvores

António Leal Tavares1, Simone Varandas2, Luís Miguel Martins3

1: Câmara Municipal de Paços de Ferreira; 2: UTAD, CIBIO, BIOPOLIS; 3: UTAD, CITAB

O arvoredo urbano — enquanto componente estruturante da Floresta Urbana — desempenha um papel fundamental nos ecossistemas urbanos e periurbanos, contribuindo para funções ecológicas, socioculturais, identitárias e de valorização da memória dos lugares.

Apesar da multiplicidade de funções e benefícios associados às árvores urbanas, a tomada de decisão relativa à sua preservação, substituição ou abate continua frequentemente condicionada por critérios funcionais, económicos ou de conveniência administrativa. A dificuldade em traduzir o valor arbóreo em termos monetários comparáveis com outras infraestruturas urbanas contribui para a desvalorização sistemática deste património nos processos de planeamento e gestão territorial.

Neste contexto, os métodos de avaliação monetária de árvores ornamentais assumem particular relevância, permitindo quantificar economicamente o valor de exemplares arbóreos e reforçar a sua integração nos processos de decisão, proteção e gestão. Contudo, muitos dos métodos existentes apresentam elevado grau de complexidade técnica, exigem dados detalhados e implicam tempos de aplicação significativos, limitando a sua utilização operacional no quotidiano da gestão urbana.

O Método Expedito de Avaliação Patrimonial de Árvores (MELT) foi desenvolvido com o objetivo de disponibilizar uma ferramenta prática, rápida e tecnicamente fundamentada, acessível a técnicos, gestores públicos e decisores políticos. O método baseia-se na ponderação multiplicativa de sete fatores graduados numa escala de 1 a 7, definidos de acordo com critérios tabelados: dimensão (F1), proximidade de outras árvores (F2), localização (F3), impacto paisagístico (F4), estado fitossanitário e vigor (F5), valor particular (F6) e valor específico (F7). Aos fatores é adicionada uma constante (C), correspondente ao custo estimado de implantação de um exemplar arbóreo, fixada em 200 €.

O método foi aplicado experimentalmente em diferentes contextos urbanos, tendo os resultados preliminares demonstrado elevada operacionalidade e facilidade de aplicação em contexto de campo. A comparação com métodos tradicionais evidenciou uma redução significativa do tempo de avaliação, mantendo simultaneamente uma abordagem integrada do valor arbóreo.

O método permite ainda estimar o valor económico de danos ou agressões sofridas pelas árvores, recorrendo a rácios de ponderação (P) definidos em função da gravidade do dano.

O valor patrimonial é calculado através da seguinte expressão:

Valor MELT (€) = (F1 × F2 × F3 × F4 × F5 × F6 × F7) + C

O valor do dano é determinado pela expressão:

Valor do Dano (€) = Valor MELT × P

O MELT apresenta-se como uma ferramenta particularmente adequada aos contextos de gestão urbana municipal em Portugal, onde a escassez de recursos técnicos e a necessidade de decisões céleres exigem métodos operacionais, transparentes e tecnicamente defensáveis.



É possível aumentar a cobertura arbórea nas áreas históricas da cidade de Lisboa?

Eugenio Ferretti1, Susana Dias2, Francisco Rego2, Leonia Nunes2

1: Department of Architecture (DiDA) - University of Florence, Italy; 2: Centre for Applied Ecology “Professor Baeta Neves” (CEABN), InBIO, School of Agriculture, University of Lisbon, Tapada da Ajuda, Lisbon, Portugal

O objetivo de 30% de cobertura arbórea urbana, promovido pelo princípio 3+30+300 e referenciado pelo Regulamento de Restauração da Natureza da UE (UE 2024/1991, artigo nº8), tem sido progressivamente adotado como referência universal de planeamento. Este limiar não é arbitrário: assenta em evidências empíricas que associam níveis de cobertura arbórea iguais ou superiores a 30% a reduções mensuráveis do calor urbano, da poluição atmosférica e da mortalidade relacionada com o calor. Contudo, a aplicação direta desta meta em tecidos urbanos históricos e densos poderá ser fisicamente inalcançável devido à morfologia das cidades e carece de avaliação empírica rigorosa. Para superar esta limitação, este estudo propõe um protocolo metodológico replicável para estimar a Capacidade Máxima de Cobertura Arbórea (MCC - Maximum Canopy Capacity) e derivar Metas Estratégicas de Arborização (SGT - Strategic Greening Targets) contextualizadas para seis freguesias de Lisboa com morfologias urbanas contrastantes.

A cobertura arbórea existente foi estimada com recurso à ferramenta i-Tree Canopy e aplicada através da validação cruzada com ortofotografias de alta resolução e buffers de infraestrutura de 2,5 m em ambiente SIG, distinguindo o Potencial de Cobertura Fácil (EPC) do Potencial de Cobertura Difícil (DPC), que exige intervenções estruturais como a desimpermeabilização.

Os resultados demonstram que a meta de 30% é estruturalmente inalcançável nas freguesias do centro histórico de Lisboa. Na freguesia da Misericórdia a MCC obtida é de 27%, ficando abaixo do limiar, mesmo sob saturação teórica total. Nas freguesias de Santa Maria Maior, São Vicente e Arroios atingir a meta exigiria o esgotamento total do espaço aberto disponível, o que é desaconselhável urbanística e ecologicamente. Nestas freguesias, mais de 90% do potencial residual é classificado como DPC, confirmando que o aumento da cobertura arbórea nestas áreas depende obrigatoriamente de estratégias de despavimentação, uma pré-condição estrutural e não uma opção complementar.

Para superar estes resultados, as SGT foram calculadas como a média aritmética entre a cobertura existente e a MCC, gerando metas diferenciadas e operacionalmente credíveis que variam entre 17% na freguesia da Misericórdia e 44% na freguesia do Parque das Nações. Estas metas implicam aumentos proporcionais substanciais na cobertura arbórea absoluta, demonstrando que o progresso ecológico é alcançável mesmo onde os objetivos absolutos não o são.

Este estudo propõe uma mudança de paradigma, da aplicação universal de metas de arborização, embora cientificamente desejáveis e baseadas em evidências, para um planeamento adaptativo e sensível à morfologia urbana local. Esta abordagem complementa a ambição do princípio 3+30+300, assegurando que as cidades cumpram com o Regulamento de Restauração da Natureza através de aumentos mensuráveis, realistas e tecnicamente sustentáveis da floresta urbana, mantendo a identidade e as limitações físicas dos centros históricos.

*Esta contribuição insere-se na tese de doutoramento "Piani del verde e green infrastructures" do Programa Urban Future Studies (University of Florence), orientada pela Prof.ª A. Lambertini (DIDA), co-orientada pela Dr.ª C. Borghi e pelo Dr. L. Nofroni (DIDA), coordenada pelos Prof. G. Chirici (DAGRI) e G. De Luca (DIDA), com direção científica do Prof. S. Mancuso (DAGRI).



O cadastro do arvoredo urbano como instrumento de suporte ao planeamento de cidades resilientes

jose Vilhena, Luis Santos Costa, Andreia Almeida

Municipio de Coimbra, Portugal

Num momento em que as cidades enfrentam pressões crescentes e os efeitos das alterações climáticas se tornam cada vez mais evidentes, o arvoredo urbano ganha uma nova centralidade. Mais do que um elemento paisagístico, passa a ser reconhecido pelo conjunto de serviços de ecossistema que presta, e, sobretudo, pela necessidade de os conhecer, medir e valorizar de forma consistente.

É neste enquadramento que surge o trabalho desenvolvido pelo Município de Coimbra, que representa uma transição clara de uma lógica tradicional de gestão para uma abordagem suportada em informação sistematizada e em evidência técnica. A implementação de um cadastro do arvoredo urbano, abrangendo cerca de 26.000 árvores em espaço público, constituiu um ponto de viragem decisivo. Este instrumento permitiu reunir informação estruturada sobre os exemplares – desde a sua localização e características dendrométricas até ao estado fitossanitário – criando uma base sólida para análises mais exigentes.

A partir desta base, foi estabelecida uma colaboração com o Instituto Superior de Agronomia, através do Centro de Ecologia Aplicada “Prof. Baeta Neves”, com o objetivo de aprofundar o conhecimento sobre o arvoredo urbano e os serviços que este assegura. O trabalho envolveu levantamento de campo, organização de informação georreferenciada e aplicação de métricas ecológicas que permitiram caracterizar não apenas a composição florística, mas também a estrutura e funcionamento do sistema arbóreo.

A utilização de metodologias de referência internacional possibilitou avançar na quantificação de serviços de ecossistema essenciais, como a regulação térmica, a mitigação dos efeitos de ilha de calor, o sequestro de carbono, a melhoria da qualidade do ar, a regulação do ciclo da água e o suporte à biodiversidade. Em paralelo, a análise qualitativa evidenciou aspetos menos imediatos, mas igualmente determinantes: a diversidade de espécies, a distribuição espacial e a estrutura etária do arvoredo.

Os resultados mostram com alguma clareza que não é apenas a presença de árvores que importa. A forma como estão distribuídas, a diversidade que apresentam e o seu estádio de desenvolvimento influenciam diretamente a capacidade de resposta do sistema urbano a perturbações. Áreas mais diversas revelam-se, de forma consistente, mais estáveis e menos vulneráveis, enquanto situações de maior homogeneidade introduzem fragilidades que importa reconhecer.

Para além da sua utilidade no planeamento, esta abordagem tem ainda uma dimensão que importa sublinhar: a sua capacidade de apoiar o diálogo com a comunidade. A disponibilização de informação objetiva e quantificada sobre os benefícios do arvoredo contribui para uma maior transparência na ação pública e cria condições para uma participação mais informada dos cidadãos. Num contexto em que se procura envolver a sociedade nas decisões sobre o território, esta dimensão revela-se particularmente relevante.

Em síntese, a experiência de Coimbra mostra que a quantificação e qualificação dos serviços de ecossistema não são apenas exercícios técnicos. São ferramentas operacionais que permitem melhorar a decisão, orientar a ação e, ao mesmo tempo, aproximar a gestão urbana de uma lógica mais partilhada, consciente e resiliente.



Modelo de Gestão do Arvoredo Urbano – Caso de estudo do Município de São João da Madeira

Davide Gaião1, Marta Seabra2, Vera Neves2

1: Bioambiente Cartografia e Floresta LDA, Portugal; 2: Unidade de Ambiente - Município de São João da Madeira

O município de São João da Madeira é detentor de um vasto património arbóreo, com 11529 árvores vivas georreferenciadas que pertencem a 227 espécies, o que corresponde a 1 árvore para cada 2 pessoas (22143 habitantes). As árvores estão distribuídas maioritariamente por espaços verdes (parques e jardins) ≈ 50%, em caldeiras ≈ 21%, e canteiros ≈ 20%, estando as restantes instaladas em escolas, rotundas e separadores centrais.

Devido ao elevado número de árvores e recorrente necessidade de intervenções, o município adotou uma estratégia de gestão do arvoredo que passou pela inventariação das 11529 árvores, criação de uma base de dados atualizada semanalmente em ambiente SIG e WebSIG, avaliações biomecânicas e fitossanitárias mensais individuais, com equipamentos específicos, às árvores com risco elevado e muito elevado e realização de tratamentos (endoterapia), podas e abates urgentes sempre que se justifique. Estas intervenções, levaram à redução significativa das quedas de árvores ou fraturas de ramos/pernadas e consequentemente a redução do risco para pessoas e bens nos últimos 2 anos.

O município tem também como eixos centrais no seu trabalho diário a atuação preventiva, a promoção da biodiversidade, a integração dos munícipes na gestão do arvoredo, assim como a restauração e reestruturação de zonas danificados pelos sistemas radiculares. O município planeia também as novas plantações em função das necessidades e dos abates realizados, tendo sempre em consideração a análise dos locais de plantação e as características das espécies. Estas ações pretendem evitar a futura destruição das caldeiras e passeios de forma a reduzir as necessidades de intervenções futuras como podas e tratamentos.

De uma forma geral, através desta estratégia, o município de São João da Madeira pretende manter o coberto arbóreo urbano mais saudável, resiliente e biodiverso, promover o incremento dos serviços de ecossistema providos pelas árvores, reduzir o risco de acidentes que possam afetar pessoas e bens e aumentar a harmonia entre os cidadãos e o arvoredo urbano.

 
12:00a13:30Simpósio 6 - Oportunidades e desafios da expansão florestal e renaturalização da paisagem pós-abandono agrícola
Localização: Sala A1.13
Moderação/coordenação de sessão: Lien Imbrechts
Moderação/coordenação de sessão: João C. Azevedo
 
Apresentações

Capacidade de transição florestal de terras abandonadas no interior mediterrânico de Portugal após 30 a 50+ anos de restauro passivo

Lien Imbrechts1,2, João C. Azevedo1, Kseniia Zakharova3, Kari Lehtilä3, Peter H. Verburg2

1: CIMO, LA SusTEC, Universidade Politécnica de Bragança, Portugal; 2: IVM, VU Amsterdam, the Netherlands; 3: Södertörn University

Em sistemas socioecológicos, como as paisagens de muitas regiões interiores e montanhosas da Península Ibérica, verificaram-se alterações significativas ao longo das últimas décadas devido ao abandono agrícola. Embora o abandono possa aliviar as pressões sobre os recursos naturais, introduz incerteza quanto às trajetórias futuras destes sistemas moldados pela atividade humana durante milénios. Políticas europeias em curso, como a Lei Europeia do Restauro da Natureza (Regulamento 2024/1991), apontam as zonas rurais em avançado despovoamento como locais disponíveis para o restauro ecológico passivo. A regeneração natural tem o potencial para ser uma forma económica de conservar a biodiversidade e aumentar a oferta de serviços de ecossistema (por exemplo a regulação da atmosfera através do sequestro de carbono, ou a regulação de riscos hidrológicos). No entanto, as evidências empíricas que suportam o restauro passivo como uma via de transição florestal viável em paisagens mediterrânicas permanecem limitadas. As condições climáticas extremas sentidas atualmente e esperadas para o futuro, que incluem períodos prolongados com temperaturas altas e precipitação nula, aumentam a probabilidade de ocorrência de incêndios florestais de elevada magnitude e severidade. O restauro passivo enfrenta, na região Mediterrânica, desafios adicionais como o esgotamento do banco de sementes, as invasões biológicas ou a degradação do solo. Neste trabalho, com o intuito de aprofundar o conhecimento sobre a dinâmica do uso e ocupação do solo num contexto de abandono agrícola, avaliámos a expansão das áreas de floresta espontânea e a condição dos ecossistemas em áreas abandonadas na região de Terras de Trás-os-Montes, no nordeste de Portugal. Partindo de dados de uso e ocupação do solo de 1975/78 a 2025, verificamos que 61.2% das áreas que já eram matos em 1975/78, ou que se transformaram em matos entre 1975/78 e 1995, continuavam classificadas como matos em 2023. Além disso, 14% destas áreas chegaram a ser classificadas recentemente como floresta de azinheiras, carvalhos ou outras folhosas, ou seja, ocorreu transição florestal. O estudo foi conduzido num conjunto de áreas selecionadas de acordo com um sistema de amostragem tomando em conta (1) o tipo de vegetação em 2023 segundo a Carta de Uso e Ocupação do Solo (COS), diferenciando entre Matos, Florestas de azinheira ou outros carvalhos e Florestas de outras folhosas, (2) o clima regional, classificado em três categorias, e (3) a cobertura de Matos em 1975-78 ou ocorrência de abandono entre 1975/78 e 1995. Nas áreas selecionadas estabelecemos parcelas de amostragem circulares de 707m2 onde avaliámos a composição florística e a estrutura dos ecossistemas espontâneos emergentes. Complementamos essa informação com dados LiDAR obtidos em 2024 disponibilizados pela Direção-Geral do Território. Os resultados preliminares deste estudo, ainda em curso, serão analisados e testados no quadro do conceito de restauro passivo como via de transição florestal usando as métricas definidas na Lei do Restauro da Natureza. Serão ainda discutidas abordagens de gestão diferenciadas dos ecossistemas em áreas abandonadas no sentido de contribuir para a transformação da paisagem que corresponda às expetativas e necessidades da região, do país e da Europa.



Efeito do pastoreio asinino na vegetação herbácea e lenhosa na Reserva da Biosfera Transfronteiriça da Meseta Ibérica

Maiara Masiero Fianco1,2, Camila Lourenço Lima1, João Paulo Castro1, María Villa1, Marina Castro1

1: CIMO, LA SusTEC, Instituto Politécnico de Bragança, Campus de Santa Apolónia, 5300-253 Bragança, Portugal.; 2: Universidade Tecnológica Federal do Paraná, campus Dois Vizinhos, 85.660-000, Paraná, Brasil.

As profundas transformações socioeconómicas corridas nas últimas décadas, associadas ao êxodo rural e ao abandono de práticas tradicionais de gestão do território, conduziram à acumulação de biomassa e à continuidade espacial dos combustíveis vegetais. Este processo, agravado pelas alterações climáticas, particularmente pelo aumento da frequência de períodos de seca e de temperaturas extremas, tem contribuído para o aumento da recorrência, intensidade e severidade dos incêndios rurais.

Neste contexto, a silvopastorícia assume-se como uma ferramenta relevante para a gestão da vegetação, contribuindo para a criação e manutenção de faixas de gestão de combustível (fuelbreaks). Os asininos, pela sua rusticidade e pelo seu comportamento alimentar generalista, apresentam elevado potencial para esta função, uma vez que conseguem ajustar os seus padrões de consumo às condições ambientais, à disponibilidade de recursos forrageiros e à estrutura da paisagem onde se inserem.

Este estudo tem como objetivo avaliar o efeito do pastoreio de asininos das raças autóctones Mirandesa e Zamorano-Leonês na estrutura e composição da vegetação em quatro áreas da Reserva da Biosfera da Meseta Ibérica. A monitorização incidiu sobre lameiros e áreas mistas de floresta e mato, antes e após o ciclo de pastoreio. Em ambos os habitats, foi avaliada biomassa herbácea, percentagem de cobertura vegetal, solo nu, e manta morta, biovolume e composição florística dos arbustos. A biomassa herbácea foi quantificada através do corte e pesagem da vegetação em unidades de 50 × 50 cm e os restantes parâmetros avaliados pelo método da linha de interceção, ao longo de transectos de 20 m. Em ambos os parâmetros, foram usadas três repetições por habitat e área de estudo.

Os resultados sugerem que o pastoreio exerceu uma influência significativa na estrutura da vegetação dos habitats avaliados. A redução da biomassa após o ciclo de pastoreio indica uma utilização efetiva da paisagem pelos asininos, com maior intensidade nos lameiros, onde a disponibilidade e produção de biomassa herbácea foram substancialmente superiores.

Relativamente ao biovolume, observou-se uma resposta diferenciada entre habitats. Nos habitats lenhosos, registou-se uma tendência para a redução do biovolume, provavelmente associada ao efeito combinado do consumo de espécies lenhosas e do impacto mecânico dos animais. Em contraste, nos lameiros, a estrutura tridimensional da vegetação arbustiva não apresentou alterações estatisticamente significativas.

Apesar das alterações observadas no volume da vegetação arbustiva nos habitats lenhosos, a composição florística manteve-se estável, indicando que o pastoreio em cargas moderadas apenas afetou a estrutura física do estrato arbustivo.

A análise da composição arbustiva evidenciou diferenças entre habitats. Nas áreas de vegetação lenhosa, a comunidade foi dominada por uma associação de Cistus spp., Cytisus spp., Erica spp. e Rosaceae como Rubus ulmifolius, registando-se ainda a ocorrência de regeneração natural de azinheira (Quercus rotundifolia). Nos lameiros, verificou-se uma maior expressão de espécies do género Cytisus — giesta —, sugerindo a sua associação a condições edáficas mais favoráveis. Estes dados corroboram a eficácia da utilização de equídeos na gestão de combustíveis finos e na criação de descontinuidades na vegetação, contribuindo para a resiliência ecológica em áreas de interface urbano-florestal.



A renaturalização contribui para a conservação da biodiversidade em ecossistemas socio-culturais Mediterrânicos?

Miguel N. Bugalho1, Javier Perez-Barberia2, José Miguel Pereira3, Iain J Gordon4

1: Centro de Ecologia Aplicada "Prof. Baeta Neves" (CEABN-InBIO), Instituto Superior de Agronomia, Universidade de Lisboa, Portugal; 2: Biodiversity Research Institute, University of Oviedo, Spain; 3: Centro de Estudos Florestais (CEF), Laboratório Associado TERRA, Instituto Superior de Agronomia, Universidade de Lisboa; 4: Fenner School of Environment and Society, Australian National University, Canberra, ACT, Australia, James Hutton Institute, Aberdeen, UK

A “re-naturalização” e o “rewilding”, abordagens à conservação baseadas na não-gestão dos ecossistemas, têm sido sugeridas como potenciadoras da conservação da biodiversidade e dos serviços do ecossistema. A não gestão e a não intervenção estrita no ecossistema pode no entanto ser conceptualmente inconsistente quando aplicada a paisagens moldadas pela acção humana, nomeadamente em sistemas socio-culturais como os que ocorrem na região Mediterrânica. Existem diversos ecossistemas de elevado valor para a conservação da biodiversidade, frequentemente classificados como “pristinos”, que foram moldados ao longo de milénios de utilização humana, um contexto que raramente é reconhecido por abordagens baseadas na “re-naturalização” e no “re-wilding”. O abandono rural na Europa, e em particular nas regiões Mediterrânicas, tem sido apresentado como uma oportunidade para promover a conservação da biodiversidade através da “re-naturalização” e do “re-wilding”, mas a ausência de gestão pode favorecer espécies florestais em detrimento de espécies dependentes de tipos de habitat mais abertos e com áreas de pastagem. Nas regiões mediterrânicas, onde alguns ecossistemas culturais possuem elevado valor de conservação, a ausência de gestão pode reduzir a biodiversidade e também aumentar a perigosidade dos incêndios rurais, especialmente em contexto de alterações climáticas. Com base em três estudos de caso da Península Ibérica, argumentamos que as abordagens baseadas na “re-naturalização” e no “re-wilding”, sobretudo se aplicadas nas formas mais estritas de não intervenção, podem ter consequências negativas para a conservação da biodiversidade. Neste trabalho salientamos a necessidade de estratégias contextualizadas, baseadas em abordagens de uso múltiplo da terra, e nas quais a gestão activa é quase sempre essencial à conservação da biodiversidade.

Agradecimentos:

Este trabalho foi financiado pelas unidades de investigação CEABN-InBIO e CEF, com apoio do da Fundação para a Ciência e Tecnologia (FCT) através dos projectos com as referências UIDB/50027/2025 (CEABN-InBIO) e. UID/00239/2025 (CEF). Recebeu ainda financiamento da FCT e da União Europeia através do projecto BIOJUST/BIODIVERSA. Em Espanha o trabalho foi apoiado pela Agencia Estatal de Investigación (AEI; https://doi.org/10.13039/501100011033; bolsa PID2023-146074OB-I00), pelo Programa Complementario de Biodiversidad das Asturias BIO06 (Next Generation EU/PRTR) e pelo Governo do Principado das Asturias – SEKUENS (IDe/2024/000780), tendo ainda recebido apoio do programa Next Generation EU/PRTR (bolsa TED2021-131388B-I00) da União Europeia.



Grandes herbívoros: ferramentas de gestão na renaturalização de paisagens e mitigação do risco de incêndio rural no Parque Natural de Sintra-Cascais

Bárbara Madeira, Marlene Marques, Filipa Machado, Bruno Ribeiro Pinto, José Romana, João Cardoso de Melo

Cascais Ambiente, Portugal

Com o abandono agrícola, a ausência de gestão traduz-se na acumulação de biomassa lenhosa altamente inflamável, potenciando o risco de incêndio rural e consequentes implicações para a biodiversidade. Em contraste com os mosaicos heterogéneos da paisagem agrícola tradicional, com elevado valor ecológico e funcional, os territórios pós-abandono tendem a registar uma homogeneização da estrutura da vegetação. Face a este desafio, a introdução de grandes herbívoros surge como uma solução baseada na natureza capaz de modular a estrutura da vegetação através do seu consumo, dispersão de sementes, incorporação de matéria orgânica e abertura de trilhos que aumentam a conectividade e heterogeneidade do habitat. O objetivo deste estudo visa a avaliar a influência de um conjunto de grandes herbívoros nos padrões de uso do habitat e a pressão trófica sobre o estrato arbustivo, identificando o seu potencial na mitigação do risco de incêndio rural e no restauro funcional do território pós-abandono agrícola.

Entre janeiro e setembro de 2025, monitorizou-se um conjunto multi-específico de grandes herbívoros (burros de Miranda, cavalos Sorraia e Garrano, vacas Maronesas, veado-vermelho (Cervus elaphus) e corço (Capreolus capreuolus)) em três cercados geridos no Parque Natural de Sintra-Cascais: Quinta do Pisão (120 ha), Pisão de Baixo (100 ha) e Peninha (60 ha). A abordagem metodológica integrou observação comportamental direta com etograma (amostragem ad libitum e por scan sampling) repartida em sete períodos diários, fotoarmadilhagem para cervídeos e telemetria GPS (intervalos de 30 min) em equídeos e bovinos. Os dados espaciais foram processados em ambiente QGIS para determinar padrões de distribuição e variação sazonal, quantificando-se o comportamento alimentar através de eventos de pastoreio/desbaste e identificação de espécies consumidas.

Registaram-se 123 horas de observação direta (1100 registos comportamentais) e 165 259 localizações GPS, evidenciando padrões de uso diferenciados entre espécies. Os asininos ocuparam o território de forma homogénea, evitando áreas declivosas, enquanto os cavalos Sorraia evidenciaram agregação espacial associada a recursos e reprodução, sobretudo no norte da Quinta do Pisão na primavera e inverno. Os cavalos Garrano demostraram uma elevada versatilidade e capacidade de exploração em áreas de topografia complexa. A fotoarmadilhagem validou o hábito crepuscular e noturno dos cervídeos (23 109 ocorrências de corço e 5060 de veado-vermelho). A dieta confirmou uma pressão sobre espécies lenhosas e arbustivas, críticas para a progressão do fogo (Olea europaea var. sylvestris, Quercus spp., Ulex spp., Rubus spp., Rhamnus alaternus e Cistus ladanifer), resultando na quebra efetiva da continuidade vertical e horizontal do combustível, promovendo a criação de mosaicos estruturais.

A reintrodução de grandes herbívoros constitui uma estratégia biológica robusta e de baixo custo para a gestão da vegetação em espaços protegidos periurbanos. A complementaridade funcional das espécies contribui para a redução da biomassa inflamável e aumento da heterogeneidade estrutural, promovendo mosaicos paisagísticos resilientes ao fogo e biodiversos, mais equilibrados e funcionalmente próximos dos sistemas agro-silvo-pastoris tradicionais. No entanto, a eficácia desta abordagem depende da adequação das espécies e efetivos às condições ambientais e características da paisagem, sendo essencial a monitorização contínua e a adaptação da gestão.



Da expansão do eucalipto aos novos ecossistemas florestais: abandono, fogo e desafios de gestão em Portugal

Joaquim Sande Silva1,2, Ernesto Deus1, Mauro Nereu3

1: Instituto Politécnico de Coimbra, Escola Superior Agrária de Coimbra, Bencanta, 3045-601 Coimbra, Portugal; 2: CERNAS – Centro de Investigação de Recursos Naturais, Ambiente e Sociedade; 3: Centro de Ecologia Funcional, Universidade de Coimbra, 3000-456 Coimbra, Portugal

A expansão de espécies arbóreas não nativas tem transformado as paisagens florestais europeias desde o século XIX. Em Portugal, este processo assumiu particular relevância com a Eucalyptus globulus, espécie cultivada para a fileira da pasta e do papel que se tornou dominante em vastas áreas do Centro e Norte do país. A expansão desta espécie foi rápida e profunda, passando de cerca de 60 mil hectares em 1961 para 965 mil hectares segundo a cartografia de 2023, maioritariamente em territórios com histórico de incêndios, forte fragmentação fundiária, predomínio de propriedade privada e despovoamento rural. Atualmente, verifica-se que muitos eucaliptais não são geridos, em parte devido ao abandono rural e à recorrência de incêndios.

O abandono dos eucaliptais, associado à ocorrência de incêndios, tem promovido a formação de novos ecossistemas florestais dominados por eucalipto em Portugal. O conceito de novo ecossistema (novel ecosystem), abrange sistemas ecológicos cuja estrutura, composição e funcionamento deixam de depender da gestão humana e passam a ser conduzidos por dinâmicas naturais. Estes ecossistemas podem resultar do abandono de antigas plantações ou da expansão espontânea para áreas envolventes através de processos de naturalização e invasão. Em muitos casos, torna-se difícil determinar a origem destas manchas devido ao historial complexo de fogo, regeneração e corte, e à mistura com vegetação nativa.

A ocorrência de incêndios favorece a regeneração do eucalipto, devido à sua elevada sobrevivência pós-incêndio, à libertação massiva de sementes no pós-fogo, originando por vezes denso recrutamento. A interação entre fogo, abandono dos terrenos e regeneração natural pode criar ciclos de retroalimentação: o incêndio promove o abandono, o abandono favorece a acumulação de combustível e a regeneração de eucalipto, aumentando a perigosidade de incêndio. A transição de plantações para novos ecossistemas dominados por eucalipto tem, por isso, consequências relevantes para a biodiversidade, os serviços dos ecossistemas e a gestão da paisagem e dos combustíveis. Apesar de poderem existir espécies nativas, estes sistemas tendem a ter baixo valor económico, elevada inflamabilidade, simplificação ecológica e reduzida capacidade de recuperação espontânea da vegetação autóctone.

A presente comunicação tem como objetivo fazer uma revisão do conhecimento atual sobre estes novos ecossistemas florestais dominados por eucalipto, com particular ênfase nas florestas portuguesas - um exemplo crítico destas dinâmicas naturais, o que explica o crescimento da investigação científica nesta problemática. É discutido o processo de naturalização da espécie e de formação destes ecossistemas, tendo por base um modelo conceptual que integra os principais factores e processos associados, como o fogo, o abandono das plantações e a expansão natural da espécie. É discutida a importância de separar claramente as plantações industriais geridas, que têm um importante papel económico, relativamente aos ecossistemas resultantes do abandono, que exigem medidas específicas para a sua gestão. Por fim, são discutidas possíveis medidas para mitigar estas dinâmicas naturais e a degradação da paisagem, com destaque para o restauro das florestas nativas. A promoção da floresta nativa poderá assumir um papel de relevo, pelo seu efeito positivo na resistência à invasão, no melhoramento da regulação hidrológica e na conservação da biodiversidade, entre muitos outros benefícios.



Effects of artificial canopy gaps on holm oak regeneration in dryland afforestations

João Rosa1,3,4,5,6, Ricardo S. Ceia1,2,4,6, Mario B. Pesendorfer5,7, Marisa Rodrigues1,4,6, Francisco Moreira1,2,4,6

1: CIBIO, Research Center in Biodiversity and Genetic Resources, InBIO Associated Laboratory, Campus de Vairão, Universidade do Porto, 4485-661 Vairão, Portugal; 2: CIBIO, Research Center in Biodiversity and Genetic Resources, InBIO Associated Laboratory, Instituto Superior de Agronomia, Universidade de Lisboa, Lisboa, Portugal; 3: Departamento de Biologia, Faculdade de Ciências, Universidade do Porto, 4099-002 Porto, Portugal; 4: BIOPOLIS Program in Genomics, Biodiversity and Land Planning, CIBIO, Campus de Vairão, 4485-661 Vairão, Portugal; 5: BOKU, University of Natural Resources and Life Sciences, Gregor-Mendel-Straße 33, 1180 Vienna, Austria; 6: Biological Station of Mértola, Rua Professor Baptista nº 1, 7750-360 Mértola, Portugal; 7: Migratory Bird Center, Smithsonian Conservation Biology Institute, National Zoological Park, 3001 Connecticut Ave NW, Washington, DC 20008, USA

Holm oak (Quercus rotundifolia) naturally regenerates in the understory of stone pine (Pinus pinea) and eucalypt (Eucalyptus camaldulensis) plantations in southern Portugal, offering an opportunity to test the creation of canopy gaps as a technique for assisting natural regeneration in degraded forest patches. The responses of holm oak plants have been explored in a manipulative experiment, started in 2023, using a Before-After Control-Impact (BACI) design involving replicates of 20x20m plots for each of two restoration treatments (logging and thinning) and a control implemented in both pine and eucalypt plantations. It is expected that canopy-thinning optimizes light availability for the growth of holm oak recruits, while protecting them from environmental extremes that can risk their development. Over three years, we monitored the survival and growth of holm oak individuals under varying light conditions. Preliminary results show distinct regeneration patterns between the two plantation types. In stone pine stands, moderate thinning yielded the highest survival rate of holm oak individuals (98%), though differences were not statistically significant. However, this treatment showed significantly lower growth rates among seedlings, while saplings exhibited the opposite trend. In eucalypt plantations, the survival and growth of seedlings and saplings showed no significant differences among treatments. In 2024, an additional trial was established in the same experimental areas, where 100 acorns were cached per plot to assess the influence of treatments on germination. In the germination trials, moderate thinning resulted in the highest seedling emergence (50%) in pine areas with high significance. While increased canopy openness also had a positive effect on germination in eucalyptus stands, the differences were not significant. Our results demonstrate how holm oak regeneration responds to the creation of canopy openings in different contexts and how gap size influences its dynamics. These findings inform thinning operations that can optimize light conditions while reducing environmental stress, providing insights into assisted natural regeneration as a viable strategy for restoring afforested landscapes in semi-arid regions.

 
12:00a13:30T2.3 - Os desafios
Localização: Sala A1.14
Moderação/coordenação de sessão: Maria Conceição Colaço
 
Apresentações

Trail Running como instrumento de gestão territorial e prevenção de incêndios rurais: uma abordagem geoespacial

Pedro Alves1, António Brandão2, David Sarmento1

1: Universidade de Trás-os-Montes e Alto Douro, Portugal; 2: Escola Superior de Desporto e Lazer, Instituto Politécnico de Viana do Castelo

Os incêndios rurais constituem um dos principais desafios da floresta portuguesa, exigindo abordagens preventivas que integrem gestão territorial, acessibilidade, conhecimento da paisagem e valorização sustentável dos espaços rurais e florestais. Em paralelo, o Trail Running tem vindo a afirmar-se como uma modalidade de desporto de natureza com forte expressão territorial, recorrendo frequentemente a trilhos, caminhos rurais, áreas de montanha, matos e espaços florestais. Embora a modalidade tenha uma finalidade essencialmente desportiva e recreativa, a sua realização depende da existência, conservação e utilização regular de percursos em meio natural, podendo estes constituir elementos relevantes para a leitura e organização do território.

O presente estudo tem como objetivo analisar, através de uma abordagem geoespacial, a relação entre os percursos do Circuito Nacional de Ultra Trail da Associação de Trail Running de Portugal e territórios vulneráveis aos incêndios rurais. A investigação incide sobre os percursos oficiais da época desportiva 2024/2025, assumindo uma abordagem censitária, geoespacial e aplicada, baseada na recolha e tratamento de ficheiros GPX. Os dados espaciais são integrados em ambiente SIG/QGIS e cruzados com cartografia de perigosidade estrutural de incêndio rural de 2024, Carta de Uso e Ocupação do Solo de 2018 e cartografia de áreas ardidas dos últimos 10 anos. Esta abordagem permite caracterizar a distribuição dos percursos por classes de perigosidade, tipos de ocupação do solo e eventual sobreposição com áreas historicamente afetadas por incêndios.

A análise geoespacial evidencia que os percursos de Trail Running apresentam uma implantação territorial expressiva e atravessam frequentemente paisagens rurais, florestais e de montanha. O cruzamento com a cartografia de perigosidade estrutural permite identificar troços localizados em áreas classificadas com perigosidade alta ou muito alta, enquanto a análise da ocupação do solo permite reconhecer a presença de áreas florestais, matos, espaços agrícolas e outros usos ao longo dos percursos. A integração da cartografia de áreas ardidas acrescenta uma dimensão histórica à análise, permitindo identificar percursos que atravessam territórios previamente afetados pelo fogo.

A presença destes percursos em áreas sensíveis não permite, por si só, estabelecer uma relação causal com a redução do risco de incêndio. Contudo, permite discutir o seu possível contributo enquanto elementos complementares de acessibilidade, conhecimento territorial, valorização dos trilhos e apoio ao planeamento preventivo. Esta leitura é particularmente relevante em territórios marcados pelo abandono rural, pela perda de usos tradicionais e pela necessidade de reforçar modelos de gestão mais ativos, participativos e territorialmente ajustados.

Este estudo procura, assim, contribuir para uma leitura interdisciplinar entre desporto de natureza, gestão florestal e ordenamento do território. Ao analisar os percursos de Trail Running como elementos espaciais mensuráveis, pretende-se reforçar a discussão sobre o seu enquadramento em estratégias locais de prevenção, manutenção de trilhos e valorização sustentável da paisagem. Desta forma, o Trail Running é interpretado não como substituto das ações formais de silvicultura preventiva ou gestão de combustíveis, mas como prática territorial com potencial complementar para a resiliência da floresta portuguesa.



Corte de Matos e Restauro Florestal como Alternativas de Prevenção de Incêndios na Região Centro: Uma Análise de Custos

Manuel Alte da Veiga1, Joaquim Sande Silva1,2, Ernesto Deus1,2, Sara Sousa1,2, Raul Salas1,3, Clara Viseu1,2, David Rodrigues1,2

1: Instituto Politécnico de Coimbra, Rua da Misericórdia, Lagar dos Cortiços, S. Martinho do Bispo, 3045-093 Coimbra Coimbra, Portugal.; 2: Centro de Investigação de Recursos Naturais, Ambiente e Sociedade (CERNAS), Instituto Politécnico de Coimbra, Bencanta, 3045-601 Coimbra, Portugal.; 3: RCM2+, Centro de Investigação em Gestão de Ativos e Engenharia de Sistemas, Instituto Politécnico de Coimbra, Rua Pedro Nunes, 3030-199 Coimbra, Portugal.

A gestão da vegetação constitui uma das principais estratégias de prevenção de incêndios florestais em Portugal, sendo frequentemente operacionalizada através do corte periódico de matos. Esta abordagem permite reduzir rapidamente a carga combustível, mas exige intervenções recorrentes e sem fim. Em alternativa, o restauro florestal procura substituir formações arbustivas por sistemas arbóreos mais estáveis, promovendo a sucessão ecológica, um maior ensombramento, níveis de humidade mais elevados e menor desenvolvimento do sub-bosque. Embora implique, em regra, um investimento inicial mais elevado, esta estratégia poderá reduzir substancialmente os custos de manutenção a médio e longo prazo.

A presente comunicação incide sobre a primeira componente do projeto REFORCE (equipa multidisciplinar do IPC), centrada na comparação dos custos operacionais das duas estratégias de prevenção de incêndios florestais. O objetivo principal consiste em identificar os modelos de gestão mais utilizados no controlo de matos e no restauro florestal, bem como determinar os custos por hectare e por ano associados a cada uma destas abordagens. Adicionalmente, procura-se estimar o horizonte temporal a partir do qual o restauro florestal se torna economicamente mais vantajoso do que o corte periódico, avaliando de que forma a sensibilidade dos resultados a diferentes pressupostos pode influenciar o processo de tomada de decisão.

A metodologia baseia-se na recolha de dados reais de campo junto de equipas de sapadores florestais e outras entidades envolvidas em operações de gestão da vegetação, incluindo municípios, comunidades intermunicipais, associações de produtores florestais e organizações não governamentais com experiência em restauro florestal. Para tal, são registados tempos de trabalho, recursos humanos envolvidos, utilização de equipamento, consumíveis e características dos locais intervencionados. Esta informação é complementada por um inquérito técnico dirigido a entidades responsáveis por operações de limpeza de matos e de restauro florestal, bem como por valores de referência das tabelas CAOF.

A análise económica é conduzida através do cálculo do Custo Equivalente Anual, permitindo transformar investimentos iniciais e custos periódicos num custo anual comparável ao longo de diferentes horizontes temporais. É ainda estimado o ponto de equilíbrio temporal entre as duas estratégias, isto é, o momento a partir do qual a acumulação de custos associados ao corte periódico de matos poderá ultrapassar os custos do restauro florestal. A análise inclui cenários alternativos, considerando diferentes taxas de atualização, periodicidades de intervenção, custos unitários e modelos de gestão.

Uma análise preliminar dos inquéritos sobre os custos de operações de gestão de matos, comparados com os custos do restauro florestal, tendo por base a experiência adquirida na Quinta da Moenda (V N de Poiares), aponta para um “break-even point” (ponto de equilíbrio) aos 23 anos. Ou seja, após este período, o restauro florestal passa a ser a opção mais económica, exigindo pouca ou nenhuma manutenção, enquanto a alternaniva o exige para sempre.

Ao discutir estas questões, pretende-se contribuir para uma avaliação mais informada das opções de gestão da vegetação em contexto de prevenção de incêndios, destacando a importância de análises plurianuais que considerem não apenas o custo imediato das intervenções, mas também a sua recorrência, durabilidade e sustentabilidade económica.



Photovoltaic solar panel vulnerability to wildfires: experimental assessment

Miguel Almeida, Thiago Fernandes Barbosa, MohammadReza Modarres, Luís Mário Ribeiro, Tiago Rodrigues, Domingos Xavier Viegas

Univ Coimbra, ADAI, Department of Mechanical Engineering, Rua Luís Reis Santos, Pólo II, 3030- 788 Coimbra, Portugal

The rapid expansion of photovoltaic (PV) solar parks in fire-prone rural landscapes has raised concerns regarding the vulnerability of renewable energy infrastructure to wildfires, particularly in Mediterranean regions where large fires frequently affect agroforestry areas. Despite the increasing deployment of PV systems, their behaviour under wildfire exposure remains poorly documented, particularly regarding ignition potential, thermal degradation and implications for vegetation management. This study investigates the vulnerability of photovoltaic panels to wildfire exposure through laboratory experiments, analytical modelling and full-scale validation tests, aiming to support the development of passive protection criteria for large-scale solar parks.

Controlled cone calorimeter experiments were conducted on commercially available PV modules to identify critical heat-flux thresholds associated with progressive degradation. A simplified heat-transfer model was used to estimate minimum separation distances between panels and surrounding vegetation under different fuel and topographic conditions. The results indicate that PV panels (glass-glass type) exhibit relatively high resistance to ignition under wildfire exposure and that maintaining limited vegetation clearance may significantly reduce ignition risk.

Six cone calorimeter tests quantified the thermal degradation of PV modules under increasing heat exposure. The earliest signs of degradation were associated with carbon monoxide emissions at approximately 8.36 kW/m², while visible smoke was released at approximately 16.77 kW/m². Ignition was only observed when incident heat flux exceeded approximately 18.20 kW/m². Based on these results, a vulnerability function relating incident heat flux to panel response was established. The analytical model predicted minimum safety distances across different vegetation and slope scenarios, ranging from approximately 0.6 m in grassland and 0º slope to 4.1 m in dense shrubland and forest on steep slopes (40º).

Full-scale validation experiments were conducted to reproduce realistic wildfire exposure conditions, including direct flame-front exposure and fires developing beneath the panels. Exposure to flames between 0.5 m and 3.5 m in height caused limited material degradation and no sustained combustion. Direct flame impingement on the underside of the panels produced localised charring and deformation, but combustion self-extinguished once the external heat source was removed. Mass loss remained below 2% in the most severe tests, confirming the limited combustibility of the PV modules.

The findings indicate that glass-glass photovoltaic panels exhibit limited susceptibility to sustained combustion during wildfire exposure and do not significantly contribute to fire propagation when appropriate fuel management practices are implemented. The results support the development of guidelines for fuel management and infrastructure design for photovoltaic parks in wildfire-prone regions.

Acknowledgement: This research was funded by LightSource BP and by the Fundação para a Ciência e a Tecnologia, I.P. (FCT, https://ror.org/00snfqn58) under Grant (Funder Grant number and/or Grant DOI). For the purpose of Open Access, the author has applied a CC-BY public copyright license to any Author‘s Accepted Manuscript (AAM) version arising from this submission.



Do restauro pós-incêndio de 2018 à estabilização de emergência de 2023 no Parque Natural de Sintra-Cascais

Marlene Marques, David Belo, Filipa Machado, João Pedro Nunes, Diogo Rama da Silva, Inês Ramalho, Bruno Ribeiro Pinto, José Romana, João Cardoso de Melo

Cascais Ambiente, Portugal

A recorrência de incêndios rurais em áreas protegidas ameaça a integridade dos ecossistemas mediterrânicos. O incêndio de outubro de 2018 no Parque Natural de Sintra-Cascais (PNSC) afetou 428 ha em Cascais. Sabendo-se que o histórico de incêndios moldou a paisagem nesta área, impactando a biodiversidade e limitando a regeneração natural da vegetação nativa, desenvolveu-se um plano de restauro ecológico integrado entre a Peninha e a duna da Cresmina. A capitalização desta experiência foi fundamental em julho de 2023, quando um novo incêndio afetou 206 ha no Pisão de Baixo, permitindo transpor, de imediato, os modelos de intervenção biofísica e consolidar uma estratégia municipal de resiliência territorial face ao risco.

As técnicas de engenharia natural e de restauro ecológico aplicadas na área afetada em 2018 permitiram planear e executar com eficácia o plano de estabilização de emergência pós-incêndio de 2023 no Pisão de Baixo, mitigando riscos hidrológicos e de perda de solo.

Em ambas as situações pós-incêndio, a estratégia dividiu-se em ações de mitigação imediata e de conservação estrutural. No pós-incêndio de 2018, a fase de emergência (primeiros seis meses) focou-se na contenção da erosão através de barreiras de retenção de sedimentos e estabilização de encostas com sementeira, técnicas de engenharia natural e materiais biodegradáveis locais. A fase de conservação subsequente consistiu no controlo mecânico e químico de flora invasora, tanto na área ardida como em povoamentos florestais contíguos de alta densidade, seguida do adensamento com espécies nativas. Em 2023, no Pisão de Baixo, a resposta foi imediata, replicando os critérios de minimização de risco hidrológico e aplicando técnicas de engenharia natural para proteção do solo. Paralelamente, em 2018, celebraram-se protocolos individuais de cooperação com proprietários privados.

As estruturas de engenharia natural evitaram a perda de solo e a erosão de linhas de água, criando locais favoráveis ao sucesso da regeneração natural. O controlo de invasoras reduziu a pressão biótica e o banco de sementes, permitindo o estabelecimento das espécies nativas. O principal elemento diferenciador da iniciativa de 2018 relacionou-se com a vertente social: a celebração dos protocolos com proprietários privados permitiu executar as intervenções de forma contínua, superando a fragmentação da propriedade que frequentemente inviabiliza a gestão florestal à escala da paisagem. O grande avanço traduziu-se na curva de aprendizagem: o plano de estabilização de emergência em 2023 beneficiou da validação dos métodos de 2018. Isto permitiu otimizar o dimensionamento das barreiras, acelerar os prazos de execução para menos de dois meses após o incêndio e identificar as áreas prioritárias de intervenção com base nos declives e na severidade do incêndio.

O restauro ecológico pós-incêndio em ecossistemas vulneráveis depende criticamente da rapidez e eficácia das técnicas de engenharia natural aplicadas na estabilização biofísica. A ligação operacional entre os incêndios de 2018 e 2023 comprova que a continuidade e experiência técnica transformam riscos naturais repetitivos num processo de gestão adaptativa. Os modelos testados na Peninha-Cresmina e replicados no Pisão de Baixo estabelecem um referencial prático de resiliência, demonstrando que o conhecimento acumulado é o alicerce para mitigar os impactos das alterações climáticas no território florestal.



Duas décadas de monitorização do teor de humidade dos combustíveis finos na Lousã (Portugal)

Daniela Alves, Miguel Almeida, Maria Viegas, Domingos Viegas

ADAI - Universidade de Coimbra, Portugal

O teor de humidade dos combustíveis finos (THC) é um dos principais fatores que condicionam a ignição, a propagação e a área ardida dos incêndios em ecossistemas mediterrânicos. Embora diversos estudos tenham caracterizado a dinâmica do THC à escala de eventos ou sazonal, as séries temporais de medições de campo de longa duração permanecem raras. Na Lousã, decorre desde 1987 um programa de amostragem do THC, constituindo uma das mais longas séries deste tipo na região mediterrânica. Apesar de realizadas num único local, as medições são representativas de uma vasta área da Região Centro, permitindo a sua utilização na análise da atividade de incêndios à escala regional.

O presente estudo analisa o período 2000-2025, incluindo observações de THC morto e vivo em folhada de Pinus pinaster (PP) e Eucalyptus globulus (EG), nas espécies arbustivas dominantes Calluna vulgaris (L.) Hull e Pterospartum tridentatum (L.) Willk., bem como nos combustíveis das copas (folhas vivas de PP e de EG). A série temporal foi utilizada para caracterizar a variabilidade do THC, comparar os valores observados com os registados noutras regiões mediterrânicas, quantificar tendências de longo prazo, identificar os principais fatores climáticos condicionantes, avaliar os atuais níveis de perigo de incêndio e analisar a sua relação com a atividade de incêndios.

A diminuição sazonal do THC dos combustíveis mortos está associada a períodos de maior atividade de incêndios. Diversos estudos identificaram valores de THC dos combustíveis mortos próximos de 10-12% (base seca) como indicativos de uma maior probabilidade de ocorrência de grandes incêndios, um padrão também observado na nossa base de dados.

O THC dos combustíveis vivos apresenta uma dependência mais acentuada das condições hídricas acumuladas ao longo do tempo, refletindo a influência dos défices acumulados de humidade do solo e do estado fenológico, bem como das características ecofisiológicas específicas de cada espécie. O THC das espécies arbustivas apresenta uma variação sazonal bem definida e fortes relações com indicadores de seca, atingindo valores máximos na primavera (abril-maio) e diminuindo gradualmente ao longo do verão até aos valores mínimos observados em agosto. Em contraste, os combustíveis das copas evidenciaram respostas mais dispersas.

A influência de eventos meteorológicos extremos na dinâmica do THC foi particularmente clara nos últimos anos, durante os quais se registaram valores mínimos históricos de THC. A título de exemplo, a 13 de agosto de 2025, data da ignição do incêndio do Piódão (Arganil), que viria a tornar-se o maior incêndio registado em Portugal em termos de área ardida (65 417 ha), o país encontrava-se sob condições severas de seca e atravessava uma onda de calor (29 de julho a 17 de agosto). Estas condições refletiram-se nos valores excecionalmente baixos de THC medidos na Lousã, onde a folhada de PP atingiu 5.27%, enquanto os arbustos (P. tridentatum) registaram um THC de 54.23%.

Tendo em conta a intensificação dos eventos extremos, as observações de campo do THC continuam a ser essenciais para redefinir níveis de perigo de incêndio adaptados às condições regionais, validar métodos de deteção remota para estimativa do THC e aprofundar o conhecimento sobre os efeitos das alterações climáticas na dinâmica dos combustíveis florestais.

A presente investigação foi desenvolvida no âmbito dos projetos ForestSphere (2025.01496.DT4ST) e Large Fires (COMPETE2030-FEDER-00878700).



Impactos do fogo e do coberto vegetal nas propriedades químicas de solos do Parque Natural do Alvão, Norte de Portugal

Maria Fernanda Meneguzzo1,3, Carlos Aguiar2, André Brugnara Soares3, Felícia Fonseca2

1: Instituto Politécnico de Bragança, Campus de Santa Apolónia, 5300-253 Bragança, Portugal; 2: CIMO, LA SusTEC, Instituto Politécnico de Bragança, Campus de Santa Apolónia, 5300-253 Bragança, Portugal; 3: Universidade Tecnológica Federal do Paraná, Campus Pato Branco, Brasil

Os incêndios florestais constituem uma perturbação recorrente nas regiões mediterrâneas, com impactos expressivos nas propriedades químicas dos solos de montanha. Estas alterações podem modificar a disponibilidade de nutrientes, a capacidade de troca catiónica e a toxicidade associada ao alumínio, o que condiciona a regeneração da vegetação após o fogo. O Parque Natural do Alvão (PNAL), no Norte de Portugal, tem sido frequentemente afetado por incêndios florestais de diversa severidade, o que o torna um cenário privilegiado para avaliar as consequências edáficas do fogo em ecossistemas sensíveis. Assim, este estudo teve como objetivo avaliar o efeito do fogo e do tipo de cobertura vegetal nas propriedades químicas do solo, em diferentes profundidades, no PNAL.

O estudo comparou quatro condições de ocupação e de perturbação do solo pelo fogo: pastagem herbácea de montanha (PM), urzal/tojal (UT), urzal (U) e áreas afetadas por incêndio florestal de severidade muito alta (IS), em delineamento inteiramente casualizado com quatro repetições. As amostras de solo foram colhidas em três profundidades (0–5, 5–10 e 10–20 cm). Foram avaliados indicadores de fertilidade do solo, incluindo matéria orgânica, pH (H₂O e KCl), fósforo e potássio extraíveis, bases de troca (Ca, Mg, Na e K), capacidade de troca catiónica efetiva (CTCe), acidez de troca, alumínio de troca, boro e manganês. Os dados foram submetidos a testes de normalidade (Shapiro-Wilk) e, quando adequado, à análise de variância (ANOVA), com agrupamento de médias pelo teste de Scott-Knott (p ≤ 0,05), utilizando o pacote AgroR no software R.

O tratamento UT apresentou, de forma geral, os maiores teores de matéria orgânica, CTCe, potássio, cálcio e manganês, sobretudo na camada superficial (0–5 cm), com diferenças significativas em relação aos restantes tratamentos, possivelmente associadas à deposição de cinzas e ao aumento da mineralização da matéria orgânica após o fogo. O pH variou de ácido a subácido em todos os tratamentos, sem diferenças estatisticamente significativas nas camadas mais profundas. O fósforo disponível apresentou os valores mais elevados no tratamento PM, o que pode estar relacionado com a maior atividade biológica associada à cobertura herbácea. Em todas as profundidades, a acidez de troca e o alumínio de troca mantiveram-se elevados, sugerindo potencial limitação ao desenvolvimento vegetal devido à elevada saturação em alumínio. Na camada 10–20 cm, os efeitos observados foram menos pronunciados, manifestando-se principalmente por alterações na distribuição dos nutrientes e na dinâmica do carbono orgânico.

Os resultados demonstram que o fogo e o tipo de coberto vegetal influenciam significativamente os atributos químicos do solo, com efeitos mais evidentes nas camadas superficiais. A persistência de elevada acidez de troca e de alumínio sugere a necessidade de monitorização e, eventualmente, de implementar medidas de recuperação da fertilidade em áreas afetadas por incêndios florestais. Estes resultados fornecem informação relevante para apoiar estratégias de gestão pós-fogo e de conservação dos solos em ecossistemas florestais de montanha.

 
12:00a13:30T4.3 - A transformação
Localização: Sala H1.17
Moderação/coordenação de sessão: Hélder Viana
 
Apresentações

Comparing ALS-TLS-HMLS LiDAR technologies for Understory Biomass Estimation in Mediterranean Forests

Aswin Thomas1, Muhammad Lukman Yazid1, Amal Anil Kumar Lathika Amma1, Brigite Botequim1, Paulo Alexander Martins Fernandes2, Juan Guerra Hernández1

1: Forest Research Centre, Instituto Superior de Agronomia, University of Lisbon, Portugal; 2: Centre for the Research and Technology of Agro-Environmental and Biological Science, University of Trás-os-Montes and Alto Douro, Portugal

Mediterranean forests are characterized by heterogeneous vegetation structure and dense shrub layers that strongly influence fuel continuity, ecosystem functioning, and forest management. However, shrub biomass estimation remains difficult to characterize consistently using remote sensing and field data given that canopy screening, vegetation heterogeneity, and acquisition geometry can influence the representation of near-ground structure. Airborne laser scanning (ALS), terrestrial laser scanning (TLS), and handheld/mobile laser scanning (HMLS) provide different perspectives on forest structure, although structural metrics derived from these platforms are not inherently comparable across varying canopy conditions. While previous studies have evaluated combinations of airborne and terrestrial LiDAR systems for forest inventory and understory biomass, direct comparisons of ALS, TLS, and HMLS within the same Mediterranean forest plots remain limited, particularly for shrub structural metrics commonly used in biomass and fuel characterization.

This study evaluates countrywide ALS coverage of 2024 together with TLS and HMLS observations acquired in 30 circular plots located in Monsanto Forest Park, Lisbon, Portugal, during winter 2025 to compare how different LiDAR acquisition perspectives represent understory vegetation structure under Mediterranean forest conditions. Field observations of shrub height and species presence were collected at regular intervals using transect-based sampling methods and combined with harmonized multi-platform LiDAR acquisitions to support cross-platform comparison of understory structural representation. LiDAR-derived shrub metrics were extracted from height-normalized point clouds after filtering the understory layer between 0.2 and 3.0 m. The comparison focused on shrub height (SH), shrub cover (SC), and shrub biomass density (SBD). Metrics were derived using a voxel-based approach with a voxel size of 0.5 m applied consistently across ALS, TLS, and HMLS datasets. The SH was estimated as the mean height of occupied shrub-layer voxels, while SC was estimated from the proportion of occupied horizontal voxel cells within each plot. Shrub biomass density (SBD) was subsequently estimated from shrub height and shrub cover using an pre-existing equation empirical that combines vertical and horizontal shrub structure.

The study provides a basis for interpreting differences in SH, SC, and SBD estimates obtained from airborne, terrestrial, and mobile LiDAR observations in Mediterranean forests. Understanding the comparability of these metrics is important for determining whether shrub structural metrics from different LiDAR platforms can be interpreted consistently. The study is also a step forward for understanding the potential and limitations in the use of these technologies to estimate understory biomass vegetation.



Can Landsat-8 capture biomass in heterogeneous Mediterranean oak woodlands?

Borja Rodriguez-Lozano1, Vanda Acácio1, Inês Duarte1, Victoria Lerma-Arce2, Francisco Castro Rego1, Ana Neves3, Leónia Nunes1

1: Centre for Applied Ecology “Prof. Baeta Neves” (CEABN-InBIO), School of Agriculture, University of Lisbon, Portugal; 2: Institute of Information and Communication Technologies (ITACA), Universitat Politècnica de València, Camino de Vera s/n,46022 Valencia, Spain; 3: Bee2Solutions, Aveiro, Portugal

Characterizing carbon stocks in aboveground biomass (AGB) is particularly challenging in Mediterranean ecosystems due to their strong spatial heterogeneity. This is the case of Mediterranean oak woodlands of the Iberian Peninsula, which are structurally and ecologically heterogeneous ecosystems shaped by long-term human coevolution. Originally dominated by continuous oak forests, these systems have been progressively converted by human management into agrosilvopastoral systems known as dehesas in Spain and montados in Portugal. In the present they are a mosaic landscape with variable oak density depending on land management. Consequently, AGB patterns in these land-use systems reflect the combined influence of human management and environmental conditions. In this study, we evaluated the potential of Landsat-8 imagery to estimate different components of AGB, including woody biomass (AGB_wood), foliage and shrubs (AGB_foliage), and total perennial biomass (AGB_total). We combined field data from 47 experimental plots with two cloud-free summer Landsat-8 images using a spatially structured cross-validation approach. Our results show that AGB_foliage (R² = 0.36, rRMSE = 0.37) and AGB_total (R² = 0.35, rRMSE = 0.41) are more accurately predicted than AGB_wood (R² = 0.16, rRMSE = 1.02), mainly due to pixel-mixing effects associated with the coarse spatial resolution of Landsat data in open woodlands. Red, NIR, and SWIR bands were identified as the most informative predictors across biomass components. Instead of producing a highly accurate static estimate of AGB, our results demonstrate that Landsat-8 imagery can be useful for tracking changes in AGB with moderate accuracy, offering a practical approach to monitor carbon stock changes driven by management, disturbance, and climate variability. Landsat-8 imagery can also be combined with inventory data to improve the accuracy of carbon stock estimates.

This research was financed by the REMAS project (co-financed by the Interreg Sudoe Programme through the European Regional Development Fund (ERDF), grant number “SOE3/P4/E0954” and PRR/IAPMEI/Aviso 02/C05-i01/2022, CIRCULARTECH (Contribute to solving a problem that humanity has faced since the industrial revolution: waste) – Carbon WISE



Remote sensing reveals expansion without connectivity gains in Portuguese Quercus pyrenaica forests

Isabel Passos1,2, João Gonçalves3,4,5, Maria Margarida Ribeiro1,6,7, Albano Figueiredo2, Carlos Vila-Viçosa3,4,8,9

1: Centro de Estudos em Recursos Naturais, Ambiente e Sociedade-Instituto Politécnico de Castelo Branco (CERNAS –IPCB). Quinta da Senhora de Mércules, 6001-909 Castelo Branco, Portugal; 2: Centre of Studies in Geography and Spatial Planning, Department of Geography and Tourism. University of Coimbra, Colégio de São Jerónimo, 3004-530 Coimbra, Portugal; 3: BIOPOLIS Program in Genomics, Biodiversity and Land Planning, CIBIO. Campus de Vairão, 4485-661 Vairão, Portugal; 4: CIBIO (Research Center in Biodiversity and Genetic Resources)-InBIO (Research Network in Biodiversity and Evolutionary Biology), Campus Agrário de Vairão, Rua Padre Armando Quintas, University of Porto, 4485-661 Vairão, Portugal; 5: proMetheus—Research Unit on Materials, Energy and Environment for Sustainability, Instituto Politécnico de Viana do Castelo, Escola Superior de Tecnologia e Gestão, 4900-347 Viana do Castelo, Portugal; 6: Instituto Politécnico de Castelo Branco. Escola Superior Agrária, Portugal; 7: Centro de Estudos Florestais (CEF), Laboratório Associado TERRA, Instituto Superior de Agronomia (ISA). Universidade de Lisboa, Tapada da Ajuda, 1349-017 Lisboa, Portugal; 8: Departamento de Biologia, Faculdade de Ciências, Universidade do Porto, 4169-007 Porto, Portugal; 9: MHNC-UP—Museu de História Natural e da Ciência da Universidade do Porto – Herbário PO, Universidade do Porto. Praça Gomes Teixeira, 4099-002, Porto, Portugal

Quercus pyrenaica Willd. is one of the main marcescent oak species of the Iberian Peninsula, forming submediterranean forests of high ecological, biogeographical, and landscape value. In Portugal, many populations occur near the southern limit of the species’ distribution, where increasing climatic stress, land-use change, and rural abandonment may reshape forest structure, connectivity, and long-term persistence. Understanding recent spatial dynamics is therefore essential to support conservation planning, adaptive forest management, and the design of functional ecological corridors.

This study assesses recent spatial changes in the distribution, structure, and fragmentation of closed-canopy Q. pyrenaica forests in north-central Portugal between 2019 and 2024. Forest distribution maps were produced using a Random Forest classifier based on Sentinel-2 time-series imagery, vegetation indices, topographic variables, and recent satellite embedding features. Spatial and landscape metrics were then used to evaluate changes in forest area, patch configuration, core habitat, and connectivity-related attributes.

The classification achieved high predictive performance (Overall Accuracy = 95.1%, Kappa = 83.7%, F1-score = 86.9%), supporting the use of Earth Observation data for operational monitoring of submediterranean oak forests. Results indicate an apparent increase in mapped closed-canopy Q. pyrenaica forest area during the study period. However, this expansion was accompanied by a marked increase in the number of forest patches and a reduction in median patch size, revealing a trend towards landscape subdivision. Although total core forest area increased, the proportion of patches containing core habitat declined, suggesting a growing dominance of small, edge-affected stands. Forest patches remained concentrated at mid-elevations and on predominantly north-west-facing slopes, indicating a relatively stable ecological profile over time.

These patterns suggest that recent forest expansion is occurring mainly through the emergence or canopy closure of small and spatially isolated patches, probably linked to secondary succession after agricultural abandonment. Consequently, gains in forest cover should not be interpreted automatically as gains in ecological integrity, habitat quality, or functional connectivity. The results highlight the need to protect regenerating stands, promote links between fragmented nuclei, and guide management towards the recovery of structurally mature and connected oak woodlands.

Finally, by integrating remote sensing, machine learning, and landscape ecology, this study provides a spatially explicit basis for identifying priority areas for conservation corridors and for supporting decision-making in Mediterranean forest landscapes under ongoing environmental change.

The FCT funded the PhD grant (reference UI/BD/152853/2022 and DOI identifier https://doi.org/10.54499/UI/BD/152853/2022), and the programs CERNAS (UID/681/2025, DOI https://doi.org/10.54499/UID/00681/2025), CEF (UID/00239/2025, DOI: 10.54499/UID/00239/2025, and UID/PRR/00239/2025, DOI: 10.54499/UID/PRR/00239/2025), Associate Laboratory TERRA (LA/P/0092/2020, DOI: 10.54499/LA/P/0092/2020), CEGOT (UIDB/04084/2025), and UID500272025UIDB/50027/2020.



Gestão florestal em povoamentos de eucaliptal na região de Aveiro: fatores socioeconómicos

Pedro Reis1, Maria João Canadas1, Ana Novais2, José Luís Carvalho3, Susana Morais3, Luís Sarabando4

1: INIAV, Portugal; 2: ISA, Portugal; 3: Navigator, Portugal; 4: AFBV, Portugal

A área florestal com povoamentos de eucalipto registou um crescimento elevado nas últimas décadas, em face da adesão dos proprietários florestais a esta espécie e à dinâmica da indústria do sector, mas enfrenta desafios importantes, como a redução de riscos, e o incremento da rentabilidade e da produção nacional de madeira. Para que seja possível introduzir mudanças no ordenamento e na gestão florestal é crucial conhecer melhor os proprietários florestais, muito em particular, os fundamentos das suas opções económicas.

Neste sentido, realizou-se um estudo sobre as práticas de gestão de povoamentos de eucalipto na região de Aveiro, que teve como principal fonte de informação um inquérito por questionário, presencial, a 193 proprietários florestais privados não industriais. O questionário integrou questões sobre o proprietário e a propriedade, a gestão e a economia florestal (as práticas e fundamentos da sua decisão, a relação com o mercado, entre outras.

Os proprietários inquiridos são mais jovens e escolarizados do que a média dos agricultores da região, são economicamente ativos, tendem a residir no concelho onde se localizam os seus principais povoamentos florestais e a usufruir de um rendimento familiar em que a componente florestal tem um peso significativo, apesar da ocorrência de incêndios florestais (nos últimos 10/12 anos, quase três quartos dos proprietários tiveram incêndios na sua propriedade florestal, e a maioria destes tiveram mais do que um incêndio). Predominam os prédios de pequena dimensão, ocupados com povoamentos de eucalipto recentes, com certificação da gestão florestal, e geridos diretamente pelo proprietário. Há um acompanhamento frequente dos povoamentos florestais, com cerca de três quartos a visitá-los com uma periodicidade inferior a seis meses. Na plantação, a opção por plantas clonais e compassos apertados são escolha de muito dos proprietários. As operações de preparação do terreno, plantação com adubação de fundo, limpezas de mato, seleção manual de varas e as adubações são frequentes, e revelam uma gestão ativa da floresta. Os próprios proprietários realizam uma ou mais limpezas de mato por rotação, com equipamento motomanual, a seleção manual de duas a três varas por toiça, sem intenção de alterar o número de varas e duas adubações por rotação, para o que se aconselham junto dos técnicos florestais, sem análises ao solo. A madeira é vendida em pé, por um valor global ou à unidade, no segundo caso sem garantia de valor mínimo, com pagamentos no final do corte. A venda da madeira através da associação acontece por haver maior confiança nesta entidade. Uma curta maioria considera que ganha dinheiro com o eucalipto, mas sem qualquer registo contabilístico. Cerca de dois terços dos proprietários que se pronunciaram tencionam replantar os povoamentos que têm em 3.ª rotação ou mais. Os proprietários querem aceder a informação sobre as melhores práticas sílvicolas e os preços da madeira, de preferência transmitida pessoalmente, por técnicos da associação.

Conclui-se que, neste território, há uma gestão ativa dos povoamentos de eucalipto e uma dinâmica económica que incentiva a continuidade. Apesar desta dinâmica positiva, persiste a necessidade de responder aos desafios do mercado da madeira, de uma maior capacitação dos proprietários florestais e, em especial, a necessidade de incrementar o rendimento da atividade florestal.



Dinâmicas no ordenamento e gestão florestal no Pinhal Interior Norte, após 2017. O caso de Castanheira de Pera e Pedrogão-Grande

Carolina Leite1, Pedro Reis1, Ana Novais2, Maria João Canadas2

1: INIAV, Portugal; 2: ISA, Portugal

Os incêndios rurais de 2017 foram marcantes na sociedade portuguesa, sobretudo pelas perdas de vidas humanas. Este ano trágico, impulsionou um conjunto de políticas florestais, de desenvolvimento rural e proteção civil, visando à redução do risco de incêndios e da vulnertabilidade dos territórios e das pessoas.

Face ao impacto desses incêndios em Pedrogão-Grande e Castanheira de Pera, realizou-se um estudo neste dois concelhos, com o objetivo de analisar as dinâmicas no ordenamento e gestão florestal, ocorridas nos últimos dez anos, procurando identificar as mudanças e os fatores que influenciam uma gestão mais ativa e sustentável da floresta. Este estudo realizou-se no âmbito da Agenda Transform (P1.4), onde se procura transladar o melhor conhecimento silvícola para o território, com vista a torná-lo menos suscetível e mais resiliente aos incêndios rurais e a outros riscos, criando mais valor para as pessoas, empresas e territórios.

Realizou-se um inquérito por questionário a 30 proprietários florestais e entrevistas semi-estruturadas a agentes autárquicos, associativos, e de ensino, a prestadores de serviços e à sociedade civil. Estes procedimentos foram complementados com observação directa, no terreno, da gestão florestal concretizada no quadro de diversas iniciativas ou projectos localmente implementados ou em implementação.

Os proprietários florestais estão mais disposto a aderir a uma ZIF (e são a maioria) como uma via de reduzir o risco de incêndio florestal do que a uma AIGP. Com efeito avaliam negativamente a única AIGP criada no concellho de Pedrógão-Grande, que na perspectiva local teve um induficiente envolvimento dos proprietários abrangidos na elaboração da OIGP. Os proprietários mostram mais interesse no arrendamento do que na venda de terrenos florestais.. Houve mudanças na gestão florestal após 2017, com dois terços pertencendo à área-piloto da Biond. O principal apoio obtido foi para operações florestais (Biond), seguido de aconselhamento técnico (APFLOR) e cadastro predial (Câmara Municipal). Veem as iniciativas e projetos como algo positivo, mas persiste um ceticismo quanto à continuidade de operações de manutenção necessárias; muitos afirmam não terem resultado económico da floresta que lhes permita assumir essa continuidade. Quase todos usaram o BUPi para o cadastro dos prédios. Os condomínios de aldeia são considerados o instrumentos de transformação da paisagem com maior sucesso, ainda que alguns proprietários por eles abrangidos façam avaliações críticas.

Os resultados do inquérito e das entrevistas evidenciam um disposição para a mudança, e a existência de entidades locais com capacidade para intervir. A experiência e as opiniões reunida das diferentes iniciativas mostra que é fundamental envolver os proprietários e tem de haver um resultados económico positivo. Tem de haver investimento público e políticas integradas no território.

Este trabalho obteve apoio financeiro total ou parcial da Agenda Transform, projeto n.º C644865735-00000007, ao abrigo das Agendas Mobilizadoras para a Inovação Empresarial (Aviso N.º 02/C05-i01/2021), através do Plano de Recuperação e Resiliência (PRR) e Fundos Europeus NextGeneration EU.



Ecossistema aplicacional do Sistema de Informação de Fogos Rurais (SIFOR)

Arlindo Santos, Pedro Venâncio

Agência para a Gestão Integrada de Fogos Rurais, Portugal

Na sequência dos incêndios rurais de 2017, Portugal promoveu uma transformação estrutural do modelo de gestão do risco de incêndios, assente numa abordagem integrada e mais colaborativa. O Decreto-Lei n.º 82/2021 estabeleceu o Sistema de Informação de Fogos Rurais (SIFoR) como instrumento central para a agregação, integração e disseminação de informação técnica no âmbito do Sistema de Gestão Integrada de Fogos Rurais (SGIFR).
O SIFoR materializa-se num ecossistema aplicacional interoperável, suportado pela Plataforma de Interoperabilidade (PLIS), que assegura a ligação entre sistemas de múltiplas entidades, públicas e privadas. Esta infraestrutura elimina a dispersão da informação, promovendo transparência, partilha de dados e acesso alargado ao conhecimento por parte de técnicos, operacionais, decisores, investigadores, empresas e cidadãos.
Neste ecossistema, o GeoSIFOR assume um papel central na democratização do acesso à informação geoespacial. Enquanto visualizador de informação geográfica intuitivo, permite a utilizadores sem conhecimentos especializados em SIG ou deteção remota, explorar e interpretar dados geográficos complexos. Através de uma interface simples, o GeoSIFOR disponibiliza informação proveniente de múltiplas fontes, desde as entidades que integram o SGIFR (AGIF, ANEPC, ICNF, GNR, DGT, IPMA, IP, etc.), passando por outras entidades nacionais produtoras de informação (INE, BUPI) e por entidades e programas internacionais (Copernicus, ESA, EUMETSAT, LSA-SAF, Wekeo, EFFIS, NASA). Esta capacidade reduz significativamente a barreira técnica ao uso de informação avançada, potenciando a sua utilização em contexto operacional, científico e de apoio à decisão.
O ecossistema integra ainda o Portal Público do SGIFR, que disponibiliza informação atualizada sobre ocorrências, alertas, estatísticas e conteúdos de sensibilização, reforçando a comunicação com a sociedade, a Plataforma de Monitorização do SGIFR e a Plataforma de Lições Aprendidas.
A arquitetura do sistema, baseada em software de código aberto, modular e escalável, garante flexibilidade, segurança e evolução contínua.
O SIFoR constitui, assim, um exemplo de transformação digital aplicada à gestão do território e aos fogos rurais, destacando-se pela promoção da inovação tecnológica, pelo acesso cada vez mais aberto a dados, informação e conhecimento.

 
13:30a14:30Almoço
Localização: Átrio ESAC
14:30a16:00Simpósio 13c - Baldios em transformação: dinâmicas institucionais e modelos de gestão
Localização: Auditório ESAC (Bloco E)
Moderação/coordenação de sessão: Vanda Acácio
Moderação/coordenação de sessão: Carla Leite
Moderação/coordenação de sessão: Iryna Skulska Kolos
 
Apresentações

Baldios em Transformação na voz de mulheres compartes: um estudo participativo

Marta Nieto Romero1, Ana Luísa Luz2, Delfine Silva3, Joana Nogueira4, Inês Guimarãoes5, Lúcia Jorge6

1: ISEG, Portugal; 2: FSCH, Univ. Nova de Lisboa; 3: Baldio de Lamas d’Olo e Dornelas, Vila Real; 4: ESA, Instituto Politécnico de Viana do Castelo; 5: Investigadora independente; 6: Associação dos Baldios do Parque Nacional da Peneda Gerês

Os territórios comunitários, em Portugal baldios, constituem um modelo promissor para a conservação da natureza, economias inclusivas e governação democrática (UNEP-WCMC & ICCA Consortium, 2021; OMS, 2024; Comissão Europeia, 2024). No entanto é sabido que, como muitos outros territórios comunitários no mundo, os baldios em Portugal enfrentam desafios de governança. Tal como o texto que enquadra o Simpósio, “Baldios em Transformação”, sugere, vivemos um momento-chave de transformação caracterizado por novos desafios que se juntam aos já antigos. Ao abandono das economias agrícolas tradicionais, redução do investimento público, despovoamento rural, e risco de incêndio, juntam-se as economias emergentes como a dos serviços ecossistémicos e do carbono, a aceleração das alterações climáticas e o fim da cogestão.

Perante este cenário, esta comunicação irá trazer uma voz tradicionalmente excluída neste tipo de debates: a das mulheres compartes. Um estudo recente em baldios no Norte de Portugal identificou que apenas 27 das 227 comunidades contactadas (12%) contavam com mulheres nos seus órgãos de gestão (Bem Comum, 2026). Sabemos que as mulheres desempenham um papel crucial na sustentabilidade das comunidades rurais sendo elas que permaneceram no território aquando da emigração rural dos anos 1950-60 (Brettel, 1991), e que têm um papel predominante na agricultura familiar de subsistência (Rodrigo 1986; Tavares, 2020). Apesar disso, assumindo predominantemente os papéis de cuidado do agregado familiar, as mulheres raramente participam na tomada de decisões relativas à vida pública e comunitária, o que perpetua uma dinâmica de exclusão social e económica (Bica, 2019).

Ainda assim, na última década tem-se verificado nos meios rurais um aumento da participação das mulheres na governança local, em particular em posições de liderança nos baldios. As mulheres podem trazer um outro olhar e conhecimento derivado da sua maior ligação às economias familiares, agricultura de subsistência e trabalho em rede. Devido a isto, estudos apontam que a inclusão das mulheres na tomada de decisão conduz a melhores resultados na conservação dos ecossistemas e na distribuição equitativa dos recursos (p.e. Agarwal, 2009, Siliprandi, E., 2015, Sánchez Martino, 2025, Clement, 2019).

Pretendemos realizar um mínimo de 15 entrevistas e um grupo focal para validar e aprofundar as dimensões identificadas nas entrevistas. A metodologia participativa começará por reunir com as compartes co-autoras deste resumo para: 1) definir os objetivos específicos; 2) desenhar o guião das entrevistas semiestruturadas e do grupo focal, 3) acordar o protocolo de seleção das mulheres compartes a envolver na pesquisa.

Com as entrevistas iremos recolher a visão das mulheres compartes sobre os baldios, em particular sobre os maiores desafios que se colocam ao seu funcionamento, tendo atenção às questões referidas na chamada do Simpósio (e.g. incêndios, bioeconomia e mercados ambientais). Uma estratégia “snow-ball” permitirá incluir vozes de mulheres compartes consideradas relevantes pelas próprias mulheres.

A análise dos dados seguirá uma abordagem qualitativa com a codificação do discurso com categorias pré-definidas e com códigos e categorias emergentes. Os resultados deste estudo servirão para trazer para a discussão os efeitos da inclusão das mulheres sobre a governança e sobre a conservação dos ecossistemas e, em última análise, para reforçar a sua inclusão na tomada de decisão em meios rurais.



O BUPi e os baldios: experiência, desafios e lições no registo e cadastro

Eugénia Amaral, Rodrigo Dourado, Fátima Simões

eBUPi - Estrutura de Missão para a Expansão do Sistema de Informação Cadastral Simplificado, Portugal

O BUPi (Balcão Único do Prédio) tem desempenhado um papel determinante na identificação, registo e cadastro (simplificado) dos prédios rústicos e mistos, incluindo os baldios. Nos termos legais, o regime aplicável aos baldios e demais meios de produção comunitários, previsto na Lei n.º 75/2017, é tramitado, com as necessárias adaptações, no âmbito do sistema de informação cadastral simplificado, sendo estes integrados no registo predial, assumindo o BUPi, para todos os efeitos legais, as funções da plataforma eletrónica nacional prevista no artigo 9.º daquele diploma (artigo 12.º da Lei n.º 65/2019)

A presente comunicação apresenta a experiência da eBUPi no tratamento destas realidades, evidenciando o trabalho desenvolvido na recolha, validação e integração de informação georreferenciada, matricial e registal, em linha com o objetivo de interoperabilidade entre sistemas.

Destacam-se como principais desafios a complexidade da delimitação física e identificação da titularidade coletiva, a dispersão e heterogeneidade da informação existente e a necessidade de articulação com entidades gestoras e comunidades locais. A participação destas comunidades revelou-se um elemento essencial para a consolidação dos dados.

Como principais lições, sublinha-se a relevância da cooperação institucional, da adaptação dos instrumentos técnicos às especificidades dos baldios e do investimento em soluções tecnológicas flexíveis. A experiência do BUPi demonstra o valor de uma abordagem integrada da informação territorial para uma gestão mais eficaz e transparente destes espaços.



Cadastro simplificado e gestão florestal em territórios rurais: evidências a partir de prédios rústicos nas regiões Norte e Centro

Ernesto Deus1,2, Catarina Frade1,3, Joaquim Sande Silva2,4

1: Centro de Estudos Sociais da Universidade de Coimbra; Colégio de S. Jerónimo, Largo D. Dinis, Apartado 3087, 3000-995 Coimbra, Portugal; 2: Instituto Politécnico de Coimbra, Escola Superior Agrária de Coimbra, Bencanta, 3045-601 Coimbra, Portugal; 3: Faculdade de Economia da Universidade de Coimbra; Av. Dr. Dias da Silva 165, Celas, 3004-512 Coimbra; 4: CERNAS – Centro de Investigação de Recursos Naturais, Ambiente e Sociedade

A falta de gestão dos espaços florestais constitui um dos principais desafios dos territórios rurais em Portugal, estando associada a processos de abandono, envelhecimento populacional, baixa rentabilidade económica e aumento da vulnerabilidade aos incêndios rurais. A estes fatores junta-se o desconhecimento da titularidade e da localização exata de muitos prédios rústicos, o que dificulta a mobilização dos proprietários e a atribuição de responsabilidades de gestão. Neste contexto, o Sistema de Informação Cadastral Simplificado e o Balcão Único do Prédio (BUPi) foram criados com o objetivo de promover a identificação da propriedade rústica, podendo também contribuir, direta ou indiretamente, para uma maior gestão florestal e para a redução do risco de incêndio.

Esta comunicação apresenta resultados de um estudo mais vasto desenvolvido na Universidade de Coimbra para a Estrutura de Missão para a Expansão do Sistema de Informação Cadastral Simplificado (eBUPi), que procurou analisar a ocorrência de gestão florestal em territórios rurais das regiões Norte e Centro, e explorar a sua relação com a inscrição dos prédios no BUPi. Em particular, pretendeu-se compreender que tipos de ocupação florestal apresentam maior evidência de gestão, que fatores territoriais influenciam a gestão e qual o papel do cadastro nas dinâmicas de gestão. Para tal, foi usada uma amostragem aleatória e emparelhada de 340 pares de prédios rústicos, cada par integrando prédios próximos com e sem inscrição no BUPi. A recolha de dados nos prédios rústicos realizou-se com recurso a fotografias do Google Street View, considerando, sempre que disponível, o momento mais antigo e mais recente, entre 2009 e 2024. Esta abordagem permitiu observar a evolução do estado de gestão dos prédios e relacioná-la com a data de inscrição no BUPi. Em cada prédio foram recolhidas variáveis relativas à ocupação do solo, ocorrência de gestão, proximidade a edifícios e áreas urbanizadas, perigosidade de incêndio rural e indicadores do regime de incêndios.

Os resultados indicam que apenas uma parte limitada dos prédios apresentava sinais de gestão nos dois momentos analisados. Nas áreas florestais, a proporção de prédios geridos variou entre 25% e 27%, enquanto nos incultos se situou entre 18% e 20%. Entre os principais tipos de floresta, os pinhais evidenciaram a maior incidência de gestão (40%), em contraste com os eucaliptais (25%). Não foi possível concluir inequivocamente que a inscrição no BUPi tenha produzido, por si só, um efeito direto na gestão florestal: observou-se uma forte coincidência no estado de gestão entre prédios emparelhados com e sem BUPi, sugerindo que fatores locais e de contexto territorial poderão ter maior influência do que a inscrição cadastral. A ocorrência de gestão parece estar positivamente associada à proximidade a edifícios e áreas urbanizadas, bem como ao maior intervalo de tempo desde o último incêndio, e relacionada negativamente à maior frequência de incêndios.

Este estudo contribui para a reflexão sobre os obstáculos à gestão dos espaços rurais e sobre o papel do cadastro simplificado na transformação das práticas de uso e gestão da propriedade rústica. Os resultados sugerem que a identificação da propriedade é uma condição relevante, mas insuficiente, se não for acompanhada por instrumentos de mobilização dos proprietários, incentivos adequados e estratégias territoriais capazes de responder às dinâmicas locais de abandono, risco e valorização florestal.



Modernização do cadastro rural brasileiro: função social da propriedade, prélaudo automatizado e inteligência territorial

Gustavo Souto de Noronha, Carlos Shigeaky Weky Silva, Stanislau Antônio Lopes, Cassio Confessor

Instituto Nacional de Colonização e Reforma Agrária, Brazil

A modernização do cadastro rural no Brasil tem sido tratada quase sempre como um desafio estritamente de engenharia: precisão cartográfica, sistemas integrados e padronização de dados. No entanto, este artigo argumenta que o cadastro é, fundamentalmente, um instrumento estratégico de política agrária e de desenvolvimento econômico. Sua verdadeira utilidade pública está na capacidade de dar ao Estado as ferramentas necessárias para conhecer a estrutura da terra, fiscalizar se a propriedade cumpre sua função social e garantir a segurança jurídica indispensável para o investimento e a paz no campo. A atual fragmentação dos sistemas e a falta de dados confiáveis geram um ambiente de opacidade, o que encarece as ações públicas, perpetua desigualdades históricas de acesso à terra e limita o planejamento territorial. A partir de uma análise institucional profunda dos principais sistemas do país (como o SNCR, SIGEF e CAR), os autores propõem uma transição prática e viável baseada em seis eixos complementares. O ponto central da proposta é a automação inteligente: no momento em que o proprietário declara sua área, o sistema cruza dados ambientais e estatísticos para gerar um pré-laudo automático sobre o uso da terra e uma estimativa realista do valor do imóvel, reduzindo custos e o tempo de análise administrativa. Além disso, defende-se uma validação espacial flexível (fit-for-purpose) — classificando os dados em níveis Ouro, Prata e Bronze —, o que permite trazer para a visibilidade do Estado pequenos produtores e territórios tradicionais que hoje são excluídos por exigências técnicas rígidas e caras. A proposta inclui o uso de inteligência artificial para auditar registros antigos em grande escala e a criação de um Centro de Inteligência Territorial para coordenar essa nova governança de dados. O artigo conclui que a tecnologia só faz sentido quando gera eficiência econômica e justiça social, recolocando o sistema de informações da terra a serviço de um projeto de desenvolvimento rural sustentável e transparente.



Uma década de investigação sobre governança dos baldios: da recolha dos planos de utilização do baldio à cartografia nacional da perigosidade de incêndio

Catarina Sequeira, Ricardo Esteves, Conceição Colaço, Francisco Rego, Vanda Acácio, Muha Pavel, Iryna Skulska

Centro de Ecologia Aplicada "Prof. Baeta Neves", Instituto Superior de Agronomia, ULisboa, Portugal

O Centro de Ecologia Aplicada "Prof. Baeta Neves" (CEABN-ISA, InBIO) completou uma década de investigação sistemática sobre a governança dos terrenos comunitários em Portugal Continental. O percurso iniciou-se com a recolha e harmonização dos Planos de Utilização dos Baldios (PUB), instrumentos obrigatórios de ordenamento que definem os usos e atividades de cada baldio, tendo abrangido cerca de 660 unidades aprovadas pelo ICNF. Esta fase sustentou teses de doutoramento e publicações científicas que aprofundaram o conhecimento sobre a organização jurídica e territorial dos baldios, bem como sobre as dinâmicas de gestão comunitária de recursos naturais em contexto mediterrânico.

Numa segunda fase, o foco alargou-se à perigosidade de incêndio florestal, dando origem ao projeto SAFER-LANDS (FCT, 2022–2025). A partir de uma rede de parcerias com especialistas em gestão florestal comunitária, gestão integrada do risco de incêndio e protecção ambiental, o projecto analisou a influência do regime florestal e dos estatutos de conservação na perigosidade de incêndio. Não obstante estes avanços, persistia uma lacuna crítica: a ausência de uma base de dados espacial nacional e integrada dos limites dos baldios. A fragmentação da informação entre múltiplas instituições (ICNF, IFAP, BUPi, federações, cooperativas, entre outras) impedia avaliações territoriais consistentes à escala nacional.

Para suprir esta lacuna, o projeto COMMON-BASES, igualmente financiado pela FCT entre 2024 e 2026, produziu a primeira cartografia harmonizada e georreferenciada dos baldios em Portugal Continental. Através da integração de dados institucionais de diversas fontes e da sua validação com o mapa de Uso e Ocupação do Solo de 2018 (COS2018), delimitou-se uma área total de aproximadamente 595 mil hectares, valor substancialmente superior às estimativas oficiais anteriores. Os resultados mostram que 73,8% desta área está sujeita ao regime florestal parcial e que cerca de 76% dos baldios apresenta perigosidade de incêndio elevada ou muito elevada, o que significa que três em cada quatro hectares de baldios estão estruturalmente expostos a condições de incêndio extremas. Estes resultados reforçam a urgência de uma coordenação interinstitucional efectiva e da consolidação de uma base cadastral nacional para os terrenos comunitários, condições indispensáveis para que a governança do fogo em Portugal transite de reactiva para preventiva.



Agrupamentos de Baldios: desafios e perspetivas do ponto de vista da política pública

Pedro Gomes

BALADI - Federação Nacional dos Baldios, Portugal

Em junho de 2013, no VII Congresso Florestal Nacional, a BALADI apresentou o primeiro modelo conceptual de Agrupamentos de Baldios (AdB), inspirado na experiência desenvolvida nos baldios do concelho de Mondim de Basto. A proposta procurava responder à falta de informação sistematizada sobre as áreas comunitárias, à fragilidade do apoio técnico às Comunidades Locais e às dificuldades do Estado em promover uma gestão eficaz destes territórios. Assente na cooperação entre baldios, o modelo preservava a autonomia e a identidade de cada Comunidade, promovendo uma governança participativa apoiada por estruturas técnicas e administrativas comuns.

A Lei n.º 75/2017 reforçou a autonomia das Comunidades Locais na gestão dos seus baldios e criou condições para o desenvolvimento de novos modelos de organização. Neste contexto, o modelo dos AdB surge como um bom instrumento de cooperação territorial, capacitação técnica, representação coletiva e relacionamento institucional com o Estado.

Foi neste enquadramento que, em 2019, surgiu o primeiro projeto-piloto para a constituição de AdB, suportado por política e financiamento público específico.

Passados quatro anos, em outubro de 2022, no IX Congresso Florestal Nacional, a BALADI apresentou os resultados desse processo: 55 comunidades envolvidas, 10 AdB constituídos, mais de 57.000 hectares de áreas comunitárias estudadas, com levantamento de limites, elaboração de Planos de Gestão Florestal, inventário e um plano de investimento. Neste período foi ainda possível captar mais de 10 milhões de euros para estes territórios comunitários.

Apesar dos resultados alcançados, a informação produzida nunca foi alvo de divulgação pública adequada por parte do Estado. Não existe uma listagem oficial consolidada dos AdB constituídos, nem foi produzido ou divulgado um relatório final de avaliação do projeto-piloto. Esta ausência de sistematização limita a aprendizagem institucional, dificulta a transparência das políticas públicas e impede que outras comunidades, entidades técnicas e decisores possam beneficiar da experiência acumulada.

O projeto-piloto evidenciou também fragilidades operacionais importantes. Do lado da administração pública destacaram-se a falta de procedimentos uniformes, insuficiente acompanhamento técnico e administrativo, atrasos graves no financiamento e dificuldade de articulação entre as entidades envolvidas. Do lado das comunidades, revelou-se um contexto marcado pelo envelhecimento, pela ausência de informação escrita, pelo desconhecimento de direitos e deveres e por uma relação historicamente difícil com o Estado. No território, tornaram-se visíveis o abandono de práticas tradicionais, a degradação florestal e a insuficiência de investimento em infraestruturas e gestão.

Em 2025, foi lançado um novo programa de apoio aos AdB. Todavia, surge sem uma avaliação formal do projeto-piloto anterior e sem uma discussão pública dos seus resultados. Mantiveram-se indicadores pouco ajustados à diversidade dos baldios e alargou-se o programa a entidades sem histórico consolidado no seu movimento associativo, levantando dúvidas sobre a coerência estratégica da política pública.

Esta comunicação pretende criar uma oportunidade para discutir criticamente o percurso dos AdB, os seus resultados, fragilidades e potencialidades, contribuindo para uma reflexão coletiva sobre o futuro deste programa, da gestão comunitária e da sua futura relação com o Estado

 
14:30a16:00Simpósio 2c - Floresta Urbana: conhecimento multifacetado para promover a resiliência
Localização: Auditório Pequeno (H1.04)
Moderação/coordenação de sessão: Inês Marques Duarte
Moderação/coordenação de sessão: Ana Luisa Soares
Moderação/coordenação de sessão: Leónia Nunes
 
Apresentações

A poda de formação: sua importância e consequências no crescimento e desenvolvimento das árvores

Ana Júlia Francisco

Câmara Municipal de Lisboa, Portugal

As árvores implantadas em espaço urbano estão sujeitas a grandes pressões logo desde a sua plantação. Uma das ações fundamentais para o bom crescimento e implantação das árvores é uma poda adequada ao longo de toda a sua vida, e neste capítulo, a poda de formação, que tem ação nos primeiros anos da vida da árvore, é preponderante para o seu bom desenvolvimento futuro e redução de acções de poda agressivas no estado adulto.

No actual panorama climático, a presença das árvores em espaços urbanos é uma necessidade crescente, sobretudo para mitigação das ilhas de calor e maior conforto climático geral. Assim, a implantação de arvoredo novo e a sua manutenção deve ser encarada de uma forma conducente a grande qualidade estrutural dos indivíduos, que no seu conjunto possam conduzir a uma floresta urbana saudável e resiliente.

Na sua ontogenia, os indivíduos arbóreos desenvolvem as características genéticas próprias e muitas desenvolvidas devido a factores bióticos ou abióticos. A poda é uma acção humana que altera a ontogenia da árvore, condicionando a estrutura do indivíduo. No contexto de arboricultura urbana, a poda de formação é uma acção aplicada às árvores nos seus estádios de juventude que influencia/conduz o desenvolvimento individual com o objectivo de produzir árvores de qualidade com maior capacidade de sobrevivência às agressões urbanas.

Uma eficaz poda de formação pretende produzir um fuste sólido, definir a altura definitiva da coroa e definir uma boa estrutura primária dos indivíduos adaptando-a a eventuais constrangimentos do meio envolvente.

Este trabalho exige conhecimentos técnicos específicos, quer sobre a fisiologia e anatomia das árvores, quer sobre as especificidades de cada espécie arbórea, o que condiciona a resposta às podas aplicadas, já que a poda de formação influencia e condiciona a árvores fisiologicamente, sobretudo no seu equilíbrio hormonal, na forma de acumulação de reservas e na sua resistência a problemas fitossanitários.

A poda de formação bem executada e devidamente planeada é o suporte de futuras árvores de qualidade, menor investimento em manutenção no estado adulto e melhores serviços de ecossistema produzidos por esta importante componente estruturante dos espaços urbanos que são as árvores.



RISK4TREE®: Plataforma multicritério com apoio de Inteligência Artificial para avaliação do risco do arvoredo urbano

Luís Miguel Martins1, Jorge Santos2, Joana Silva2

1: UTAD, CITAB, Tee Plus, Vila Real; 2: Tree Plus, UTAD, Vila Real

As entidades gestoras do arvoredo urbano enfrentam desafios crescentes associados a inventários incompletos ou desatualizados, informação dispersa e critérios heterogéneos de avaliação do risco. Estas limitações dificultam o planeamento ou priorização de intervenções, nomeadamente podas, tratamentos fitossanitários, monitorização especializada ou abates. A organização dos dados, mesmo assente em Sistemas de Informação Geográfica, indispensáveis para a gestão espacial do arvoredo, não responde à avaliação estruturada e rastreável do risco.

Este trabalho apresenta o desenvolvimento do modelo multicritério RISK4TREE®, destinado à avaliação do risco do arvoredo urbano sobre pessoas e bens, concebido para integração em plataforma digital. O modelo baseou-se n análise das avaliações técnicas realizadas entre 2018 e 2026, abrangendo mais de 40 000 árvores urbanas. A análise dos dados recolhidos evidenciou a necessidade de normalizar e estruturar a informação, seguindo critérios técnicos explícitos, para proporcionar consistência, transparência e rastreabilidade.

A base de dados consolidada foi um suporte essencial para a identificação de padrões associados a variáveis quantitativas e qualitativas. A probabilidade de falha estrutural (PFE), um dos componentes fundamentais da quantificação do risco, não é diretamente mensurável, sendo quase sempre estimada com base no juízo técnico. Esta estimativa mantém algum grau de subjetividade, mesmo quando são utilizados meios complementares de diagnóstico, como a resistografia, tomografia ou testes de tração.

A análise das avaliações efetuadas evidenciou que a condição fitossanitária não apresenta relação direta com o nível de risco. Assim, o modelo integra na estimativa da PFE um conjunto de subfatores observáveis, incluindo características dendrométricas, fatores de predisposição, fatores de indução, sintomas, sinais e identificação do órgão com maior probabilidade de falha. Defeitos estruturalmente relevantes podem corresponder a níveis baixos de risco se os exemplares estão em áreas sem exposição relevante a alvos (pessoas ou bens). Em sentido inverso, árvores aparentemente saudáveis, mas com danos estruturais localizados e elevada exposição a alvos vulneráveis, podem justificar intervenção prioritária.

Neste contexto, o RISK4TREE® assenta numa estrutura multicritério materializada numa matriz de risco, integrando a PFE e respetiva consequência, suportada por dados observáveis e ponderações normalizadas. A arquitetura metodológica integra registos periódicos de cada árvore, análise de imagens, cálculo assistido, normalização dos critérios e rastreabilidade das avaliações. Esta abordagem estabelece uma base metodológica para uma avaliação do risco do arvoredo urbano que se pretende robusta, consistente, transparente e fundamentada, criando igualmente as condições necessárias para a futura integração de técnicas de Inteligência Artificial no apoio à decisão.



Fungos de podridão do lenho como indicadores de risco e resiliência na floresta urbana: evidência de longo prazo na cidade de Lisboa

Ana Paula Ramos1,2, Filipa Maia2, Tatiana Valada3, Ana Júlia Francisco3

1: LEAF-Linking Landscape, Environment, Agriculture and Food Research Centre, Associated Laboratory TERRA, Instituto Superior de Agronomia, Universidade de Lisboa, Lisboa, Portugal; 2: Laboratório de Patologia Vegetal “Veríssimo de Almeida”, Instituto Superior de Agronomia, Universidade de Lisboa, Lisboa, Portugal; 3: Departamento de Estrutura Verde, Câmara Municipal de Lisboa, Lisboa, Portugal

A estabilidade das árvores urbanas é frequentemente assumida, mas raramente questionada até ao momento da rutura. Em contexto urbano, marcado pelo envelhecimento do arvoredo e por stress ambiental crescente, os fungos de podridão do lenho emergem como um dos principais fatores de perda de estabilidade mecânica, assumindo um papel determinante como indicadores de risco e do funcionamento da floresta urbana em contexto de stress.

Embora sejam elementos estruturantes das cidades contemporâneas, as árvores urbanas estão expostas a stress ambiental e a condições antrópicas cumulativas, que as predispõem à ação de agentes patogénicos. Entre estes, destacam-se os fungos basidiomicetas associados à podridão do lenho, cuja presença pode comprometer a integridade estrutural e aumentar o risco de rutura. O presente trabalho teve como objetivo avaliar o papel destes fungos como indicadores de risco e apoiar o desenvolvimento de estratégias de gestão preventivas e orientadas para a resiliência da floresta urbana.

O trabalho baseia-se na análise de dados recolhidos de forma continuada desde 2002 na cidade de Lisboa, permitindo integrar uma perspetiva temporal consistente.

Ao longo deste período foram analisadas cerca de 1500 amostras, incluindo basidiomas e lenho degradado, recolhidas de forma sistemática, tendo-se procedido ao isolamento e identificação dos fungos com base em características morfológicas, culturais e moleculares.

Entre os principais agentes detetados destacam-se Inonotus rickii, Ganoderma adspersum e G. resinaceum, cuja ocorrência se revelou persistente ao longo do tempo. A análise filogenética evidenciou reduzida variabilidade genética intraespecífica nas populações analisadas.

As árvores amostradas foram sujeitas a avaliação visual de risco (Visual Tree Assessment – VTA), complementada, em alguns casos, por análise instrumental com resistógrafo e/ou tomógrafo de impulso. Esta abordagem permitiu relacionar a presença dos fungos com padrões de perda de estabilidade estrutural. Os resultados demonstram um impacto significativo na estabilidade mecânica das árvores hospedeiras, em particular em Celtis australis, Tilia spp. e Populus spp., onde se observam padrões recorrentes de rutura de ramos ou redução da estabilidade mecânica do tronco. A evolução temporal da incidência sugere a influência de fatores como a idade do arvoredo, condições ambientais e práticas de gestão.

A análise da distribuição espacial dos fungos, considerando conjuntamente as espécies hospedeiras e a tipologia dos espaços verdes, permitiu identificar áreas de maior vulnerabilidade, evidenciando que a ocorrência de podridões do lenho não é aleatória, mas reflete padrões de stress e condições específicas do ecossistema urbano.

Com base nos resultados, propõe-se um conjunto de estratégias de gestão que integra a monitorização do estado fitossanitário, a melhoria das condições edáficas, o uso de métodos de proteção biológica e a diversificação da composição específica do coberto arbóreo. Tais diretrizes visam reduzir o risco de rutura e reforçar a capacidade adaptativa do sistema arbóreo urbano.

No seu conjunto, o estudo evidencia que os fungos de podridão devem ser entendidos não apenas como agentes de degradação, mas também como indicadores do estado funcional da floresta urbana, contribuindo para cidades mais seguras e sustentáveis, através de uma gestão do arvoredo assente na compreensão integrada dos processos ecológicos e estruturais que determinam a sua estabilidade.



Tecnologia Ynject GO

José Miguel Costa1, José Andrés Salas2

1: Natureza Verde Jardins, Lda, Portugal; 2: Fertinyect, S L

Introdução: A endoterapia afirma-se como uma alternativa altamente eficiente aos tratamentos fitossanitários convencionais por pulverização. Este trabalho apresenta a tecnologia Ynject GO, um sistema patenteado de injeção direta no fluxo vascular de árvores e palmeiras, desenvolvido para otimizar a translocação de formulações com deriva zero para o ambiente.

Objetivos: Avaliar a eficiência técnica, a segurança operacional e os benefícios ecológicos do sistema Ynject GO no controlo integrado de pragas urbanas e florestais, com foco na processionária do pinheiro, nos afídeos nas folhosas, no escaravelho-vermelho das palmeiras, entre outros.

Metodologia e Princípios Tecnológicos: O dispositivo baseia-se na sinergia entre duas inovações patenteadas:

  1. Tecnologia Ynject: Cápsula elástica pressurizada (<4 bar) com válvula auto-selante. Garante uma injeção a pressão constante e de alto volume, permitindo a diluição e uniformização de fitossanitários sem causar fitotoxicidade ou sobrepressão no xilema.
  2. Tecnologia GO: Formulação veiculante que acelera a velocidade de absorção foliar e vascular, permitindo a remoção do dispositivo poucos minutos após a aplicação.

O sistema utiliza conectores de diâmetro reduzido adaptados ao hospedeiro: Folhosas (5 mm), Pinheiros (6,5 mm) e Palmeiras (6 mm) (p. 3). O procedimento exige uma perfuração de 3-5 cm no tronco, fixação do conector por martelagem para garantir estanquicidade (criando uma câmara de absorção) e o acoplamento por rotação do dispositivo.

Resultados e Discussão (Foco em Pragas Críticas):

  • Controlo de Thaumetopoea pityocampa (Processionária do Pinheiro) e de Afideos nas folhosas: Através do Ynject GO Pinus e Ynject Go Folhosas, o sistema demonstrou uma eficácia singular ao exigir uma única aplicação anual para o controlo total das pragas. A injeção realizada na base do tronco (ou a 1-1,5 m das pernadas) distribui o princípio ativo uniformemente pela copa, eliminando as lagartas antes da formação dos ninhos, e os afídeos. Este método anula o impacto ambiental, protege a fauna auxiliar e os utilizadores dos espaços verdes.
  • Controlo de Rhynchophorus ferrugineus (Escaravelho Vermelho): Utilizando o Ynject GO Palmera, a tecnologia provou ser a proteção mais vital contra esta praga altamente destrutiva. A aplicação é efetuada de forma prática à altura do operador (respeitando 1-1,5 m de distância da coroa). Para evitar a comunicação entre orifícios, as injeções são distribuídas em alturas alternadas. A ação penetrante nos feixes xilemáticos garante que o inseticida atinja o núcleo meristemático da palmeira, onde as larvas se alimentam, travando o colapso da planta.

Operacionalmente, o rendimento supera as 100 árvores/dia por operador. Após a absorção e remoção do conector, o orifício livre permite uma rápida compartimentação celular pela planta.

Conclusões: A tecnologia Ynject GO valida o conceito de sustentabilidade na gestão do arvoredo urbano através da Gestão Integrada de Pragas (GIP). O sistema reduz drasticamente o volume de químicos, a quantidade de água necessária, e elimina riscos operacionais com dispositivos reutilizáveis, consolida-se como uma solução económica, ecológica e de alta performance fitossanitária.



Floresta urbana: Avaliação fitossanitária na erradicação e controlo de Rhynchophorus ferrugineus na cidade da ilha do Porto Santo

Natália Nunes1, Luis Miguel Martins2, Leónia Nunes3, Miguel Costa4, José Adriano Andrade1, Francisco Castro Rego3

1: Instituto das Florestas e Conservação da Natureza, IP-RAM, Quinta Vila Passos, 9054-505 Funchal, Portugal; 2: Centro de Ecologia Aplicada "Prof. Baeta Neves", Instituto Superior de Agronomia, Universidade de Lisboa, Tapada da Ajuda 1349-017 Lisboa, Portugal; 3: Universidade de Trás-os-Montes e Alto Douro, UTAD, Quinta de Prados, 5000-801 Vila Real, Portugal; 4: Natureza Verde, Rua das Flores, 14, 4770-573, S. Cosme do Vale, Vila Nova de Famalição, Portugal

As palmeiras-das-Canárias (Phoenix canariensis Chabaud) desempenham um papel central nas áreas públicas da ilha do Porto Santo. Acima de tudo, representam um valor emocional associado à imagem histórica que a comunidade construiu sobre os seus espaços. Em 1827, na obra do reverendo James Bulwer, «Views in the Madeiras», a imagem de uma palmeira alta marcava a paisagem. No final de 2023, porém, numa zona onde a vegetação já é escassa devido às condições ambientais, foi detetada a presença de um escaravelho que representa uma séria ameaça ao património botânico da ilha.

Este estudo centra-se na avaliação fitossanitária e na georreferenciação das palmeiras-das-Canárias na Ilha do Porto Santo, na sequência da deteção do escaravelho vermelho da palmeira (Rhynchophorus ferrugineus Olivier), baseado num total de 1164 palmeiras distribuídas por 22 zonas de tratamento foram inventariadas e avaliadas em termos de estado de saúde, localização geográfica e parâmetros dendrométricos, tendo sido submetidas a várias estratégias de mitigação. As intervenções incluíram endoterapia com acetamipride, a utilização de armadilhas de feromonas e, em casos irreversíveis, o abate e a incineração das árvores infestadas.

Resultados: Foram removidas dezasseis palmeiras, principalmente devido à sua altura ou deterioração avançada. O estudo apresenta também uma avaliação económica e cultural das palmeiras, utilizando fatores históricos e relacionados com o turismo e aplicando a Norma de Granada, que estima o seu valor total em aproximadamente 2,7 milhões de euros.

Os resultados apoiam a necessidade de um programa de controlo integrado contínuo, com medidas preventivas, tais como a proibição da poda de folhas verdes, e ações corretivas bem monitorizadas. Dado o potencial impacto da perda de palmeiras no turismo e na paisagem icónica do Porto Santo, a preservação desta espécie emblemática requer intervenções sustentadas e baseadas em evidências.



A certificação de Árvores Fora da Floresta no âmbito da NP4406:2022: enquadramento, relevância ecológica e aplicação no sistema PEFC

Raquel Martinho, Paula Salazar

PEFC PORTUGAL, Portugal

As Árvores Fora da Floresta, presentes em sistemas agrícolas, alamedas, cortinas de abrigo, galerias ripícolas, corredores verdes, pequenos bosquetes e espaços urbanos, desempenham funções ecológicas e socioeconómicas de elevada relevância, embora frequentemente permaneçam subvalorizadas nos instrumentos convencionais de planeamento, gestão e certificação. Em Portugal, estas árvores assumem particular importância na estruturação da paisagem, na regulação ecológica e no reforço da resiliência territorial, quer em meio rural quer em contexto urbano.

A versão de 2022 da Norma Portuguesa NP 4406, aplicável à certificação da Gestão Florestal Sustentável PEFC, veio introduzir, através do Anexo C, um enquadramento específico para a certificação das Árvores Fora da Floresta. Publicada pelo IPQ em 16 de maio de 2022 e com reconhecimento internacional desde 3 de novembro de 2023, esta solução representa um avanço significativo ao adaptar os princípios da gestão florestal sustentável a formações arbóreas localizadas em contextos agrícolas, urbanos e de interface, criando um referencial robusto, auditável e operacional para recursos até aqui insuficientemente reconhecidos.

A presente comunicação propõe assim analisar a nova norma para a promoção e proteção destas árvores com elevada importância ecológica. Em paisagens agrícolas estas árvores constituem elementos estruturantes da infraestrutura ecológica, favorecendo a conectividade entre habitats, a proteção do solo contra a erosão, a regulação do ciclo hidrológico, a criação de sombra e abrigo, e o suporte a comunidades de polinizadores, aves e outros organismos auxiliares. Em territórios fragmentados, desempenham ainda um papel essencial na manutenção da funcionalidade ecológica.

No caso do arvoredo urbano, a certificação PEFC das Árvores Fora da Floresta oferece uma oportunidade particularmente relevante para reconhecer e valorizar a árvore como elemento de ligação entre a natureza e a sociedade. Para além da sua função paisagística e cultural, o arvoredo urbano contribui para a redução do efeito de ilha de calor, para a melhoria da qualidade do ar, para a retenção e infiltração de água, para o sequestro de carbono, para o aumento do conforto térmico, promoção da saúde e bem-estar das populações. A certificação pode, neste domínio, reforçar a qualidade da gestão, a garantia das boas práticas, a consistência técnica dos critérios de manutenção e proteção, e a credibilidade das políticas municipais de sustentabilidade e adaptação climática, demonstrada de uma forma internacionalmente reconhecida (marca PEFC), a liderança de uma gestão responsável.

A apresentação sintetizará o Anexo C da NP 4406:2022 como elementos essenciais para uma ferramenta de trabalho fiável e reconhecida (ex: requisitos de planeamento, manutenção e conversão, proteção da biodiversidade, monitorização).

 
14:30a16:00Simpósio 11 - O pinheiro-bravo e os eventos meteorológicos extremos
Localização: Sala A1.13
Moderação/coordenação de sessão: Nuno Calado
Moderação/coordenação de sessão: Paula Soares
Moderação/coordenação de sessão: Carine Azevedo
 
Apresentações

Vulnerabilidade do pinheiro bravo a tempestades severas: efeitos dos eventos Gong, Leslie e Kristin nas Matas Nacionais do centro litoral de Portugal

Jorge Cancela1, Ana Pinto1, Margarida Gonçalves1, Rita Gomes1, Rui Ferreira1, Rui Rosmaninho2, Teresa Serra1, Teresa Fonseca3

1: Instituto da Conservação da Natureza e das Florestas, IP. Departamento Regional de Gestão e Valorização da Floresta, Coimbra, Portugal; 2: Instituto da Conservação da Natureza e das Florestas, IP. Departamento de Gestão de Áreas Públicas Florestais, Coimbra, Portugal; 3: Centro de Investigação e Tecnologias Agroambientais e Biológicas (CITAB), Universidade de Trás-os-Montes e Alto Douro, Vila Real, Portugal

As tempestades Gong (2013), Leslie (2018) e Kristin (2026) evidenciam um padrão cumulativo de perturbação nos povoamentos florestais do litoral centro de Portugal, particularmente no corredor costeiro entre a Marinha Grande e a Figueira da Foz. Estes sistemas, dominados por povoamentos puros de pinheiro‑bravo (Pinus pinaster Ait.) instalados em complexos dunares litorais, apresentam elevada homogeneidade estrutural e forte exposição ao vento, fatores que potenciam derrubes em larga escala.

Num período de apenas 13 anos, entre 2013 e 2026, verificou-se a destruição massiva de extensas áreas destes povoamentos de pinheiro-bravo, evidenciando a crescente vulnerabilidade estrutural e ecológica destes ecossistemas florestais face à recorrência de fenómenos meteorológicos extremos. Os danos mais severos concentraram-se nas Matas Nacionais do litoral centro, designadamente na Mata Nacional de Leiria e na Mata Nacional do Casal da Lebre, onde ocorreram extensos derrubes de arvoredo em áreas contínuas de pinhal.

A tempestade Gong (2013), correspondente a uma depressão extratropical atlântica de elevada intensidade, constituiu o primeiro episódio de rutura estrutural significativa, com rajadas superiores a 140 km/h e a queda de dezenas de milhares de árvores. A tempestade Leslie (2018), resultante da transição extratropical de um ciclone tropical, reforçou esta tendência, afetando milhares de hectares com danos moderados a severos e rajadas localmente superiores a 170 km/h. Já a tempestade Kristin (2026), classificada como um evento climático extremo, assumiu um caráter particularmente severo e excecional, traduzido em níveis de destruição generalizada, localmente estimados entre 90 e 100%, em áreas contínuas de pinhal, com derrube de milhões de árvores e ocorrência de rajadas acima de 180–200 km/h.

Considerando o conjunto dos eventos analisados (Gong, Leslie e Kristin), evidencia-se uma clara gradação espacial da severidade dos danos, com um núcleo de máxima intensidade na Mata Nacional de Leiria e em unidades florestais adjacentes, diminuindo progressivamente para norte ao longo da faixa litoral (Quiaios-Figueira da Foz) e para o interior do País, onde os impactes se apresentam mais dispersos e descontínuos. A recorrência destes eventos extremos evidencia a fragilidade dos povoamentos monoespecíficos em contextos dunares expostos e sublinha a necessidade de estratégias de gestão adaptativa orientadas para o reforço da resiliência. Neste trabalho apresentam-se os dados relativos ao arvoredo danificado em cada evento, quanto ao número estimado de árvores afetadas e aos volumes correspondentes, bem como a cartografia detalhada das áreas impactadas. A análise comparativa da intensidade, extensão espacial e padrões de dano permitirá contribuir para uma melhor compreensão da vulnerabilidade destes sistemas florestais e para a definição de estratégias de gestão adaptativa e de reforço da resiliência em ecossistemas florestais vulneráveis sujeitos a perturbações climáticas extremas. Os resultados evidenciam também a importância de implementar uma base nacional de registo de danos, assente no catálogo já desenvolvido para Portugal (REG-TEMP – Registo Nacional de Danos por Tempestades em Povoamentos Florestais), o qual disponibiliza uma estrutura normalizada e compatível com bases de dados internacionais.



Como conseguir pinheiros-bravos mecanicamente estáveis?

Paula Soares

CEF - Centro de Estudos Florestais, Laboratório Associado Terra, Instituto Superior de Agronomia, Tapada da Ajuda, Universidade de Lisboa, Lisboa, Portugal

O pinheiro-bravo (Pinus pinaster Ait.) constitui a espécie resinosa com maior área de ocupação em Portugal Continental. Em janeiro de 2026, a tempestade Kristin - um evento meteorológico extremo caracterizado por ventos intensos e precipitação elevada - provocou a queda e a quebra de um número elevado de árvores, sobretudo na região Centro do país. Com base num ensaio de compassos de pinheiro-bravo instalado em 1994, em Vila Nova de Paiva, analisa-se o efeito da densidade do povoamento no coeficiente de adelgaçamento médio. Este coeficiente, definido como a razão entre a altura total e o diâmetro da árvore, é um indicador relevante da estabilidade e resistência mecânica das árvores, sendo, em geral, valores inferiores a 0.7 associados a árvores mecanicamente estáveis. Analisa-se também o efeito da densidade do povoamento em características da copa, nomeadamente o comprimento e a proporção de copa da árvore. A interpretação destes indicadores apoia-se na revisão de literatura científica obtida a partir de pesquisas com os termos "tree slenderness coefficient" e "height-to-diameter ratio". Com base nos resultados obtidos, são propostas recomendações com vista ao aumento da estabilidade e da resistência dos povoamentos de pinheiro-bravo face a eventos extremos, em particular aqueles associados a ventos fortes.



Serão os pinheiros-amarelos (Pinus taeda) mais resistentes a ventos extremos- observações no ensaio rePlant da Lousã

Nuno Calado1, Paula Soares2

1: Sonae Arauco Portugal SA, Maia, Portugal; 2: CEF - Centro de Estudos Florestais, Laboratório Associado Terra, Instituto Superior de Agronomia, Tapada da Ajuda, Universidade de Lisboa, Lisboa, Portugal

Os resultados preliminares do ensaio RePlant, instalado na Lousã em 2022, indicam que o Pinus taeda apresenta uma aparente maior capacidade de resistência a ventos extremos face a outras espécies do género Pinus. Esta perceção foi particularmente evidente após a passagem da tempestade Kristin, cujo impacto na parcela de Pinus taeda se revelou inferior ao observado noutras espécies testadas, reforçando a perceção do seu potencial de robustez perante eventos meteorológicos extremos.

Estes resultados assumem especial relevância no atual contexto de alterações climáticas, em que a seleção de espécies mais resilientes é determinante para a adaptação e sustentabilidade dos povoamentos florestais. O interesse pelo uso de Pinus taeda encontra paralelo em França, onde a sua utilização esteve diretamente associada à necessidade de recuperação e rearborização após as grandes tempestades de 1999 (Lothar e Martin) e 2009 (Klaus).

Embora os resultados sejam ainda preliminares, o comportamento de Pinus taeda na Lousã sugere potencial para integração em estratégias de diversificação e gestão florestal adaptativa em áreas sujeitas a perturbações severas.



Quando a floresta cai: impactos dos eventos meteorológicos extremos na Fileira do Pinho – o caso da tempestade Kristin

Susana Carneiro, Pedro Teixeira, João Gonçalves

Centro PINUS, Portugal

Os fenómenos meteorológicos extremos constituem uma ameaça crescente para os sistemas florestais. Para além dos impactos diretos nos povoamentos, estes eventos podem provocar perturbações significativas nas cadeias de abastecimento de matéria-prima e no funcionamento das indústrias de base florestal.

A tempestade Kristin, ocorrida em janeiro de 2026, afetou extensas áreas de pinhal-bravo na região Centro de Portugal, incidindo sobre alguns dos principais territórios fornecedores de madeira para a Fileira do Pinho. A ocorrência do evento num contexto já marcado por um défice estrutural de matéria-prima permitiu evidenciar um aparente paradoxo: um aumento súbito da oferta de madeira no curto prazo coexistindo com o agravamento da escassez futura de recurso.

Com base na informação recolhida pelo Centro PINUS, em documentação técnica produzida após este e outros eventos semelhantes e na análise das respostas desenvolvidas pelos diferentes agentes da cadeia de valor, esta comunicação analisa os principais impactos da tempestade sobre a indústria transformadora da madeira de pinho. São discutidos os efeitos ao nível da oferta e procura de matéria-prima, das operações de exploração e transporte, da capacidade de armazenamento, da valorização industrial da madeira e da disponibilidade futura de recurso.

A comunicação procura ainda identificar medidas de adaptação e mecanismos de resposta que contribuam para aumentar a resiliência da Fileira do Pinho perante fenómenos meteorológicos extremos, incluindo estratégias de armazenamento temporário de madeira, gestão do risco fitossanitário, reforço da capacidade logística e mecanismos de resposta coordenada entre proprietários, indústria e administração pública que permitam aumentar a resiliência da Fileira do Pinho perante futuras tempestades.

O caso Kristin demonstra que os fenómenos meteorológicos extremos não afetam apenas a floresta. Afetam igualmente a estabilidade dos mercados, a competitividade industrial e a disponibilidade futura de matéria-prima, tornando necessária uma abordagem integrada da resiliência das fileiras florestais.

 
14:30a16:00T4.4 - A transformação
Localização: Sala A1.14
Moderação/coordenação de sessão: Jorge Cunha
 
Apresentações

Biochar e inovação climática: o caso BCircle na valorização circular da biomassa florestal residual em Portugal

Aline Oliveira1, Dora Miranda1, Margarida Rocheta2, Vítor Pereira1, Ângelo Teixeira3

1: Mota-Engil BCircle; 2: Instituto Superior de Agronomia, Universidade de Lisboa; 3: Cooperativa Agro Rural de Boticas, CAPOLIB

A valorização da biomassa florestal residual (BFR) para produção de biochar permite articular gestão florestal, bioeconomia circular, mitigação climática e inovação industrial. Em Portugal, os materiais resultantes de desbastes, operações silvícolas e gestão de combustíveis representam um desafio técnico e económico, devido aos custos logísticos e à ausência de cadeias de valorização estruturadas. A sua conversão em produtos de base carbónica, estáveis e rastreáveis, permite requalificar este recurso como matéria-prima de maior valor acrescentado.

Este trabalho apresenta o modelo técnico-industrial em desenvolvimento pela Mota-Engil BCircle para produção de biochar a partir de BFR proveniente de operações de gestão ativa realizadas pela CAPOLIB em áreas de baldio, tendo a unidade de Boticas como a primeira central dedicada ao sequestro tecnológico de carbono. O modelo integra a cadeia de valor com base na rastreabilidade da origem, elegibilidade da matéria-prima, eficiência de conversão e estabilidade do carbono no biochar. Considera ainda a ligação a mercados industriais e climáticos, fluxos materiais e energéticos e requisitos técnicos de qualificação do biochar e coprodutos. A cadeia inclui triagem, pré-tratamento, secagem e pirólise em condições limitadas de oxigénio para transformar parte do carbono biogénico em biochar, material sólido com elevado teor de carbono e estabilidade potencial, reduzindo o retorno do carbono à atmosfera face à decomposição, queima ou valorização energética de curta duração.

A solução permite produzir biochar, vinagre de madeira, alcatrão vegetal, gás de síntese e calor recuperável. O modelo apresenta capacidade estimada de 15 kt de biomassa/ano, produção de 2,25 kt de biochar/ano, reaproveitamento de 90% dos gases combustíveis e calor gerado, e potencial de sequestro de 5,6 a 6,7 kt CO₂eq/ano, evidenciando a pirólise como plataforma industrial para valorização material, energética, comercial e climática. A inovação do caso BCircle reside na construção de uma cadeia verificável, capaz de ligar origem florestal, transformação industrial, qualidade do produto e mercados finais. Além da elegibilidade e rastreabilidade da biomassa, a cadeia exige caracterização físico-química do biochar e coprodutos, controlo de contaminantes, aplicações seguras e quantificação do carbono estável.

O financiamento aprovado para a BCircle no âmbito do Plano de Recuperação e Resiliência (PRR) reforça a relevância tecnológica e industrial do modelo e acelera a demonstração e replicação desta infraestrutura tecnológica, relevante para ligar a valorização termoquímica da BFR a setores industriais de elevada intensidade carbónica, como a indústria cimenteira. Ao reduzir barreiras de investimento e apoiar uma cadeia escalável, o PRR aproxima gestão florestal, engenharia de processo, investigação aplicada e procura industrial por soluções de menor pegada climática.

Os resultados estimados para o modelo indicam que a pirólise de BFR pode constituir uma plataforma integrada de valorização, desde que suportada por rastreabilidade, controlo de qualidade e quantificação do carbono estável. O caso BCircle evidencia modelos replicáveis para transformar recursos florestais com valorização ainda limitada em produtos de carbono verificáveis, contribuindo para a modernização da bioeconomia florestal, a redução dos riscos associados à acumulação de BFR e a descarbonização industrial em Portugal.



DendroSYS – Sistema de Monitorização de Crescimento em Árvores e Frutos: aplicação ao Pinus pinea

José P. Lousado1, Francisco Marques2, Dulcineia F. Wessel2, Helder Viana2

1: CISeD Research Centre in Digital Services, Polytechnic Institute of Viseu; 2: CERNAS-IPV – Centro de Estudos de Recursos Naturais, Ambiente e Sociedade, Escola Superior Agrária do Instituto Politécnico de Viseu

O presente trabalho apresenta o desenvolvimento de um sistema de monitorização do crescimento vegetal baseado num dendrómetro de baixo custo, concebido para a aquisição contínua de dados biométricos em árvores e frutos. A solução integra um microcontrolador ESP32, responsável pelo processamento e comunicação dos dados, um sensor DHT22 para monitorização da temperatura e humidade relativa do ar e um potenciómetro de 10 kΩ adaptado para detetar variações dimensionais associadas ao crescimento vegetal.

O principal objetivo consiste na criação de uma ferramenta simples, acessível e eficaz para acompanhar o desenvolvimento das plantas ao longo do tempo, sem interferir com o seu crescimento natural. O sistema realiza a recolha automática de dados biométricos e ambientais, transmitindo-os para uma plataforma web onde ficam armazenados e disponíveis para consulta e análise. A comunicação pode ser efetuada remotamente por Wi-Fi ou localmente por Bluetooth, permitindo a ligação a uma aplicação móvel desenvolvida para visualização em tempo real, configuração do dispositivo e validação do seu funcionamento em campo.

A coexistência de comunicação local e remota confere elevada flexibilidade operacional, possibilitando a utilização da solução em diferentes contextos de monitorização. O trabalho contempla ainda a calibração do sensor de deslocamento, permitindo converter os sinais analógicos em unidades físicas de crescimento com maior rigor e fiabilidade.

A solução proposta demonstra o potencial da Internet das Coisas (IoT) aplicada à agricultura e silvicultura de precisão, disponibilizando uma alternativa económica para a monitorização contínua do crescimento vegetal. Atualmente, o sistema encontra-se em fase de implementação na monitorização do crescimento do pinheiro-manso (Pinus pinea) e da respetiva pinha, visando melhorar o conhecimento da dinâmica de desenvolvimento deste fruto e da sua relação com as condições ambientais. Com adaptações de calibração, a tecnologia poderá igualmente ser aplicada à monitorização de outros frutos de crescimento sazonal, constituindo uma base promissora para futuras ferramentas de apoio à decisão e investigação.

Agradecimentos: Este trabalho foi financiado pelo CERNAS (UID/00681/2025), pela FCT, pelo projeto FRUCTHOR-IA Interreg Sudoe (S2/1.1/E0170), contando ainda com o apoio da A4P – Associação Portuguesa de Produtores de Pinus pinea e dos produtores envolvidos no estudo.



In vitro propagation and conservation of Quercus canariensis Willd.: one of the most endangered tree species in Portugal

José Carlos Gonçalves1,2, Joana Domingues1, Anabela Eira1, Alice Almeida1, Carmen Correia3,4, Nuno Rico3,4, Carlos Vila-Viçosa5,6,7, Iuri Frias7, João Gonçalves5,6,8, Herlander Azevedo5,6,9

1: CBPBI - Centro de Biotecnologia de Plantas da Beira Interior, Portugal; 2: CERNAS-IPCB - Centro de Estudos em Recursos Naturais, Ambiente e Sociedade; 3: The Navigator Company, Portugal; 4: Viveiros Aliança, Herdade da Espirra, Pegões, Portugal; 5: CIBIO - Research Center in Biodiversity and Genetic Resources)—InBIO (Research Network in Biodiversity and Evolutionary Biology), University of Porto. Campus Agrário de Vairão, Vairão; Portugal; 6: BIOPOLIS - Program in Genomics, Biodiversity and Land Planning. Campus de Vairão, Vairão, Portugal; 7: MHNC-UP - Museu de História Natural e da Ciência da Universidade do Porto – Herbário PO, Universidade do Porto, Porto, Portugal; 8: proMetheus - Research Unit in Materials, Energy and Environment for Sustainability, Instituto Politécnico de Viana do Castelo, Viana do Castelo, Portugal; 9: Departamento de Biologia, Faculdade de Ciências, Universidade do Porto. Porto, Portugal

Quercus canariensis is a rare tree on the Iberian Peninsula whose distribution in Portugal is restricted to the Monchique mountains and the surrounding area. It is currently with the status of Critically Endangered (CR) according to the Red List of the Flora of Portugal and it is estimated that only 250 adult individuals are concentrated in that area. Considering the potential of in vitro systems to propagate and preserve plant material, a micropropagation protocol and a slow growth conservation experiment were developed. The establishment was done from seedlings, collected in Monchique mountains (37.317406 -8.543396). Following the establishment for shoot multiplication experiments, basal WPM medium was used, supplemented with different concentrations of benzylaminopurine. In these experiments, shoot tips and axillary buds were tested as explants. At this stage, the best results for both types of explants, were obtained using 1 mg/L BAP, with 2.3 as an average number of new shoots, with an average length of 23.9 mm for the shoot tips, and 2.6 as an average number of shoots with an average length of 22.0 mm for the nodal buds. Rooting was tested under both in vitro and ex vitro conditions, with the best results being obtained in vitro, using 3 mg/L IBA for 7 days, yielding a 92% rooting rate, 4.3 roots per shoot, with an average root length of 49.4 mm. The acclimatisation took place, initially, in polystyrene boxes, filled with peat, under controlled temperature, humidity and light conditions, and subsequently in an acclimatisation tunnel to an final ambient humidity of 50–60% during six weeks, with 85% of survival. In the slow growth conservation trials, different treatment times were tested, and viable explants were obtained after one year of cold storage.

As far as we know, this is the first protocol for the in vitro micropropagation and conservation of Q. canariensis, and we believe it could make an important contribution to the conservation of this endangered species



Efeitos da aplicação superficial de emendas orgânicas nas propriedades físicas e químicas de Leptossolos em áreas florestais

Fernanda Roverato Moura, Lucca Mossio, Israel Santos, Felícia Fonseca

CIMO, LA SusTEC, Instituto Politécnico de Bragança, Campus de Santa Apolónia, 5300-253 Bragança, Portugal

A degradação dos solos florestais mediterrânicos constitui um dos principais desafios ambientais da atualidade, sendo os Leptossolos particularmente vulneráveis devido à sua reduzida espessura, elevado teor de elementos grosseiros e baixos teores de matéria orgânica. A aplicação de emendas orgânicas tem sido proposta como estratégia de restauro ecológico capaz de melhorar a qualidade do solo e promover o estabelecimento de vegetação em áreas degradadas. Contudo, ainda existe informação limitada sobre os efeitos de curto prazo destas emendas em Leptossolos mediterrânicos. O presente estudo avaliou os efeitos de três tipos de emendas orgânicas, nomeadamente resíduos verdes (RV), composto estabilizado (CE) e estrume de burro (EB), aplicadas superficialmente, sem incorporação, em duas doses (5 e 10 Mg ha⁻¹), nas propriedades físicas e químicas de um Leptossolo mediterrânico, um ano após a sua aplicação em condições de campo. Partiu-se da hipótese de que as emendas orgânicas promovem melhorias mais rápidas nas propriedades químicas do solo do que nas propriedades físicas.

Foram avaliadas propriedades físicas relacionadas com a estrutura e retenção de água no solo, incluindo densidade aparente, permeabilidade, porosidade total, macroporosidade, microporosidade, capacidade de campo e densidade das partículas. As propriedades químicas analisadas compreenderam o carbono orgânico do solo, matéria orgânica, azoto total, fósforo e potássio extraíveis e pH. As amostras foram recolhidas em três profundidades: 0–5 cm, 5–10 cm e 10–20 cm.

Os resultados demonstraram que, ao fim de um ano, as emendas orgânicas não produziram diferenças estatisticamente significativas (p > 0,05) nas propriedades físicas do solo, o que é consistente com o carácter lento dos processos de reestruturação física, especialmente em Leptossolos pouco profundos e com elevada pedregosidade. Em contraste, foram observadas diferenças significativas nas propriedades químicas da camada superficial (0–5 cm), onde os tratamentos EB5, CE10 e EB10 apresentaram os maiores incrementos de matéria orgânica, azoto total, fósforo e potássio extraíveis, bem como valores de pH mais elevados. Os efeitos das emendas diminuíram com a profundidade, refletindo a sua aplicação superficial sem incorporação.

O estrume de burro (EB) e o composto estabilizado (CE) revelaram-se as emendas mais eficazes na melhoria da fertilidade química superficial, o que poderá estar associado à sua menor razão C/N e à maior disponibilidade de nutrientes resultante da decomposição da matéria orgânica. Os resíduos verdes (RV) apresentaram respostas mais moderadas, possivelmente relacionadas com a sua elevada razão C/N, frequentemente associada a uma menor disponibilidade inicial de azoto. Estes resultados sugerem que a aplicação de emendas orgânicas constitui uma estratégia promissora para a recuperação da fertilidade de Leptossolos degradados, com benefícios mensuráveis na fertilidade química do solo ao fim de um ano e podendo contribuir para melhorias físicas do solo a médio e longo prazo.



Uso de Tecnossolos na recuperação de funções ambientais e produtivas de solos em áreas ardidas da montanha mediterrânea

Rafaela Oliveira Gomes1, Israel Santos2, Tomás de Figueiredo2, Maurício Santos3, Felícia Fonseca2

1: Instituto Politécnico de Bragança, Campus de Santa Apolónia, 5300-253 Bragança, Portugal; 2: CIMO, LA SusTEC, Instituto Politécnico de Bragança, Campus de Santa Apolónia, 5300-253 Bragança, Portugal; 3: Universidade Tecnológica Federal do Paraná, Campus Londrina, Departamento Acadêmico de Engenharia Ambiental

O solo desempenha funções essenciais na manutenção dos ecossistemas terrestres, participando da ciclagem de nutrientes, regulação do ciclo hidrológico, armazenamento de carbono e suporte à biodiversidade. Em regiões mediterrânicas, os incêndios florestais podem provocar alterações significativas nas propriedades físicas e químicas do solo, comprometendo a sua capacidade funcional. Por outro lado, a utilização de condicionadores do solo tem demonstrado potencial para acelerar os processos de recuperação pós-fogo e mitigar os efeitos da degradação. Partiu-se da hipótese de que a aplicação de Tecnossolo promove melhorias duradouras nas propriedades físicas e químicas do solo, contribuindo para a recuperação das suas funções ecológicas após o fogo.

Neste contexto, o presente estudo teve como objetivo avaliar os efeitos da aplicação de Tecnossolo nas propriedades físicas e químicas do solo de uma área submetida a fogo controlado no Parque Natural de Montesinho. Este trabalho reveste-se de particular relevância por corresponder a uma aplicação pioneira de Tecnossolos em áreas ardidas em Portugal, constituindo uma abordagem inovadora para a recuperação pós-fogo e para a valorização sustentável de resíduos orgânicos e minerais. Após a realização do fogo controlado e a aplicação do Tecnossolo, foram consideradas duas condições experimentais: Solo sem Tecnossolo (STS) e Solo com Tecnossolo (CTS). Foram definidos cinco pontos de amostragem em cada tratamento, sendo recolhidas amostras perturbadas e não perturbadas nas profundidades de 0–3, 3–6, 6–10 e 10–20 cm. O Tecnossolo foi aplicado em junho de 2021 e as amostras de solo foram colhidas em março de 2025, aproximadamente 45 meses após a aplicação.

Os resultados demonstraram que a aplicação de Tecnossolo promoveu alterações significativas em diversos indicadores de qualidade do solo. Observou-se aumento do pH e consequente redução da acidez nas camadas superficiais, com efeitos detetados até 20 cm de profundidade. Os teores de fósforo e potássio extraíveis foram superiores nas áreas tratadas, o que reflete um aumento da fertilidade química do solo. Em contrapartida, os teores de matéria orgânica e de azoto total não apresentaram diferenças significativas entre os tratamentos. Relativamente às propriedades físicas, verificou-se diminuição da densidade aparente, aumento da porosidade total, melhoria da estabilidade dos agregados e incremento da permeabilidade do solo. Adicionalmente, observaram-se aumentos na capacidade máxima do solo para água e na capacidade de campo, indicando maior retenção e disponibilidade hídrica para as plantas. Estes resultados evidenciam uma melhoria da estrutura do solo, favorecendo a infiltração de água, o arejamento e a recuperação das funções edáficas após a perturbação causada pelo fogo.

Conclui-se que a aplicação de Tecnossolos constitui uma técnica promissora para a recuperação de áreas ardidas em ambientes mediterrânicos, contribuindo para a melhoria da fertilidade química, da disponibilidade de água e da qualidade estrutural do solo. A utilização deste tipo de material poderá criar condições mais favoráveis à recuperação dos ecossistemas florestais afetados pelo fogo, constituindo, simultaneamente, uma solução sustentável para a valorização de resíduos orgânicos e minerais.



Valorização de subprodutos da cadeia de valor da floresta na construção de estradas florestais – contribuições do projeto Roads4Forest

Maria Teresa Silva1, Margarida Lopes2, Joaquim Macedo2, David Carlos2, Sebastian Preiswerk1, Olavio Cafofo3

1: Navigator Forest Portugal, Portugal; 2: Universidade de Aveiro; 3: Megavia

The Portuguese forest is strategic for the economy, the environment, and society. An adequate network of forest roads is essential for forest management, the transport of its products, and fire fighting. However, the design and construction of forest roads in Portugal lacks an up-to-date technical reference framework. This is aggravated by the fact that many of these roads are uncovered and subject to severe mechanical maneuvers (for example, due to heavy forestry vehicle traffic) and demanding environmental conditions. This poses additional challenges in terms of structural performance, durability, and maintenance.

European guidelines promote the circular economy and the valorization of waste. In the forestry sector and the pulp and paper industry, energy production in biomass boilers and other industrial processes generates significant amounts of by-products, the management of which represents both an environmental challenge and an opportunity for valorization. Their incorporation into civil engineering solutions can contribute to reducing the consumption of natural resources, mitigating environmental impacts associated with aggregate protection, and decreasing the landfilling of generated waste.

The ultimate goal of this project is to improve the design and construction of forest roads using solutions that promote a circular economy. These roads are essential infrastructure for accessing the forest for different purposes (management, maintenance, timber extraction, firefighting and control, recreation). The use of by-products from the forest value chain in the construction of forest roads is an important circular economy practice, encouraged under the EU's ‘end-of-waste’ strategy. The Roads4Forest project, which includes laboratory tests to characterise the different materials, element tests, real-scale physical tests and the construction of an experimental section on site, complemented by numerical modelling of different solutions.

As a result of the project, it has been compiled a Forest Roads Manual that emerges as a technical and operational tool designed to support the planning, construction, and maintenance of the forest road network in Portugal. The manual brings together guidelines adapted to the national reality, promoting the operational efficiency of the territory, fire prevention, and the modernization of forestry operations, intended to local authorities, entities and forestry producers.

The publication of the Forest Roads Manual aims to establish itself as a technical reference in sustainable forest management in Portugal and to project good practices internationally.

 
14:30a16:00T2.5 - Os desafios
Localização: Sala H1.17
Moderação/coordenação de sessão: M. Alice Pinto
 
Apresentações

Gestão integrada de surtos de Lymantria dispar na Quinta do Pisão, em Cascais: aplicação de controlo biológico e biotécnico, fogo controlado e promoção da biodiversidade funcional

Filipa Machado, David Belo, Marlene Marques, Diogo Rama da Silva, José Romana, João Cardoso de Melo

Cascais Ambiente, Portugal

As alterações climáticas têm potenciado o desequilíbrio dinâmico dos ecossistemas mediterrânicos, aumentando a suscetibilidade a perturbações bióticas e episódios de pragas severos. A Quinta do Pisão é um Parque de Natureza inserido no Parque Natural de Sintra-Cascais, concelho de Cascais, aberto a visitação e atividades de recreio e com gestão para fins de conservação, restauro ecológico e redução risco de incêndio rural. Em 2019 detetou-se um foco eruptivo de lagarta-do-sobreiro (Lymantria dispar L.) numa área de 22 ha dominada por carrasco (Quercus coccifera), zambujeiro (Olea europaea var sylvestris) e carvalho-cerquinho (Quercus faginea). Esta praga desfolhadora origina surtos eruptivos cíclicos com graves impactos ecológicos e económicos e riscos para a saúde pública. Esta situação é agravada em áreas periurbanas devido à elevada visitação e ao risco de dispersão antropocêntrica de crisálidas e de ootecas em viaturas.

Neste âmbito apresenta-se a estratégia de gestão integrada de controlo da praga de L. dispar implementada na Quinta do Pisão, demonstrando como a combinação de medidas de controlo biotécnico e biológico, fogo controlado e de soluções baseadas na natureza apoiam a mitigação de surtos epidémicos severos desta praga.

Face à expansão do surto para 41 ha e à severidade da desfolhação, delineou-se um plano assente em cinco medidas complementares executadas de forma faseada: 1) instalação de bandas adesivas no tronco de carvalhos-cerquinhos e sobreiros; 2) monitorização e captura com 105 armadilhas de feromonas seletivas; 3) aplicação biológica de Bacillus thuringiensis subespécie kurstaki na orla da área afetada, caminhos e viaturas; 4) promoção da biodiversidade funcional através da instalação de 22 caixas-ninho para chapim; e 5) implementação de fogo controlado em 7,2 ha de matos dominados por carrasco. O desempenho foi aferido através de taxas de ocupação, contagem de lagartas e adultos capturados e monitorização pós-fogo da regeneração e persistência da praga.

As bandas adesivas revelaram eficácia circunscrita à proteção individual de quercíneas com porte arbóreo durante a fase larvar. As armadilhas de feromonas demonstraram alta eficácia na monitorização e deteção de adultos de L. dispar, contabilizando a captura seletiva de 1146 machos adultos. Contudo, sem capacidade para impedir a deposição de ootecas pelas fêmeas da população remanescente. A aplicação de B. thuringiensis controlou eficazmente a densidade larvar inicial. Contudo, por afetar outras espécies de lepidópteros e coleópteros, a sua aplicação foi muito localizada, sendo necessário combinar com outras medidas. As caixas-ninho de chapim registaram uma trajetória de sucesso notável, com as taxas de ocupação a evoluir de 50% no primeiro ano para 81%, 86% e 95% nos anos seguintes, revelando ser uma medida efetiva na promoção de predadores naturais. O fogo controlado eliminou por completo a praga na área intervencionada, reduzindo em simultâneo a continuidade da vegetação combustível.

A resposta aos desafios de fitossanidade em áreas protegidas exige uma visão integrada de gestão. Embora cada técnica isoladamente apresente limitações, a articulação combinada entre diferentes medidas e técnicas de fogo controlado provou ser um modelo eficaz de gestão integrada. Esta abordagem reduziu a densidade de L. dispar para níveis de equilíbrio natural, promovendo a resiliência florestal e mitigando o risco de incêndio num território sob forte pressão climática e antrópica.



Da Austrália para Portugal: novos agentes de controlo biológico para a praga desfolhadora de eucaliptos Trachymela sloanei (Blackburn, 1897) (Coleoptera: Chrysomelidae)

Cátia Martins1, Catarina I. Gonçalves1, Ana Raquel Reis2, Manuela Branco3, Pedro Naves4, Carlos Valente1

1: RAIZ - Instituto de Investigação da Floresta e Papel, Portugal; 2: Altri Florestal, Olho Marinho; 3: Instituto Superior de Agronomia, Universidade de Lisboa; 4: Instituto Nacional de Investigação Agrária e Veterinária

A dispersão global de insetos australianos associados aos eucaliptos, a partir da sua região de origem, tem originado importantes problemas fitossanitários em várias regiões do mundo. Nas áreas invadidas, estas espécies beneficiam frequentemente da ausência dos seus inimigos naturais, favorecendo o estabelecimento e o aumento das suas populações. Entre estas espécies destaca-se Trachymela sloanei, um pequeno coleóptero desfolhador, detetado pela primeira vez em Portugal em 2019, e atualmente considerado a principal praga dos eucaliptos no país. Uma vez que não eram conhecidos inimigos naturais eficazes desta espécie, foram realizadas prospeções na sua região de origem, com vista à identificação de potenciais agentes de controlo biológico.

Realizou-se uma prospeção de Trachymela spp. na Austrália, tendo sido encontrados adultos e larvas de T. sloanei em 25 pontos. No total, foram recolhidas cerca 600 larvas, das quais cerca de 180 estavam parasitadas por, pelo menos, três espécies de taquinídeos (Diptera: Tachinidae), ainda não identificados. Os adultos encontrados foram agrupados de acordo com o seu morfotipo para a obtenção de ovos que serviram como armadilhas para parasitoides. Foram colocados em campo cerca de 4000 ovos dos quais 17 foram parasitados por uma espécie do género Neopolycystus (Hymenoptera: Pteromalidae). Todos os parasitoides foram importados para Portugal, onde se encontram atualmente em estudo nas instalações de confinamento do RAIZ.

Após o estabelecimento com sucesso de populações laboratoriais de dois parasitoides das larvas e do parasitoide dos ovos, iniciaram-se estudos referentes à sua identificação bem como aos principais aspetos da sua biologia e estudos de especificidade hospedeira. Dados preliminares indicam um ciclo de vida de cerca de 35 dias para os parasitoides das larvas e de cerca de 20 dias para o parasitoide dos ovos, à temperatura de 20ºC. Os estudos de especificidade hospedeira iniciados com o parasitoide dos ovos, Neopolycystys sp, contam com mais de 15 espécies não-alvo testadas e os resultados obtidos até ao momento parecem indicar que esta espécie é específica para o género Trachymela.

Com base nos resultados obtidos até ao momento, estes novos agentes apresentam elevado potencial para um programa de controlo biológico para T. sloanei.



Infestantes do montado e do sobreiral: casos de estudo em Cambissolos e Leptossolos

João Horta Marques1,2, Anabela Belo1, Emanuel Carreira1, David Lloberas2,3, Paulo Forte4, Teresa Vasconcelos4, João Serrano1

1: MED - Mediterranean Institute for Agriculture, Environment and Development, CHANGE - Global Change and Sustainability Institute, Universidade de Évora, Pólo da Mitra, Ap. 94, 7006-554 Évora.; 2: CEF - Centro de Estudos Florestais; MED - Instituto Mediterrâneo para a Agricultura, Ambiente e Desenvolvimento; 3: INIAV – Instituto Nacional de Investigação Agrária e Veterinária I.P., Quinta do Marquês, Av. da República, Oeiras 2780-159, Portugal.; 4: DISA/NEV – Divisão de Infraestruturas Segurança e Ambiente/Núcleo de Espaços Verdes, Instituto Superior de Agronomia, Universidade de Lisboa, Tapada da Ajuda, 1349-017 Lisboa, Portugal.

As plantas infestantes podem definir-se, segundo o Professor António Mexia, como “plantas fora do sítio”. No contexto dos sistemas agro-silvo-pastoris mediterrânicos, ao associarem-se a uma cultura ou pastagem, acarretam prejuízos económicos ao limitarem a produção real e o potencial genético do sistema. Este trabalho apresenta uma análise botânica e o impacto ecológico destas espécies em dois contextos edáficos distintos: Cambissolos de Montado de azinho (Évora) e Leptossolos de sobreiral (Serra do Caldeirão).

Nos Cambissolos da Herdade da Mitra, foram inventariadas 62 espécies botânicas, evidenciando que a estrutura, gestão e hábitos de pastoreio no Montado influencia diretamente a composição da flora. As áreas de clareira, fora da influência da copa das árvores, apresentam uma carga de infestantes significativamente superior (72,8%) à das zonas sob a copa (36,5%), onde predomina uma flora mais nutritiva. Do ponto de vista botânico, destacam-se espécies como a Oxalis acetosella (azedinha) e o Rumex sp., que comprometem a sanidade do sistema pelo seu elevado teor de ácido oxálico. Este composto atua como um antinutriente, inibindo a absorção de cálcio pelos animais e podendo conduzir a estados de debilidade física no efetivo pecuário. A nível arbóreo a sua influência pode ser negativa pois escretam compostos alelopáticos que limitam a germinação de espécies mais interessantes em termos da melhoria da fertilidade do solo (ex: leguminosas) e, muitas vezes possuem menos micorrizas.

Nos Leptossolos da Serra do Caldeirão, a flora é marcada pela baixa espessura efectiva do solo e pela recorrência de distúrbios como o fogo. Nestes solos delgados, observa-se a dominância de arbustos pirófitos dos géneros Cistus e Ulex, que aumentam a carga de combustível e inibem a regeneração natural. Particular atenção é dada à Urginea maritima (cebola-albarrã), identificada como uma das espécies mais venenosas presentes e sinal de degradação da fertilidade do solo.

Conclui-se que o estudo da herbologia em sistemas florestais auxilia a gestão. O impacto destas espécies transcende a competição por recursos, afetando diretamente a saúde animal e a resiliência do estrato arbóreo, tornando o conhecimento botânico indispensável para o equilíbrio sustentável do sistema. A sua população e grau de cobertura são consequências das operações de silvicultura, pastorícia e agricultura.

Agradecimento aos funcionários do Instituto Superior de Agronomia e da Universidade de Évora que auxiliaram.



Impact of temperature and water stress on the pathogenicity of Bursaphelenchus xylophilus and B. mucronatus in Pinus pinaster and P. pinea

Hugo Silva1, Joana Cardoso1,2, Bruno Manadas3,4, Luís Fonseca1,5

1: Centre for Functional Ecology - Science for People and the Planet, TERRA Associate Laboratory, Department of Life Sciences, University of Coimbra, 3000-456 Coimbra - Portugal; 2: INIAV, I.P., National Institute for Agrarian and Veterinary Research, Oeiras, Portugal; 3: CNC - Center for Neuroscience and Cell Biology, University of Coimbra, Portugal; 4: CIBB - Centre for Innovative Biomedicine and Biotechnology, University of Coimbra, Portugal; 5: FITOLAB - Laboratory for Phytopathology, Instituto Pedro Nunes (IPN), Coimbra, Portugal

Pine wilt disease is an increasing threat to pine forests, particularly under climate change scenarios, where water stress and rising temperatures may increase tree susceptibility to infection by plant-parasitic nematodes. This study evaluates and compares the pathogenicity of the pinewood nematode, Bursaphelenchus xylophilus, and the closely related, generally considered non-pathogenic B. mucronatus in Pinus pinaster and P. pinea under different temperature and water regimes. Two- to three-year-old seedlings of both pine species were inoculated with 3,000 nematodes (B. xylophilus or B. mucronatus) and maintained at two temperatures (25°C or 30°C) and two water regimes (water-stressed or well-watered). Disease symptom progression was monitored for 40 days, and soil water content was recorded throughout the assay. At the end of the experiment, nematodes were extracted from aerial parts and roots and quantified per gram of dry wood. The results showed a clear host-dependent response. Pinus pinea remained symptomless throughout the assay, with low nematode recovery for both nematode species. In contrast, P. pinaster was highly susceptible to B. xylophilus, with symptoms appearing a few days after inoculation and high nematode numbers recovered. Importantly, B. mucronatus also caused symptoms in P. pinaster at 30°C under water-stressed conditions, accompanied by nematode recovery at the end of the assay, indicating that environmental stress can substantially increase its pathogenic impact. These findings highlight the importance of temperature and water availability in modulating nematode pathogenicity and host response. They also suggest that B. mucronatus, despite being generally regarded as a non-pathogenic or weak pathogen, may pose a significant risk for pine forests under climate change conditions. Based on these findings, advanced differential and targeted proteomic analyses are being conducted on Pinus spp. tissues. This will allow the characterisation of the biological functions of differentially expressed proteins under climate change scenarios and identify key biomarkers linked to nematode infection. Research funded by FEDER-Portugal2020, COMPETE2020; FCT projects (PTDC/ASP-SIL/3142/2020; UIDB/04004/2025; UIDB/04539/2020; LA/P/0092/2020); Instituto do Ambiente Tecnologia e Vida. Hugo Silva funded by FCT (PhD Grant-2023.03527.BD-https://doi.org/10.54499/2023.03527.BD).



Contributos para o controlo biológico clássico de Acacia dealbata Link com os crisomelídeos Calomela bartoni, Dicranosterna immaculata e Peltoschema vittata em Portugal: manutenção de populações e estudo dos ciclos de vida

Eduardo José Fernandes Carvalho1, Francisco A. López-Núñez1,2, Hélia Marchante1, Elizabete Marchante2, Catarina Gonçalves3

1: Centro de estudos em Recursos Naturais Ambiente e Sociedade (CERNAS), Universidade Politécnica de Coimbra, Escola Superior Agrária de Coimbra PT, Portugal; 2: Centro de Ecologia Funcional, Laboratório Associado TERRA, Departamento de Ciências da Vida, Universidade de Coimbra, Coimbra, Portugal; 3: RAIZ - Instituto de Investigação da Floresta e Papel, Aveiro, Portugal

A acácia-mimosa (Acacia dealbata Link) é uma das espécies exóticas invasoras lenhosas que causa maiores impactes ecológicos e económicos em Portugal, competindo com a flora nativa e alterando os ecossistemas onde se estabelece. Os métodos de controlo atualmente utilizados para gerir esta espécie têm-se revelado demasiado dispendiosos e exigentes em termos da continuidade necessária para atingir algum sucesso. É essencial explorar alternativas para a gestão da espécie. No âmbito do Plano Nacional para o Controlo Biológico das Plantas Invasoras Lenhosas, o presente trabalho teve como principais objetivos otimizar a manutenção de populações de potenciais agentes de controlo biológico para Acacia dealbata. Duas espécies de crisomelídeos (Peltoschema vittata e Calomela bartoni (Coleoptera: Chrysomelidae), foram mantidas em condições de confinamento, e analisou-se a duração das diferentes fases dos seus ciclos de vida. Estas espécies foram mantidas em quarentena, sob monitorização de condições abióticas (temperatura e humidade) variáveis, com registo da mortalidade observada, de forma a detetar as condições mais favoráveis à sua sobrevivência. O desenvolvimento dos indivíduos foi acompanhado ao longo das diferentes fases de vida (ovo, larva, pupa e adulto), com o registo da duração e sobrevivência em cada fase. Os resultados obtidos permitiram caracterizar o ciclo de vida destas duas espécies de coleópteros e identificar as condições de manutenção para o possível uso futuro destas espécies como agentes de controlo biológico.



Mapeamento automático de plantas exóticas invasoras à escala nacional recorrendo a vários sistemas de deteção remota e aprendizagem computacional

Diogo Duarte1, Hélia Marchante2

1: Instituto de Engenharia de Sistemas e Computadores de Coimbra (INESCC), Portugal; 2: Centro de estudos em Recursos Naturais Ambiente e Sociedade (CERNAS), Universidade Politécnica de Coimbra, Escola Superior Agrária de Coimbra PT, Portugal

A informação pública oficial sobre a localização de plantas exóticas invasoras (PEI) provém de agências nacionais de mapeamento, institutos de conservação florestal e, no caso da Europa, de entidades supranacionais como a Comissão Europeia (CE), através de serviços como o Joint Research Centre (JRC). No entanto, estes dados apresentam ciclos de atualização longos, baixa resolução espacial, descontinuidades geográficas e, geralmente, não fornecem informações específicas por espécie, limitando-se a indicar a presença genérica de PEI. Isso impede a localização precisa e a monitorização das várias espécies, dificultando o planeamento de, entre outras, medidas de mitigação.

A Acacia dealbata Link (mimosa), está presente em Portugal e exibe comportamento invasor. Os mapas disponíveis, produzidos pelo Instituto da Conservação da Natureza e das Florestas (ICNF) ou pela Direção Geral do Território (DGT), também sofrem das limitações indicadas anteriormente, comprometendo a gestão da mimosa.

Atualmente, os sistemas de deteção remota mais utilizados para mapear PEI são veículos aéreos não tripulos (VANT) e imagens de satélite de muito alta resolução (VHR). Embora eficazes à escala local, o mapeamento com VANT em escalas regionais/nacionais é inviável, por outro lado, o custo de aquisição de imagens VHR a nível nacional é proibitivo, especialmente a longo prazo. Poucos estudos exploram o uso de imagens de satélite públicas, como as do Sentinel-2 (Copernicus, CE), que oferecem resolução espacial de 10 m e curto intervalo de revisita (5 a 6 dias). No entanto, esses estudos limitam-se a escalas locais ou regionais. Isso deve-se à redução do desempenho dos modelos de classificação de imagem quando aplicados em paisagens distintas das usadas no seu treino, bem como ao esforço necessário para recolher dados de treino representativos e de qualidade a nível nacional ou transnacional. Esta necessidade de uma grande quantidade de dados de treino e com qualidade é acentuada quando consideramos novas abordagens de aprendizagem profunda ou de transformers de visão.

O projeto MAP.INVADER (Concurso de Projetos de IC&DT em Todos os Domínios Científicos 2023, Fundação para a Ciência e Tecnologia - https://www.mapinvader.pt - 12/2025-12/2028) tem como objetivo desenvolver uma abordagem de segmentação de imagens Sentinel-2 capaz de produzir mapas anuais de mimosa para Portugal Continental.

O objetivo principal do MAP.INVADER é o de utilizar sistemas VANT ou imagens VHR para gerar conjuntos de treino que serão depois utilizados numa abordagem de segmentação de imagem baseada em imagens Sentinel-2. Mitigar o esforço da criação dos dados de treino (delinear manualmente a copa em imagens VHR e VANT) vai ser central neste projecto, tendo em conta a sua aplicação nacional. Para tal, métodos de segmentação de imagem recorrendo a supervisão fraca vão ser desenvolvidos, onde um operador é apresentado com várias imagens de VANT e VHR e apenas tem de indicar se existe ou não a presença de mimosa. O projeto conta também com tarefas relacionadas com 1) as necessidades de possíveis utilizadores finais, entre eles, ICNF, DGT e Comunidade Intermunicipal da região de Coimbra (CIM-RC), servindo para guiar e avaliar os resultados do projeto, 2) criação de mapas nacionais de susceptibilidade de mimosa para guiar a aquisição de imagens VANT e compra de imagens VHR, 3) validação dos mapas anuais de mimosa para Portugal continental considerando os anos do projeto.

 
16:00a17:00Atribuição de Prémios
Localização: Auditório ESAC (Bloco E)
17:00a18:00Sessão de Encerramento
Localização: Auditório ESAC (Bloco E)
20:00a22:00Jantar do congresso

Dom Duarte Estádio

Estádio Municipal Cidade de Coimbra, Rua Dom Manuel I, 3A (3.º piso), 3030-320 Coimbra